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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O POBRE


Dom Marcos Barbosa O.S.B*

Maria e José atravessam a cena. A cada um dos sonhos ela se inclina um instante sobre o ombro do carpinteiro. Numa representação com mais personagens, um foco de luz poderá deixar por alguns instantes o santo casal e focalizar, mais ao fundo, o que será descrito no sonho seguinte, como o oferecimento dos anjos e dos reis, e dança dos pastores, e o lugar do presépio.

José
Maria, tão calada,
na noite fechada,
no frio da noite...
Dize: ainda está vivo o teu filhinho?
Ainda o sentes mover como a ave em seu ninho?
Como a criancinha no berço?

Maria
José, José,
eis que de novo adormeço,
enquanto paraste um pouco para tomar alento...
E... quanta coisa sonhei neste momento!
Foram anjos, José, multidões de anjos...
Formaram com suas asas um imenso palácio
querubins e serafins,
tronos e potestades.
Música maravilhosa partia daqueles que tinham na mão seus instrumentos,
e a música perdia-se no vento,
e o vento era música...
E as asas dos anos eram como um dossel imenso.
E as nuvens,
as nuvens de incenso
subiam, subiam...
Um deles trouxe um pequenino altar,
que era o próprio sol,
e me disse:
“Ó bela filha dos homens,
cuja beleza os anjos invejam,
coloca nesse escuro berço e trono o teu filho!”
E então o meu filhinho,
que ainda não nascera,
disse baixinho,
baixinho:
“Não, não quero o sol,
não quero nascer como um Deus;
prossegue o caminho”.
E eu despertei, e sumiram os anjos...

José
Maria, pobre Maria, já não podes mais caminhar...
Vamos parar de novo um instante.
Inclina de novo a tua fronte no meu ombro,
e eu prenderei a respiração
para não despertar-te...
Ela dorme... Já está dormindo.
Como deve estar fatigada
na noite fechada,
na noite cansada...

Maria
José, adormeci de novo
e de novo sonhei!
Em tão rápido instante,
imagina o que vi!
Não estava agora no fulgor do céu,
mas uma caravana bimbalhante
de guizos e de sinos
se aproximava.
Havia nela, entre os demais, três camelos enormes.
E quando cada um desses chegava
bem perto de mim,
o rei que o montava descia
e vinha prostar-se aos meus pés.
E me diziam: “Por quem és,
põe o teu filho, logo que nasça, neste trono”.
Pois um trazia um trono,
outro, uma almofada,
outro, um dossel...
Mas o meu filhinho, nesse momento, disse baixinho:
“Mãe, ainda que já não possas mais caminhar,
continua, continua o caminho.
(Que mérito terão os homens em acreditar que eu sou rei, se deste modo nascer?)

José
Maria, nós somos descendentes do Rei Davi...
Como me dói ver-te assim sem nada,
na noite fechada!
Dize: ainda vive o teu filhinho?

Maria
Oh, agora, nada sinto, José,
apenas que os meus olhos de novo se fecharam,
e sonhei...

José
E sonhaste?
Parece incrível, em tão breve minuto!
Sonhei...

José
Eu te escuto.

Maria
... que não era no céu,
nem mesmo na estrada,
mas no verde campo entre os pastores.
Bem sabes que eu gosto dos pastores.
Havia uma pequenina como Bernadete;
outra, como Lúcia.
Pastores, pastoras, pastorzinhos.
Todos cantavam, dançavam, rezavam.
Tinham coroas de flores na cabeça.
e as ovelhinhas dançavam com eles,
em torno deles,
como uns cordeirinhos de Deus,
como uns inocentinhos cujo sangue fosse ser derramado,
e que antes de morrer
dançassem...
E então, de repente, eu entendi o que os pastores cantavam,
que aquela festa toda era para mim,
esses cantavam: “Já nasceu
o Menino Deus;
vinde adorar,
vinde vós, pastores!”
Então um deles disse: “Não, ainda não nasceu;
vai nascer agora mesmo.
E terá frio,
o frio da noite.
mas paremos o bailado,
que as ovelhas todas se exprimem,
vamos agora tosquiá-las
no lugar e na neve.
E façam, assim, as pastoras um tecido bem leve
e bem quente...”
E com uma pressa surpreendente,
puseram-se os pastores a tosquiar
e as pastoras a tecer e fiar,
enquanto só as criancinhas continuavam dançando,
cordeiros inocentes.
E elas trouxeram,
logo que ficou pronta,
mantilha alvíssima de lã,
que parecia uma toalha de altar:
“Quando o teu filho nascer,
coloca-o aqui;
nós o embalaremos nessa toalha
como numa rede.
Pois eis que ele já vai nascer”.
Mas ainda ouvi a voz do meu filhinho,
que exultava no meu seio, mas dizia:
“Não quero vir como um Deus,
nem como um rei,
nem nascer como um pastor”.

José
Por favor, Maria,
não te fatigues tanto, falando!
Belém todinha se fechou.
Não encontramos onde pousar,
onde pousares o teu filho...
Ele não tem, como as raposas, onde repousar a cabeça...

Maria
José, eis que de novo adormeci,
e sonhei, e estou sonhando
estarmos numa gruta
sem asas de anjo,
presentes de reis,
música de pastores...
Uma pobre gruta vazia...
Não, não vazia!
Há algo de morno e espesso que dorme a um canto,
mas que não mete medo,
que infunde até, com o seu ressonar, uma sensação de paz.
É um boi.
E mais atrás,
mais negro ainda,
um burrinho...
Eles despertam...
Parecem gente,
parecem inteligentes,
e vêm prostrar-se junto de uma espécie de caixa cheia de feno.
Com o seu focinho, o burro parece querer indicar que oferece aquele lugar.
E o boi parece
dizer o mesmo sem palavras.

José
Não, Maria, não estás agora sonhando.
Chegamos de fato a uma gruta,
transformada em estábulo,
habitada por um boi e um burro...

Maria
José, José,
ouço agora um sussurro...
José, José, nem mais um passo!
Sinto agora o meu filho
estremecer de novo em meu regaço.
Ouço a voz do meu filhinho
dizer baixinho,
baixinho:
“É aqui!
É aqui!”

José
Não quis nascer como Deus,
não quis nascer como rei,
não quis nascer como pastor,
quis nascer como pobre...

Maria
É aqui!
É aqui!

*****
*Publicado na Revista A Ordem, n. 6, dezembro de 1960, p. 369-374.


sexta-feira, 11 de maio de 2018

UMA PROVISÃO DE LÁGRIMAS


"Todos, até as mães mais devotadas, não terão feito tudo o que podiam, tudo o que deviam ter feito. Exceto uma talvez: a que estava de pé, ao lado da Cruz. E não fora fácil, aquele filho misterioso, que aos doze anos se esconde no templo e responde asperamente aos pais: "Por que me procuráveis?" E agora, que ela o via na Cruz, ela desejava também uma chance. Não que o Filho sobrevivesse: ela sabia que fizera tudo, e que tudo deveria mesmo se cumprir. Mas o que ela queria era ter sabido antes, para ter antes começado a chorar. "Se ela tivesse sabido - diz PÉGUY -, ela teria chorado sempre, chorado toda sua vida, chorado antecipadamente, chorado de reserva. Ela não teria sido traída surpreendida pela dor..." Teria chorado em Belém e em Nazaré, no templo e na rua. Teria feito uma provisão de lágrimas".
*****
Dom Marcos Barbosa. Uma chance, Revista A Ordem, n. 05, Maio de 1951, p. 267-268.


quinta-feira, 3 de maio de 2018

RESSURREIÇÃO DA CARNE


Lauro de Araújo Barbosa* (1915-1997)

Teu corpo, Perfeito como o vaso do oleiro,
Em que eu bebi a essência de tu'alma,
Há de voltar ao solo,
De onde vem a argila.

Tuas mãos,
Que se ergueram numa oferta,
E se puseram sobre as minhas num gesto de noivado,
Hão de tonar-se em humus,
De onde vem o lírio.

Teu cabelo,
Que cobria tua cabeça como um véu,
Diante da minha majestade de homem,
Há de voltar às minas,
De onde vem o auro.

Teus olhos,
Carvões desoladores,
Que queimaram a minh'alma e purificaram o meu corpo,
Se apagarão no céu,
De onde vem a luz.

Tua boca, Livro purpureo,
Que guardava as palavras da Sabedoria,
Mergulhará no mar,
De onde o coral vem.

Teus gestos,
Sóbrios como um culto,
Que marcaram o límite do meu mundo,
Hão de perder-se no espaço,
Como um vôo ferido.

Tua voz,
Que aplacava a minha ira
E chegava à torre do meu exílio
Há de se partir como a corda, de onde vem o som.

Teus passos,
Que maracaram sulcos na minha carne,
Hão de se perder como o rastro do peregrino,
Que a areia do deserto apaga
Na direção incerta.

Mas um dia,
Ao soar das Trombetas,
As tuas particulas desagregadas,
Entradas na formação de outros mundos,
De novo formarão um todo perfeito,
Sem ruga e sem mancha.

Então os anjos,
Com as suas asas de fogo,
Longas e rubras,
Formarão um círculo em torno do teu corpo,
Para defendê-lo;
E ele será como a cidade invicta,
Onde ninguém Penetra.

Mas quando eu chegar.
Transfigurado,
Na minha veste de nupcias,
Os anjos se afastarão,
Silenciosos...

E eu, comovido
Ante a tua beleza,
Que nada iguala,
Apenas tocarei, com medo,
A orla do teu vestido.
*****



*Lauro de Araújo Barbosa é o nome de batismo de DOM MARCOS BARBOSA, o monge poeta, tradutor de "O Pequeno Príncipe", a magnífica obra de Saint-Exupéry, e também, entre outras, de "O Anúncio feito a Maria" de Paul Claudel. A poesia que ora publicamos foi extraída da Revista A Ordem, 1937, n. 80, p. 51-53.




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

PEQUENAS GOTAS...

Mais um dia Senhor, vai começar agora para nós.
Mais um dia vai escorrer das tuas mãos eternas como aqueles sete primeiros, de que fala o Gênesis.
E nós mesmos, Senhor, que somos nós, senão pequenas gotas, ainda presas às tuas mãos, gotas em que se reflete todo o universo, em que se reflete a tua Face?! Pois se retirasses, Senhor, as tuas mãos, cairíamos todos no nada, no nada de onde nos tiraste, de onde nos tiras a cada instante....
Se retirasses, Senhor, a tua mão, voltaria ao pó de que foi tirado aquele que está falando, voltaria ao pó aquele que está ouvindo, e estalar-se-ia – corda partida de instrumento – a cadeia de vibrações que os liga, esta breve manhã, pelo teu longo espaço.
Teus, Senhor, são os dias; tuas, as horas; tuas, as nossas vidas, que por ambos deslizam.
Mais eis, Senhor, que vão começar dentro em pouco as horas roubadas, e as vidas roubadas também. Pois eis que vamos começar em breve a esquecer-te na faina do dia, ou, que sabe mesmo, renegar-te?
Esquecer-te, Senhor, será mister, pois não temos a força de continuamente fitar-te, de continuamente ver-te a Face nas faces que vamos encontrar, que ao nosso lado já cruzam...
Mas renegar-te, Senhor, eis o que é duro. Surpreender-te no olhar que implora uma palavra, e não ter a coragem de um gesto, – eis, Senhor, o que é terrível; eis, Senhor, o que um dia nos será cobrado por ti, que nos sustentas agora nas tuas mãos, pobres gotas que somos.
Quantos, Senhor, não se esqueceram da sua origem e não se encheram de ar, bolhas ridículas, ao sabor do vento?
Mas a nós, Senhor, que ainda conhecemos o calor da tua palma, guarda-nos na tua mão. De onde nos podes livremente deixar tombar, mas onde nos podes, também livremente reter, para as pérolas da tua coroa...
E há gotas, Senhor, translucidas, retiradas – ai de nós! – do nosso contato, e que já introduziste no teu celeiro celeste ou purificas ainda em benfazeja chama.
São os santos que iremos celebrar no dia primeiro, ou as almas por que iremos rezar no dia dois de novembro.
Mas entre essas todas, que gota mais diáfana e pura, que aquela que fizeste um dia subir da terra ao teu encontro em lúcida assunção?
Gota pequena aquela, que trazia no seu nome o mar, e que trouxera, no seu seio cristalino, o próprio Deus dos mares e das gotas...
*****
D. Marcos BARBOSA (1915-1997). Crônica publicada na Revista A Ordem, Novembro-Dezembro de 1950, n. 5-6, pp. 303-304.


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

ESSA PEQUENA PEÇA: DEUS

"O mistério não é um muro onde a inteligência se espedaça - lembrava Gustave Thibon -, mas um oceano onde a inteligência se perde". Se aceitamos o mistério, tudo ganha uma nova dimensão, tudo se transfigura e ilumina, pois tudo traz em si, embora oculta, uma razão de ser. "Precisamos de mistério", diz Chesterton, "para não enlouquecer", tendo de agir sem causas e sem motivos. Sim, se retirarmos do mundo essa pequena peça Deus, os lares se desmoronam, as famílias se partem, os laços se dissolvem.
*****
Dom Marcos BARBOSA. A perfeita alegria, Revista A Ordem, Junho de 1951, p. 340-341.