segunda-feira, 26 de março de 2018

A SEMANA SANTA


Gustavo Corção*
  
A comemoração litúrgica da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que na dor consumou nosso resgate, é uma lição repetida, é uma sabatina dos dois lados essenciais de nossa vida: o lado Cruz em que Nosso Senhor assumiu todas as nossas dores, convidando-nos a assim nos associarmos à sua obra, e descarregou com seu sangue a tensão de inimizade entre o homem e Deus; o lado Ressurreição com que ultrapassa tudo quanto poderíamos desejar. Para descrever o contraste da obra redentora São Paulo nos diz que “onde abundou o pecado superabundou a graça”, de onde poderíamos tirar várias conclusões de júbilo transbordante: onde abundaram tristeza e lágrima, superabundou a alegria. Ainda vemos essa alegria da Glória no lumem fidei, na lamparina da Fé que nos mostra tudo em sinais enigmas; mas um dia, se não opusermos a nossa vontade à vontade de Deus, veremos tudo o que estava escondido, e tudo resplandecerá no lumem Gloriæ.

O “mundo inimigo” que é o mundo, mas é um mundo, um Reino com seu Príncipe, e com seus clérigos nos trânsfugas que querem fundar a “nova Igreja”, que é uma anti-Igreja, a pretexto de exibir um humanismo interessado pela sorte temporal do homem, despreza a Páscoa do Senhor nos seus dois temos essências, na agonia da Cruz, e na Ressurreição.

A aliança que Deus nos propôs, por cujos termos toda nossa vida tem de se inserir entre a aceitação da Cruz e a certeza da Ressurreição, faz desta vida uma passagem, uma páscoa de valor infinito pelos seus termos extremos, sob a condição de renunciarmos aos pequenos céus frágeis e fugazes de nossa própria invenção. E é nesta renúncia do hoje horizontal, para uma entrega completa ao “hodie” vertical de vida eterna em Deus, é nesta exigência que tropeça o enorme movimento de apostasia de nossos tempos. Todos nós, ai de nós, apegamo-nos aqui e ali a um simulacro de paraíso neste mundo, mas não fazemos disto um sistema muito menos uma vanglória. Gememos, choramos, pedimos perdão 70 vezes 70.

Quando, porém, uma massa volumosa se congrega para secularizar-se, para se apegar ao mundo com grito de triunfo e com risadas de escárnio para a Casa do Pai, então não é só um recrudescimento de pecado o que vemos, não é mesmo uma heresia, “a heresia do século XX” como diz Madiran, não é só uma protestantização da Igreja isto que temos diante de uma consciência boquiaberta.

Com a característica de somar todas as heresias, esse movimento dito “progressista” é na verdade uma massificada e volumosa apostasia cujos fautores e cujos carneiros só não se afastam mais decisivamente, num último assomo de lealdade, porque hoje essa apostasia disfarçada rende muito mais do que os trinta dinheiros com que Judas comprou a corda.

Roguemos nós pelos irmãos na fé. Observemos bem que no Evangelho de São João, Nosso Senhor não desaconselha nem esconde esse amor de predileção. Depois do anúncio da traição que Jesus pronunciou com espírito aflito, Jesus se volta para despedir-se de seus discípulos, amigos e filhos: “Filhinhos meus, ainda um pouco de tempo estarei convosco; depois buscar-me-eis, e como disse aos judeus também vos digo agora: aonde eu vou não podeis vir, mas agora vos digo: trago-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei; que vós vos ameis mutuamente. E NISTO conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes caridade uns pelos outros”.

Os teólogos mais tarde ensinarão que há uma hierarquia na caridade. Neste momento de densidade infinita Jesus não hesita em dizer que seu novo mandamento consiste num amor de coesão dentro da Igreja, e já explica que esse maior amor dos fiéis, uns pelos outros, longe de ser detrimento para os outros, será sinal. “In hoc cognoscent omnes qui discipuli mei estis, si dilectionem habueritis ad invicem”. Pensando o valor deste sinal, para os outros, Tertuliano dizia: “vede como eles se amam”.

Mas no enxame de apóstatas que cerca a Igreja, os mais efusivos se apresentam como os mais bondosos e mais compreensivos do que Nosso Senhor, porque não se restringem nesse novo mandamento, e ostensivamente escolhem no mundo alheio à Igreja seus paradigmas e seus modelos de filantropia: Gandhi, Luther King, e os revolucionários Guevara e Camilo Torres. Na verdade, e como tão bem disse Marcel de Corte, esse amor abstrato pela humanidade em geral, pela classe operária, ou pelo Terceiro Mundo não passa de uma cruel falsificação do amor.

A semana da Paixão de Nosso Senhor, além de outras lições nos aviva a vigilância e a consciência de estarmos cercados de inimigos. Todas as formas da maldade do mundo têm um papel na Divina Tragédia, e não é de todos que Jesus diz: “Perdoai-os Pai, porque eles não sabem o que fazem”. Não é, portanto, para nos amolecer, e para nos tornar mais filantrópicos do que cristãos, que a Igreja realça a Semana Santa. É antes para lembrar o novo mandamento que nos tempera e nos orienta o amor.

*Revista PERMANÊNCIA, Ano VI, n° 54-55, Abril-Maio de 1973.


domingo, 18 de março de 2018

A GRANDE LIÇÃO DO CALVÁRIO


Reginald Garrigou-Lagrange O.P (1877-1964)

Fortis est ut mors dilectio: o que mais impressiona no amor de Jesus, quer por seu Pai, quer por nossas almas, é a união maravilhosa e muito íntima da mais profunda ternura e da força a mais heróica no sofrimento e na morte: Fortiter et suaviter.
Estas duas qualidades do amor estão, muitas vezes, separadas em nós e no entanto só podem viver intimamente unidas. A ternura sem a força torna-se langorosa e piegas, a força sem nenhuma suavidade, transforma-se em rudeza e amargura1.
Ninguém pode exprimir o que foi a ternura de amor filial de Jesus por seu Pai; se ele amava ternamente a Virgem Maria, quanto mais ainda seu Pai, a quem rendia perpétua ação de graças e adoração! Esta ternura sobrenatural se derramava e se derrama continuamente sobre as almas, não apenas as de um certo país ou tempo ou sobre um grupo restrito de alguns amigos, mas sobre todas as almas de todas as gerações para lhes dar a vida eterna.
Este amor de Cristo tão terno é também mais forte que a morte, mais forte que o pecado e que o espírito do mal. Foi ele que levou Nosso Senhor a se oferecer como vítima para pagar em nosso lugar, para nos salvar, dando a Deus uma reparação infinita que lhe agrada mais do que todo o desgosto causado pelos pecados: Cor Jesu, fornax ardens caritatis -- eis todas as ternuras e todas as energias do amor admiravelmente fundidas. O Coração de Jesus é assim o mais puro espelho da Misericórdia e da Justiça, as duas grandes virtudes do amor incriado de Deus.
Os membros do corpo místico de Cristo devem cada vez mais participar de sua vida para se tornarem semelhantes a Ele. A santa humanidade do Salvador nos comunica progressivamente as graças que mereceu por nós na Cruz, influxo da cabeça do corpo místico sobre seus membros. Por este influxo Nosso Senhor quer nos assimilar, cada vez mais, pelo batismo, absolvição, comunhão freqüente, cruzes ou purificações necessárias a nosso avanço, até a extrema-unção e a nossa entrada no céu. Na vida de muitos santos vê-se essa assimilação progressiva no modo pelo qual neles são reproduzidos os mistérios da infância de Jesus, sua vida oculta, depois sua vida apostólica e por fim sua vida dolorosa2.
Ora, uma das grandes marcas do espírito de Jesus em uma alma, é a reprodução nesta alma dos dois efeitos que derivam em Nosso Senhor da plenitude da graça.
Primeiro, a paz, a tranqüilidade da ordenação cada vez melhor de todos os sentimentos, de todos os quereres subordinados ao amor de Deus e das almas em Deus, amor que cresce continuamente pela influência atual de Cristo.
Em seguida, a aceitação da cruz, para seguir o Mestre, como ele disse; aceitação com paciência, do contrário a pena aumenta sem fruto; reconhecimento, pois está aí uma graça escondida, vê-se melhor quando o fardo é levado sobrenaturalmente; com amor, pois a cruz é Jesus crucificado, que vem a nós para reproduzir em nós seus próprios traços. Este amor dá o abandono e a paz. Aí se encontra a verdadeira soberania, a contemplação divina3.
O austero Luiz de Chardon diz com profundidade a este respeito, comentando São Paulo:

"Depois de termos admirado a violenta e insaciável inclinação do espírito de Jesus para a Cruz compreenderemos melhor como Ele a distribui pelas almas que lhe pertencem pelos vínculos da graça... Entendemos igualmente porque quanto maior é a elevação da alma em união com o espírito de Jesus tanto maior será sua obrigação quanto ao sofrimento... Também seria uma desordem da graça e das máximas do santo amor, se membros alimentados por confeitos estivessem ligados a uma cabeça transpassada de espinhos...
"Os membros são santificados pela mesma graça, que está em Jesus como em sua fonte universal. Ora, esta graça de Cabeça é comunicada a Jesus para a finalidade de sua missão, para que ele pague pelos pecados dos membros à justiça rigorosa de Deus. Por conseguinte, ele contrai a obrigação amorosa de sofrer provocando em seu espírito uma inclinação violenta que o transporta continuamente para a Cruz. É indispensável que esta graça incline do mesmo modo, com o mesmo rigor as almas predestinadas, a fim de que o corpo místico não pareça um todo monstruoso na ordem da graça, onde o espírito de Jesus seria contrário a si mesmo, sendo um nos membros e outro na Cabeça...
"Assim, porque a graça decorre da alma de Jesus como de sua fonte original onde ela produz um impulso dirigido para o fim pelo qual Jesus se fez homem, é uma necessidade que a graça cause esta mesma disposição naqueles que recebem a dignidade de nela participarem"4.

Este é um efeito da graça cristã como tal. A graça, por sua essência, é uma participação da natureza divina, mas, pelo fato de que nos é transmitida pelo Cristo, tem uma modalidade especial que nos configura a Ele como demonstra Santo Tomás quando pergunta se a graça sacramental, em particular a graça batismal, como tal, acrescenta alguma coisa à graça das virtudes e dos dons como a que possuía Adão antes do pecado (III, q. 62, a. 2).
Luiz de Chardon acrescenta e une assim a doutrina de um Tauler ou de um São João da Cruz à de Santo Tomás: "E porque esta espécie de graça não pode ficar ociosa em uma alma... é ávida para crescer e como só pode ter um crescimento considerável com a ajuda das cruzes... na nudez da graça, da qual suspendeu os efeitos sensíveis, Deus não abandona a alma à sua própria fraqueza. Nisto há o propósito de fazer a alma se conhecer e se desprender de si mesma... aderindo somente a Deus... A união será mais estreita e mais íntima quanto maior a separação de tudo mais.

"Daí que o mesmo amor é ao mesmo tempo princípio de vida e princípio de morte...; unindo e separando... afastando e causando adesões... A santidade de Deus comunicada a suas criaturas produz uma privação geral de tudo o que é incompatível com sua pureza imaculada5.
"Gloriosa morte... Rica de uma fecundidade divina... Morte entretanto mais cruel do que aquela que é o dever comum da natureza... pois só deixa tristes desolações nas almas! No entanto as almas bem instruídas sobre as propriedades do Amor sagrado e do fim que a santidade de Deus pretende com todas estas provações, não quereriam trocar nem por um instante seu rigoroso martírio pelas delícias embriagadoras do Paraíso, nem a cruel espera de sua morte pela feliz vida da glória"6.

É fácil ver a aplicação deste princípio na vida de Maria7. Como diz o historiador que repara o esquecimento em que caiu a obra de Chardon: "Talvez, a atividade separante, simplificante, despojadora da graça nunca tenha sido analizada com maior penetração"8.
Relendo atentamente o belo capítulo da Imitação de Cristo (1. II, cap. XI): "Do pequeno número dos que amam a Cruz de Jesus", vê-se que a marca do espírito de Cristo é a paz e o abandono no sofrimento, no acabrunhamento da Paixão, que se reproduz em diversos graus nas almas para as purificar e para fazê-las trabalhar na salvação do próximo em Nosso Senhor, com Ele e por Ele, com os meios dos quais Ele mesmo se serviu. Jesus está assim, num certo sentido, em agonia até o fim do mundo, no seu corpo místico até que este corpo místico seja plenamente purificado e glorificado, até que se realize perfeitamente a palavra do Mestre: "Venci o mundo", pela vitória definitiva sobre o pecado, sobre o demônio e sobre a morte.
Deste ponto de vista sobrenatural da fé, quando se contempla, digamos, com o olhar de Deus o que nos diz a santa liturgia, vê-se o quanto ela ultrapassa infinitamente os mais sublimes elans da poesia humana.

"Salve Crux sancta, salve mundi gloria,
Vera spes nostra, vera ferens gaudia,
Signum salutis, salus in periculis,
Vitale lignum vitam ferens omnium.

"Crux fidelis, inter omnes arbor una nobilis: nula silva talem profert fronde, flore, germine: dulce lignum, dulces clavos, dulce pondus sustinuit.
O magnum pietatis opus! Mors mortua tunc est, in ligno quanto mortua Vita fuit.
Nos autem gloriari oportet in Cruce Domini nostri Jesu Christi. Crux benedicta, nitet Dominus qua carne pependit, atque cuore suo vulnera nostra lavit".


Quando vossa alma dobrar-se sob o peso, apoiai-vos sobre vosso crucifixo.
Concluamos com São Luiz Maria Grignion de Montfort (L' Amour de la Divine Sagesse, 2a. P., cap. V):
"A Sabedoria Eterna fez da Cruz seu tesouro e em sua Encarnação esposou-a com amor inefável; durante toda sua vida, que não foi mais do que uma cruz contínua, carregou-a, pediu-a com indizível alegria... Pregada finalmente e como que colada à cruz, com alegria morreu abraçada à sua querida Cruz como num leito de honra e triunfo... E não pensem que depois de sua morte, para melhor triunfar, a Sabedoria Encarnada tenha se arrancado, tenha rejeitado a Cruz... Não querendo que honra de adoração, mesmo relativa, seja prestada a criaturas, por mais altas que sejam, como sua santíssima Mãe, reservou esta honra para sua querida Cruz e somente a ela é devida. A Sabedoria Encarnada, no grande dia do Juízo Final, acabará como o culto das relíquias dos santos, mesmo as dos mais respeitáveis; mas quanto às relíquias da Cruz, enviará os primeiros serafins e querubins pelo mundo para ajuntar os pedaços da verdadeira cruz que, por sua amorosa onipotência, serão tão bem reunidos que não farão mais que uma só e a mesma Cruz em que morreu, transportada assim pelos anjos... Precedida pela Cruz, colocada sobre uma nuvem de brilho inigualável, a Sabedoria eterna julgará o mundo com a Cruz e pela Cruz. Qual será então a alegria dos amigos da Cruz... Esperando esse dia... a divina Sabedoria quer que a Cruz seja o sinal, o caráter, a arma de todos os seus eleitos... Tendo encerrado tantos tesouros, tantas graças de vida na Cruz só dá a conhecer esses tesouros aos mais escolhidos... Como é preciso ser humilde, pequeno, mortificado, interior e menosprezado pelo mundo para conhecer o mistério da cruz! A quem carrega e suporta essa cruz, a Sabedoria Eterna dará um peso eterno de glória no céu".
*****

(De "L' Amour de Dieu et la Croix de Jesus", Ed. du Cerf. 1o. vol., cap. VI, pág. 255. Tradução de Anna Luiza Fleichman)

1.Ver sobre isto L. Chardon, La Croix de Jesus, 3o. entretenimento, cap. VIII, onde o autor mostra como Deus quer a ternura de suas criaturas para uni-las a sua força, e como Ele transforma esta ternura em força divina. "Ele quer que o amor intensivo caminhe na alma perfeita de par com o amor apreciativo e que a ternura dos sentimentos esteja de acordo com a preferência do julgamento".
2.Ver encíclica de Pio XI, junho de 1928, Miserentissimus Redemptor, sobre a reparação devida a Deus por todos os homens.
3.La Croix de Jesus, 1a. edição, pg. 119-121. Nova edição (Lethielleux) T. I, pg. 14, 29, 43, 136; T. II, pg. 376, 450.
4.Cf. São Luix Grignion de Montfort, L' Amour de la Divine Sagesse II P., cap. VI: "Meios de se obter a sabedoria divina: 1.) desejo ardente; 2.) prece contínua; 3.) mortificação universal; 4.) terna e verdadeira devoção à Santíssima Virgem."
5.La Croix de Jesus, ibid., pg. 125-128.
6.Ibid., pg. 146-147.
7.L. Chardon, ibid., no primeiro de seus três "entretenimentos", mostra o que foi o "amor separante", princípio de Cruz, na alma de Maria e dos apóstolos: são dez capítulos de grande profundidade sobre o martírio interior da Santa Virgem. No terceiro de seus "entretenimentos" ele descreve admiravelmente, à luz do mesmo princípio, os grandes ápices da vida interior de Abraão, de Elias, de Jacob, de Benjamin, da Esposa dos Cânticos, de Marta e de Madalena. Páginas admiráveis onde a teologia mística doutrinal aparece como o coroamento normal da teologia toda, tal como a conceberam Santo Agostinho, Santo Tomás e todos os grandes mestres. O capítulo sobre Elías (3o. entretenimento, cap. 25) é digno de nota: "Moisés dizia: "Apagai-me do livro da vida"; São Paulo pedia para ser anátema por causa de seus irmãos! Mas estes desejos não tinham outro efeito senão testemunhar o grande amor destas almas por seus irmãos... Não é este o caso de Elias. Há cerca de três mil anos que Elias está privado da visão de Deus, e estará privado até o fim do mundo, para satisfazer desejos que participam da imensidade divina... Elias está reservado... para lutar contra o Anticristo".
8.Bremond, Histoire Litt. du Sentiment Religieux en France, t. VIII, pg. 43. Não sei se Chardon leu São João da Cruz, em todo caso ele está imbuído de Tauler de quem expõe a doutrina.


sábado, 17 de março de 2018

PEDAGOGIA DA VIRTUDE


Frente à Pedagogia da mediocridade e do ecletismo, frente à proposta de um self-made man sem outro compromisso senão com a ausência de compromisso, frente à moral autônoma, frente aos pensamentos moveis e à anormalidade homologada como normal, frente a todas as formas de imanentismo, reducionismo e massificação, frente à destruição da vida contemplativa com as maquinas de ensinar e os programas de controle remoto, frente – em suma – à Pedagogia Moderna, é necessário, urgente, impostergável, reconquistar a Pedagogia dos Arquétipos.
Tudo já foi provado; resta provar a Verdade.
Um ensino fundamentado no senhorio sobre si mesmo – que não é outra coisa que a verdadeira liberdade -, na renúncia e na obediência, na concepção da vida como um ato de serviço; um ensino baseado nos mais elevados valores especulativos e nas mais licitas preocupações concretas.
Pedagogia do homem essencial, portador de um destino transcendente; Pedagogia da virtude e do Patriotismo; da Ordem Natural e do realismo; Pedagogia da Cruz e não da foice e do martelo...
A resposta adequada deve partir de uma atitude metafísica. Não basta resolver problemas conjunturais por importantes que pareçam. Mas, ademais -  e isto é decisivo -, esse movimento da alma para o Exemplar que suscitam os Arquétipos, não só incide no próprio aperfeiçoamento pessoal e social mas tem seu desenlace obrigatório, sua coroação, diríamos, no conhecimento e imitação do Arquétipo por antonomásia, a Causa Exemplar, Modelo e Modelador, guia e matriz de tudo o que existe: Deus.
*****
Antonio CAPONNETTO. Pedagogía y educación: la crisis de la contemplación en la Escuela Moderna. Colección Ensayos Doctrinarios. Buenos Aires: Cruz y Fierro Editores, 1981, pp. 256-257.


A GRANDE PENÚRIA ESPIRITUAL QUE NOS OPRIME


A grande penúria espiritual que nos oprime é, com efeito, a carência de sacerdotes. Dar sacerdotes ao Brasil é dar injeções de vida às pobres almas brasileiras que por aí pululam ao desamparo e à mercê das investidas da heresia e da depravação. É levar o lume santo e salvador do Evangelho a esses rincões tão vazios de Deus! É abrir às almas as perspectivas sublimes da vida e da luz eternas por que todas aspiram e que tantas desconhecem! É trabalhar por um Brasil melhor, porque mais orientado para a Fé que salva e para o verdadeiro Bem que redime! É, portanto, fazer obra de autêntico patriotismo, porque é integrar os nossos irmãos no patrimônio civilizador que recebemos no berço da nacionalidade e que mãos protervas e lábios satânicos contendem por arrebatar dos braços da Santa Igreja! É dar à Pátria filhos obedientes, blindados de energias indômitas para a luta em prol da causa de Deus que tantas vezes - e agora mais do que nunca - se confunde com a causa mesma da Pátria. É dar à nossa infância o antidoto imunizante dos venenos que corroem as adolescências desarvoradas. É dar à vida o verdadeiro sentido que a dignifica, erguendo, sobre os fundamentos autenticamente humanos, o edifício cristão que os coroa e sublima, pela consciência exata e total do dever individual, doméstico e social. É preparando almas para Deus, preparar, pelo fato mesmo, filhos úteis, prestimosos e devotados para a grande Pátria que estremecemos. 
***
Pe. Jorge SOARES C. M. In Revista Semana Católica, Bahia, 18-05-1942.


sexta-feira, 2 de março de 2018

TELEVISÃO E DISSOLUÇÃO FAMILIAR


“A pretensa objetividade da televisão não existe, não pode existir. Como nos explicou Vladimir Lamsdorf-Galagane em um de nossos Congressos, toda informação é discurso, é opinião. Por objetiva que pareça, implica uma forma de pensar. No que diz respeito à família, tanto como objeto quanto como sujeito passivo, a televisão exerce uma clara influência ideológica, que determina tanto o que os membros da família pensam como o que a sociedade pensa e opina sobre a família. Em nosso país durante as últimas décadas, a Televisão foi um permanente agente a serviço da atual conspiração contra a família, exercendo um papel chave para a introdução e aceitação social do divórcio, do aborto, das relações pré-matrimoniais, e em geral, de todas as formas de erosão da família tradicional e cristã.
Ademais, a televisão opera sobre determinados esquemas mentais, capacidades cognitivas, estruturas perceptivas e sensibilidades preexistentes no indivíduo. Mas ao mesmo tempo que se ativam são modificadas pelo meio. A televisão produz um fenômeno de hiperestimulação sensorial, que leva a uma necessidade de estimulação sensitiva continua, que por sua vez provoca falta de concentração e uma visão fragmentada da realidade que foi denominada 'cultura mosaico'.
Enquanto a cultura tradicional era limitada nos conhecimentos, mas organizada, coerente, estruturada, a cultura mosaico se caracteriza pela desordem, a dispersão e o caos. A televisão favorece um tipo de conhecimento incoerente e descentralizado. Em um informativo, por exemplo, se passa da tragédia na Ruanda aos resultados da liga de futebol, e segundo depois um anuncio frívolo apresenta a felicidade fugaz através da aquisição de um perfume... A imagem televisiva potencializa, por outro lado, o pensamento visual, intuitivo e global contra a leitura, que estimula o pensamento lógico, lineal, sequencial. Por essa razão, ver televisão não requer concentração, senão apenas abertura. Se privilegia assim a percepção sobre a abstração, o sensitivo sobre o conceitual e, em definitivo, a implicação emotiva. Assim ocorre que as respostas que a televisão desencadeia são mais do tipo de “gosto-não gosto” do que “estou ou não estou de acordo”. O intuitivo e o emocional tende a prevalecer sobre o intelectual e racional, o que dá lugar a um estilo impulsivo de pensamento em lugar de um estilo reflexivo. Outrossim, a televisão potencializa o sentido de imediatismo e de dinamismo e, definitivamente, o sentido da impaciência ao oferecer uma satisfação imediata derivada do próprio significante, diferentemente da leitura, cuja gratificação é retardada por provir do significado e não dos signos do significante. Satisfação instantânea e hiperestimulação sensorial que a retroalimenta. E quando a experiência não é gratificante cabe sempre recorrer ao controle para mudar de canal.  As frustrações se produzem quando na vida não se pode mudar de canal tão facilmente, nem se pode acelerar o ritmo dos acontecimentos, vivendo com a impaciência do zapping* nos olhos e no coração.
Assim, a televisão é um catalizador do gosto do homem atual da mudança pela mudança e se opõe, evidentemente, ao forjamento do caráter e das virtudes, à capacidade de entrega, de sacrifício e autonegação que requer tantas vezes a vida familiar e a educação dos filhos".
***** 
Javier URCELAY ALONSO. Tevisión y Disolución Familiar, Revista Verbo, n. 339-340, Madri, pp. 995-997.

*Mudança rápida e consecutiva de um canal para outro, com o controle remoto, geralmente para evitar os intervalos comerciais.


SANTIFICA O TEU DOMINGO


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O MONOPÓLIO DA EDUCAÇÃO PELO ESTADO


Pe. Leonardo CASTELLANI (1899-1981)*.

Centralização significa a absorção de toda a atividade dos corpos intermediários e mesmo dos indivíduos pelo Estado. Esta absorção cresce desde a famosa francesada de 1789 até hoje, de modo que é possível dizer que hoje todos os Estados são tiranias. O maior ladrão de qualquer Estado é o Governo. O publicista Bertrand de Jouvenel, em seu denso tratado O Poder, compreende que essa absorção é inevitável no Estado; que o agigantar-se é essencial ao Estado. Deveria ter acrescentado a condicionante: a menos que outro não o impeça. Com efeito, a função natural dos poderes parciais e relativos (Família, Município, Grêmio, Dinheiro, Universidade, Exército) é limitar o poder, em si açambarcador, do Poder Central.
Hoje em dia o Estado faz de tudo, menos, às vezes, o que deveria fazer. De sapateiro a construtor de casas, o Estado se mete em tudo... Você não pode publicar um livro sem ter o Fisco em cima. O Fisco sangra toda a atividade produtiva e inclusive monopoliza a maior parte das atividades produtivas.
Mas onde o Estado se mostra mais zeloso e por isso mesmo mais danoso é no Monopólio do Ensino. O Estado é o mestre de part Dieu – que digo? -, é o Mestre dos Mestres, o Mestríssimo. Direta ou indiretamente é o que transmite a - chamemo-la assim – Educação, diretamente nas escolas ‘publicas’, indiretamente nas escolas mal chamadas ‘privadas’.
Esta aberração de o “Político” se meter a reger ou a fazer o que não lhe corresponde, sem aptidão, nós copiamos da Terceira República francesa e esta copiou de Juliano, o Apostata, com o fim de perseguir a Religião. Napoleão também o fez, mas com fim diverso. É o dogma mais acariciado do futuro Estado socialista e é o credo do Anticristo. Os pais têm o dever e o direito de educar seus filhos; a Igreja tem a missão de ensinar a religião. O Estado é político e não educador, a não ser para subjugar a educação à política, e nesse caso, à infidelidade. “Greve dos trabalhadores da Educação”. Este enunciado grotesco é a criada marota que se tornou como que a divisa do Estado Educador. Está acontecendo aqui o se passou na França, a saber: o Estado Anticlerical fundou a Escola Normal Superior, que devia forjar todos os mestres superiores, e reservou para si o poder de habilitar os mestres comuns. Queria fazer dos educadores os “soldados da República”, como se expressou Jules Ferry, ou seja, aqueles que inocularam nas crianças indefesas o laicismo e o anticlericalismo.
Com efeito, como resultado lógico ocorreu que os mestres se fizeram comunistas, e começaram a dar dor de cabeça à ‘República laica, una e indivisível’, com greve atrás de greve começando por pedir ‘aumentos de salário’...
Quando o dano ou o escândalo se torna intolerável, o Governo cede e aumenta os salários e os trabalhadores da Educação se reintegram ao trabalho de educar, depois de haver dado o mau exemplo de deseducar. ‘Os soldados da República’.
Aqui neste país, o monopólio da educação é responsável pela decadência da educação; e a decadência da educação é responsável, em grande parte, pela decadência da República.
__________________________
*Prólogo ao livro Nociones de comunismo para católicos, de Enrique Elizalde, In. Seis Ensayos y Tres Cartas, Buenos Aires: Ediciones Dictio, Buenos Aires, 1973, p. 142-144.


O PAPEL DO ESTADO EM MATÉRIA DE EDUCAÇÃO


Revista A Cruz, 22 de abril de 1928.
______________________________

Há um axioma antigo de pedagogia, segundo o qual os doentes devem repetir aos alunos os princípios já ensinados, por que, assim, a força de ouvi-los amiúde, vinguem facilmente gravá-los na memória ou assimilá-los na inteligência.
Também o Mestre Supremo e Infalível da Verdade, uma vez por outra, se utiliza deste recurso de método, como meio de defender e guardar inalterada a ortodoxia da fé. Foi o que aconteceu, agora, na audiência ao Conselho dos Homens Católicos, de Roma, diante dos quais Pio XI acaba de lembrar a existência de dois princípios, desde muito normativos da consciência do mundo cristão.
O primeiro é o de caber aos pais e não ao Estado, o dever de dar educação aos filhos, obrigação esta inerente ao pátrio poder que os chefes de família devem cumprir em harmonia com os interesses da sociedade. O segundo é a competência exclusiva da Igreja no tocante ao ensino religioso, quer ministrado em forma de homilia, quer de modo catequético à infância.
Se quanto à ultima destas afirmações do Soberano Pontífice, ninguém há capaz de fazer reservas bem fundadas, o mesmo não se dá em relação à primeiro, à qual muitos opõem uma tese contrária.
O papel do Estado em matéria de educação é de mera assistência, em que exerce apenas uma função suplementar, por delegação tácita dos pais. Daí a exorbitância dos poderes públicos, ao se arregrarem o direito de dar uma instrução em desacordo com os sentimentos religiosos das famílias; daí a escola leiga, ou melhor, a escola sem Deus, tudo sendo consequência natural, de uma tese que ora se generaliza.
Contra este cerceamento de um direito natural, que os pais não podem abdicar de todo, sem faltar à sua missão social, os premune a Sentinela Vigilante da Igreja de Jesus Cristo.
E era necessário fazê-lo; porque, se os chefes de família católicos, da Alemanha, acabam de fazer diante do Reichstag, uma denodada e edificante reivindicação, ao se tratar, ali, do problema escolar, o indiferentismo de muitos outros vai comprometendo, em outros países, as crenças das futuras gerações.
Infelizmente entre nós, os governos agem sempre discricionariamente quando tratam de um assunto como este, de tanto interesse para a família.
O ensino leigo ou monopolizado pelo Estado é uma das armas mais perigosas manejadas pelos inimigos da nossa fé.
Contra ela, foi que se levantou, agora, a voz de Pio XI, em aviso prudente e sábio ao Conselho dos Homens Católicos, em Roma, voz cuja ressonância Deus queira impressione também os tímpanos dos que nos leem.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

PELA MORAL

“Só a educação moral da juventude, baseada nos princípios sólidos da religião, poderá livrar a família e a sociedade da corrupção dos costumes. Sem os princípios religiosos, que constituem a garantia da moralidade nacional, muito precário, e de resultados efêmeros, há de ser qualquer esforço contra os desregramentos da vida.
Os males que deploramos são consequências muito lógicas do ensino leigo e da educação sem Deus. As crianças não aprendem mais pelo catecismo, que foi varrido das escolas como coisa inútil e até prejudicial à liberdade de pensamento. Os filhos gozam hoje na família de uma independência, que nunca tiveram na sociedade os nossos antepassados. O princípio de autoridade, menosprezado e amesquinhado na vida pública, também vai desaparecendo do lar doméstico onde os pais são desrespeitados por questiúnculas insignificantes. A chave de trinco no bolso do menino que chegou à puberdade é a porta aberta a todos os vícios, e o passaporte da vadiagem desenfreada e livre”.
*****
Pe. R. Costa Rego. Revista A Cruz, n.2, 1919.


O GOSTO DA INVISIBILIDADE E DA INTERIORIDADE

Gustavo Corção (1896-1978)

A vida interior, a vida da alma e a vida da família entre quatro paredes vai perdendo dia a dia a sua organicidade, e vai cedendo terreno à vida devastadora das ruas. Faz-se hoje tudo em público. Desde o sorvete lambido nas calçadas de Copacabana pelo indivíduo de blusão azul, que anda com um ar bonzão e felizardo de quem acabou de se aliviar, até as mais extremadas manifestações amorosas dos casais curados dos antigos preconceitos pela moderna psiquiatria, tudo hoje tende a tornar-se público e ostensivo.
Eu diria, citando mais uma vez Gertrud Von Le Fort, que o mundo moderno precisa de um véu, símbolo do invisível e paciente mundo feminino. Mas com essa idéia de reclamar o véu, eu não quero dizer simplesmente que se deva apenas promover uma campanha para conseguir que as mulheres se vistam com mais modéstia. [...]
Mas a idéia do véu, como vitamina mulheril para o escorbuto de nosso tempo, deve ser compreendida de um modo mais geral. Não é somente o corpo que urge velar, é a própria vida íntima, o próprio coração. E não é somente nas pessoas, uma por uma, que se aplica essa dieta, mas na própria civilização.
O homem moderno precisa efetivamente recuperar o gosto da invisibilidade e da interioridade. Se há na vida das cidades uma atividade pública, e se há na vida da Igreja um culto visível e público, é preciso que a essas coisas corresponda uma componente de vida interior, na família e na alma. 
*****
Trecho do livro As Fronteiras da Técnica,  Rio de Janeiro: Agir, 1955. *Título original: A vocação da mulher.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A ESCOLA

Com o primeiro filho, constitui-se na família uma nova sociedade - a sociedade parental ou paterna - que não é outra coisa senão a extensão e o complemento natural do matrimônio. Daí a obrigação gravíssima dos pais educarem seus filhos, educação que há de ser física, intelectual e moral, consoante a natureza humana. Esta obrigação importa um direito inalienável dos pais sobre os filhos, direito que não é propriedade, mas consiste na autoridade única e exclusiva de educação. Dessarte, não deve Estado imiscuir-se em coisas de educação, cumprindo-lhe apenas o dever de auxílio ou subsídio às famílias, no que diz respeito à instrução da mocidade. Sejam os pais zelosos das suas prerrogativas naturais, mas convém não esquecerem que, antes de qualquer direito, existe o dever positivo ou natural, donde se origina o mesmo direito. Antes do direito está a lei. E a lei natural impõe sobre os pais uma série de compromissos, que bem se resumem na arte de educar os filhos. Educar um filho é cuidar atentamente dele desde o seu nascimento até a sua maioridade; defendê-lo de qualquer acidente corporal ou espiritual; desenvolver nele o vigor físico, o espírito de iniciativa, o sentimento de responsabilidade; inspirar-lhe amor ao trabalho, afeição à família, dedicação à pátria, estimulá-lo para o bem próprio e comum - baseando todo esse trabalho magnífico no santo temor de Deus, que é o princípio da sabedoria. A educação há de ser cristã, católica aliás, para evitarmos equivocações. Não basta esse cristianismo suspeito, de que fazem praça os hereges protestantes, e que diminui, ou destrói o santo temor de Deus. Nem se devem contentar os pais com a moral bastarda, chamada independente ou leiga, isto é, sem Deus. "Moral sem Deus - dizia Napoleão -, justiça sem tribunais". Formar bons católicos, preparar cidadãos úteis à religião e à pátria é em que devem se ocupar principalmente os pais. E aqui vem a talho a recomendação oportuníssima e necessária que fazemos aos pais para mandarem os seus filhos ao catecismo, máxime se frequentarem as escolas públicas, onde não há o ensino oficial da religião. Não podem descansar os pais, descuidando desta obrigação. A melhor consolação para os pais na hora da morte será o terem cumprido este dever. "Eu morro contente - dizia à família, nos seus últimos momentos, Bussen, político e notável homem de letras - eu morro contente: neste momento solene para mim, minha maior consolação é ter procurado com todas as minhas forças, fazer amar e adorar Jesus Cristo".   
***** 
*Artigo publicado na Revista A Cruz, Ano II, n. 1, Rio de Janeiro, 19 de setembro de 1920.