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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

A FAMÍLIA COMO LAÇO DE AFETO


“A família é o laço de afeto que dá à sociedade em que vivemos o caráter de pátria, e quando essa ideia se agita em nossa mente e em nosso coração, é que nele se agitam, dando consistência e substantividade ao conceito, as noções e as lembranças do lar, e as reminiscências da infância envoltos nas carinhosas repreensões do pai e os jogos alegres dos irmãos e as lagrimas e abraços da mãe”.
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Pe. LUIS CHALBAULD (S.J). La familia como forma típica y transcendental de la constitución social vasca, p. 45.


sábado, 3 de novembro de 2018

A ORAÇÃO


O mais importante é a oração: eis que chega o tempo de orar e de agradecer.
Certa mãe que pressentiu a chegada de um novo ser disse-me que deveria rezar por ele, para que todos os latejos do seu coração pertencessem ao filho. Fiquei surpreendido e a pensar nas razões por que toda a mãe deve rezar pelo bem do seu filho nesta vida e no reino da graça. Talvez porque todo o universo esteja compreendido na oração da mãe que reza.
Donna Música, depois da batalha de Monte Branco que o marido venceu, ajoelhou-se na igreja de São Nicolau, pensando no filho que trazia no seio e rezou:
“Ó meu Deus, que bem se está neste lugar e que
alegria estar aqui convosco! Em parte nenhuma se
poderia estar melhor.
“Não é preciso dizer nada. Basta trazer-vos o meu
rude ser e ficar em silêncio aos vossos pés.
“O segredo que se oculta no meu coração, só Vós
o conheceis. Só Vós compreendeis o que é dar a vida.
Só Vós partilhais comigo deste segredo da minha
maternidade:
“Uma alma que faz outra, um corpo que alimenta
outro corpo, em si mesmo, da sua substância.
“O meu filho está em mim e ambos estamos unidos
a Vós.
“E juntos rezamos por este pobre povo desorientado,
ferido e despedaçado que· me rodeia para que se
deixe curar e compreenda os conselhos do inverno, da
neve e da noite.
“Coisas que noutros tempos eu não teria compreendido,
antes de ter em mim este filho, quando a
minha alegria estava fora de mim”.
Que a cólera, o medo, a dor e a vingança,
abram caminho às mãos carinhosas da neve e da
[noite.
(Paul Claudel)
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Cardeal MINDSZENTY. A Mãe, 2ª ed., Lisboa: Aster, pp. 95-96.


O VALOR DO SILÊNCIO


Um grave autor, escrevendo um livro sobre o martírio diz que o casamento é um, pelas mil consumições que consigo acarreta, antes, diz ele, tenho por certo, de muitos mártires que veneramos sobre os altares terem sofrido muito menos, do que sofrem muitos casados e casadas. Terão tribulações, diz São Paulo, terão tribulações. Quando aquele felicíssimo e castíssimo consórcio de Maria e de José as teve, e tamanhas, como foram cruéis suspeitas e desconfianças, pensamentos de divórcio, mágoa da perda do menino Jesus, e tantas outras, quanto mais agora o casamento dos pecadores?
Portanto, quem se casa abrace-se logo, com a sua cruz, e quando vier qualquer sofrimento, vá dizendo: Eu já sabia. Para isto é que me casei. E fique em sossego, paciente, resignado, possuindo sua alma na paz.
Portanto, quem se casa abrace-se logo, com a sua cruz, e quando vier qualquer sofrimento, vá dizendo: Eu já sabia. Para isto é que me casei. E fique em sossego, paciente, resignado, possuindo sua alma na paz.
Evitem-se com todo o cuidado entre casados altercações vergonhosas, polémicas ásperas, palavras descorteses ou de desprezo; antes tratem-se sempre com suma atenção, respeito, polidez e carinho. Que todo azedume, cólera, indignação, rixa, maledicência, e toda malícia seja banida dentre vós, diz S. Paulo; e ainda: Seja toda palavra boa, útil, edificante, própria a dar a graça aos que a escutam. (Efésios IV, 31, 29.1)
Antes quebrar por si e ter a paz, do que sustentar vãos caprichos, que metem a desordem na família. O segredo de manterem-se os casados em santa concórdia e constante harmonia é suportarem um ao outro os seus defeitos, não apurando agravos, antes relevando muita cousa e, calando, quando a prudência manda calar.
A ira é, muitas vezes uma faísca; mas diz o sábio: Se soprais a faísca, sairá dela um fogo ardente; se cuspis em cima, se apagará; e a boca é que faz uma e outra cousa; (Ecl. XXXVIII, 14) assim a língua acende ou abafa as contendas. Se não lhes pondes cobro, a faísca torna-se logo brasa, a brasa labareda, a labareda incêndio. As palavras vão se precipitando, como levadas de engenho em se lhe abrindo a corrediça. Guardar, pois, silêncio é o melhor alvitre.
Os que acharam este segredo vivem contentes e em paz no seu estado. Referem os autores, a este propósito, o caso gracioso de uma coitada, que se foi queixar mui magoada ao seu Padre espiritual dos desabrimentos do marido. "Logo que me entra em casa, disse, é uma tormenta desfeita de impropérios e de injúrias; renovam-se todos os dias estas cenas violentas, com grandes clamores, que atordoam e escandalizam a vizinhança.
Ando consumida, já me é insuportável a vida; dizei-me, Padre, o que devo fazer em tão angustiosa situação?"
O Padre, depois de ouvi-la com toda paciência, foi buscar um frasco de água e lho entregou dizendo: "Esta água fará o milagre. Todas as vezes que teu marido entrar colérico, e começar a maltratar-te de palavras, toma um pouco desta água na boca, e aí a conservarás até que ele se tenha calado. Verás que a água que te dou tem singular virtude".
Fez a mulher exatamente como lhe dissera o Padre, e observou que depois que tomou a água na boca, a ira do marido como que se amainou mais depressa. No dia seguinte, mesmo proceder, mesmo resultado. As cóleras do marido foram-se tornando cada vez menos duradouras e menos frequentes, até que enfim cessaram de todo, e reinou a paz no pobre casal.
Foi a mulher ao Padre, toda jubilosa, agradecer o portentoso efeito daquela água.
"A água, mulher, só teve uma virtude, e não pequena", respondeu o Padre: "foi a de fazer-te calar; pois em quanto a tinhas na boca, não podias proferir palavra. A este silêncio, e só a ele, deves o benefício da paz e concórdia que logras com teu marido. "
Se quando um se agastasse, o outro se calasse, nunca haveria dissenções nas famílias.
 *****
D. Antônio de Macedo Costa (1830-1891). O Livro da família: ou explicação dos deveres domésticos segundo as normas da razão e do Cristianismo. 3ª ed., São Paulo: Paulinas, 1945, pp. 85-86.


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A FAMÍLIA FECUNDA: UM PEQUENO MUNDO


A experiência demonstra que habitualmente a vitalidade e a unidade de uma família estão em relação natural com a sua fecundidade. Quando a prole é numerosa, ela vê o pai e a mãe como dirigentes de uma coletividade humana ponderável pelo número dos que a compõem como – normalmente – pelos apreciáveis valores religiosos, morais, culturais e materiais inerentes à célula familiar. O que nimba de prestígio a autoridade paterna e materna. E, sendo os pais de algum modo um bem comum de todos os filhos, é normal que nenhum destes pretenda absorver todas as atenções e todo o afeto dos pais, instrumentalizando-os para o seu mero bem individual. O ciúme entre irmãos encontra terreno pouco propício nas famílias numerosas. O que, pelo contrário, facilmente pode surgir nas famílias com poucos filhos. Também nestas últimas se estabelece não raras vezes uma tensão pais-filhos, em resultado da qual um dos dois lados tende a vencer o outro e a tiranizá-lo. Os pais por exemplo podem abusar da autoridade, subtraindo-se ao convívio do lar para utilizar todo o tempo disponível nas distrações da vida mundana, deixando os filhos relegados aos cuidados mercenários de baby-sitters ou dispersos no caos de tantos internatos turbulentos e vazios de legítima sensibilidade afetiva.
E podem tiranizá-los também – é impossível não mencionar – por meio das diversas formas de violência familiar, tão cruéis e tão frequentes na nossa sociedade descristianizada. Na medida em que a família é mais numerosa, vai-se tornando mais difícil o estabelecimento de qualquer dessas tiranias domésticas. Os filhos percebem melhor quanto pesam aos pais, tendem a ser-lhes por isso gratos, e a ajudá-los com reverência – quando chegado o momento – na condução dos assuntos familiares.
Por sua vez, o número considerável de filhos dá ao ambiente doméstico uma animação, uma jovialidade efervescente, uma originalidade incessantemente criativa no tocante aos modos de ser, de agir, de sentir e de analisar a realidade quotidiana de dentro e de fora de casa, que tornam o convívio familiar uma escola de sabedoria e de experiência, toda feita da tradição comunicada solicitamente pelos pais, e da prudente e gradual renovação acrescentada respeitosa e cautamente a esta tradição pelos filhos. A família constitui-se assim num pequeno mundo, ao mesmo tempo aberto e fechado à influência do mundo externo. A coesão desse pequeno mundo resulta de todos os factores acima mencionados, e esteia-se principalmente na formação religiosa e moral dada pelos pais em consonância com o pároco, como também na convergência harmônica das várias hereditariedades físicas e morais que, através dos pais, tenham concorrido para modelar as personalidades dos filhos.
(....)
Esse pequeno mundo diferencia-se de outros pequenos mundos congêneres, isto é, das outras famílias, por notas características que lembram em modelo pequeno as diferenciações entre as regiões de um mesmo País, ou os diversos países de uma mesma área de civilização. A família assim constituída tem habitualmente como que um temperamento comum, apetências, tendências e aversões comuns, modos comuns de conviver, de repousar, de trabalhar, de resolver problemas, de enfrentar adversidades e de tirar proveito de circunstâncias favoráveis. Em todos estes campos, as famílias numerosas possuem máximas de pensamento e de procedimento corroboradas pelo exemplo do que fizeram os seus antepassados, não raras vezes mitificados pelas saudades e pelo recuo do tempo.
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Plínio Corrêa de Oliveira. Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana, pp. 94-95.


quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O PAPEL DA MÃE NO LAR E NA FORMAÇÃO DOS FILHOS


“O futuro de um filho é obra da mãe” (Napoleão)

“Feliz o homem a quem Deus deu uma Santa Mãe!”, disse Lamartine. Apesar dos desvios de sua imaginação, Lamartine conservou sempre a lembrança da educação cristã que lhe deu sua mãe. Como disse Joseph de Maistre: “Se a mãe tomou como um dever imprimir na fronte de seu filho o caráter divino, pode-se estar praticamente seguro de que as garras do vício nunca o apagará inteiramente”.
“Quantas outras mães imprimiram profundamente na alma dos filhos o respeito, o culto, a adoração de Deus, de Quem elas eram para eles, pela pureza de vida, a imagem viva!
Como mãe, a mulher cristã santifica o homem-filho; como filha, ela edifica o homem-pai; como irmã, ela aperfeiçoa o homem-irmão; como esposa ela santifica o homem-esposo”.

A “raiz” da santificação

“Eu quero fazer de meu filho um Santo”, dizia a mãe de Santo Atanásio.
Graças mil vezes, meu Deus, por haver-nos dado por mãe uma Santa”, exclamaram por ocasião da morte de Santa Emília seus dois filhos, São Basílio e São Gregório Nazianzeno.
“Quem nos deu um São Bernardo e o fez tão puro, tão forte, tão abrasado de amor por Deus? Sua mãe, Aleth.
Mais próximo de nós, Napoleão disse: “O futuro de uma criação é obra de sua mãe”.
Pasteur afirmou: “Oh, meu pai e minha mãe, que vivestes tão modestamente, é a vós que eu tudo devo! Teus entusiasmos, minha valorosa mãe, tu me transmitiste. Se eu associei a grandeza da ciência à grandeza da pátria, é porque eu estava impregnado dos sentimentos que me havias inspirado”.
Alguns que o felicitavam por ter o gosto da piedade, o Santo Cura d’Ars disse: “Depois de deus, isto se deve à obra de minha mãe”.
“Quase todos os santos fizeram remontar as origens de sua santidade à sua própria mãe”.

A “raiz” de grandes personalidades

“É sobre os joelhos da mãe – disse Joseph de Maistre – que se forma o que há de mais excelente no mundo”.
“Ela é no lar essa chama resplandecente de que fala o Evangelho, distribuindo sobre todos a luz da Fé e o ardor da caridade divina. A ela incumbe vivificar na família a ideia da soberania de Deus, nosso primeiro princípio e nosso último fim, o amor e o reconhecimento de que devemos ter por sua infinita bondade, o temor de sua justiça, o espirito de religião que nos une a Ele, a lei dos castos costumes, a honestidade nos atos e a sinceridade das palavras, a dedicação e ajuda mútua, o trabalho e a temperança”.

.... e de homens de qualquer condição social

“Na família assalariada – disse Augustin Cochin – a figura dominante é a da mãe. Tudo depende de sua virtude e acaba por modelar-se de acordo com ela. Ao marido compete o trabalho e as provisões do lar, e à mulher os cuidados e a direção interna. O marido recebe, a mulher reserva. O marido alimenta seus filhos, a mulher os educa. O marido é o chefe da família, a mulher é seu elo de união com ela. O marido é a honra do lar, a mulher sua benção”.

Mãe Católica: “raiz” do heroísmo

“O Visconde de Maumigny escreveu: “Devemos a nossas mães e irmãs o fundo de honra e de devota e cavalheiresca dedicação que é a vida de França. Nós lhes devemos a Fé católica. Discípulas da Rainha dos Apóstolos e dos Mártires, as mães fizeram passar seus corações aos corações dos filhos...”.
“Maria Santíssima, o modelo das mães, lhe ensinou como se sacrifica um filho único a Deus e à Igreja. Ao ouvir as narrações dessas emulações sublimes (este texto foi redigido em 1862, quando os Zuavos Pontifícios derramavam seu sangue para defender a Santa Sé), Pio IX comentava: “Não! A França que produziu tais santas não perecerá jamais”!
A primeira vez que a heroica viúva de Pimodan [Georges de Pimodan, 1822-1870] viu o Papa, não lhe disse: “Oh, Santo Padre, devolvas meu marido!”, mas sim: “Oh, dizei que ele está no Céu”! E quando Pio IX respondeu: “Não reo mais por ele”, ela não perguntou nada mais, pois entendeu que era viúva de um mártir, e isto bastava.
“Em Castelfidardo os Zuavos Pontifícios combatiam sob os olhos de suas mães, presentes em seu pensamento e entre as paredes do santuário onde a Rainha dos Mártires engendrou ao Rei dos Mártires. Todos, enquanto marchavam contra o inimigo, repetiam esta frase de um deles: “Minha alma a Deus, meu coração à minha mãe, meu corpo a Loreto”.
À mãe deles, a Maria Santíssima, que a todos inspirava, reverte a honra da batalha. Como outrora os Cruzados, e mais tarde os Vandeanos, foi sobre os joelhos das mães que eles aprenderam a morrer por Deus, pela Igreja e pela Pátria”.
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Mons. Henri DELASSUS (1836-1921). L’Esprit Familial dans la Maison, dans la Cité et dans l’État, Société Saint-Augustin.


terça-feira, 16 de outubro de 2018

A VIDA INTIMA DA FAMÍLIA VAI PERDENDO O ENCANTO...


Muito pouco se vive hoje na família. Mais se vive para a cidade, para o Estado. A vida intima da família vai perdendo o encanto, a real e profunda intimidade de outros tempos, pois a cidade penetra na família, a vida exterior é levada até ao interior do lar, pelo rádio e principalmente pela televisão, e assim o que havia de típico e peculiar nas mansões domésticas vai também desaparecendo.
Aparentemente a variedade de preocupações, de assuntos na ordem do dia, de novidades ao alcance de todos torna a vida mais variada. Mas no fundo esta novidade esconde uma tremenda monotonia: a vida é igual em toda parte, é trepidante mas artificial, intensa mas inautêntica, sempre ocupada mas cada vez mais angustiosa.
O indivíduo, unidade anônima perdida no seio da multidão, tem algumas horas para passar em casa. Mas em sua casa - ou no seu apartamento - não sente a tradição familiar, nem pode saborear o ambiente formado em tempos idos pelos hábitos nascidos da convivência doméstica.
Como a cidade é a mesma em toda parte, tendo desaparecido a comuna ou o município onde a grande metrópole moderna estendeu os seus tentáculos, também as famílias se vão padronizando nesse nivelamento igualitário, cujo principal agente é o Estado centralista e planificador.

José Pedro GALVÃO DE SOUSA (1912-1992). Política e Teoria do Estado, São Paulo: Saraiva, 1957, pp. 60-61.


sábado, 6 de outubro de 2018

DA NECESSIDADE DE NOVAS ESCOLAS CATÓLICAS


“Não hesiteis, não desanimeis; para defender a alma das crianças, para manter a religião na sociedade, continuai a sustentar escolas, fundando novas, quanto puderdes. Empregai nisso o vosso dinheiro, e, se não tiverdes outro lugar, ou vos faltar liberdade, abri escolas em vossas casas, como nós o fizemos no Vaticano".

São Pio X, citação extraída do Jornal "A Cruz", n.10, de 9 de março de 1913, p. 2.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O GENUÍNO CARÁTER DA FAMÍLIA


É bem deplorável fato, e cheio de funestíssimas consequências para o futuro, o esforço que se está fazendo para destruir as verdadeiras tradições, o genuíno caráter da família, o princípio mesmo de sua organização e estabilidade, pondo-a fora da ação da Igreja e do Cristianismo. Privada do influxo sobrenatural da Religião, a família tende a deperecer; afrouxam-se os laços que a enfeixam num todo harmônico.
Aquela casta, inviolável e perpétua união dos esposos; aquele cuidado estremecido da educação da prole; aquele corresponderem os filhos à ternura de seus progenitores rodeando-os de afetos extremosos, prestando-lhes os mais atentos serviços, obedecendo-lhes com amorosa prontidão, e honrando-os até a extrema velhice com um respeito religioso, que parece transformar-se em culto; aquela amável convivência dos irmãos a respirar encanto que embalsamam a melhor quadra da vida, e que nos lembramos ainda com tantas saudades, quando já sozinhos, nos aproximamos do termo; aquela dedicação e singelos afetos de servos e domésticos; enfim aquele suavíssimo viver em família, aquela vida de casa tão boa, tão serena, sem sobressaltos, e cheia de tão sublime e terna poesia; onde estão? onde se encontram já? A torrente das ideias novas vai tudo levando de rojo, envolvendo no sumidouro comum do sensualismo enervante, do brutal egoísmo. Restam apenas, aqui e aí alguns nobres tipos da família cristã; como essas colunas, que se elevam ainda no meio da vasta solidão só para dar testemunho de um magnífico edifício arruinado.
A raiz corrompida, vasa no tronco e nos ramos da árvore o seu fatal veneno. Por igual modo, da família pervertida pelo espírito da impiedade moderna, estão dimanando os males que lamentamos em todas as esferas sociais.
Se queremos que floresçam os bons costumes, se queremos que esta árvore da pátria dê frutos, não pêcos, mas sazonados, de paz, de ordem, de verdadeira liberdade, de sólidos progressos, de próspera, gloriosa e fecunda civilização, é acudir com o remédio à fonte do mal, é tratar já e já da raiz, que se embeba em bons sucos, achegando-se-lhe terra congruentemente adubada.
Todas as outras reformas são ilusórias, se não começamos pela família.
O esforço que está fazendo a Revolução para destruí-la está dando à medida do esforço que devemos fazer para restaurá-la. 
Arejemos o lar. 
Façamos entrar nele as puras emanações do Cristianismo.
Deus tem ali o seu lugar. Ele só pode fazer ali reinar as alegrias puras, a suave resignação, o casto pudor e todas as virtudes que enobrecem e encantam a vida.
Procuremos restaurar sobre suas verdadeiras bases a família cristã, como nô-lo recomenda com tão alta sabedoria o Vigário de Jesus Cristo, o glorioso Pontífice Leão XIII em suas primeiras Encíclicas, recebidas com veneração e aplauso por toda a cristandade.
 *****
Dom Antônio de Macedo Costa (1830-1891). O Livro da família: ou explicação dos deveres domésticos segundo as normas da razão e do Cristianismo. 3ª ed., São Paulo: Paulinas, 1945, pp. 2-4.


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A ESSÊNCIA DA EDUCAÇÃO E O AMOR MATERNAL


“A essência da educação encontra-se no desenvolvimento da pessoa até que esta alcance a personalidade plena. A personalidade, com todo o cortejo de suas virtudes, encontra-se, por sua vez, escondida no espirito da criança. A chave de ouro que abre a porta para sua libertação é precisamente o amor familiar e particularmente o amor maternal, a mais alta participação do amor criador de Deus”.

ANGEL GONZÁLEZ ALVAREZ. Citado por Maria Carmen LLÓRENTE em “El principio de subsidiriedad y la educación”, p. 985.


sexta-feira, 2 de março de 2018

TELEVISÃO E DISSOLUÇÃO FAMILIAR


“A pretensa objetividade da televisão não existe, não pode existir. Como nos explicou Vladimir Lamsdorf-Galagane em um de nossos Congressos, toda informação é discurso, é opinião. Por objetiva que pareça, implica uma forma de pensar. No que diz respeito à família, tanto como objeto quanto como sujeito passivo, a televisão exerce uma clara influência ideológica, que determina tanto o que os membros da família pensam como o que a sociedade pensa e opina sobre a família. Em nosso país durante as últimas décadas, a Televisão foi um permanente agente a serviço da atual conspiração contra a família, exercendo um papel chave para a introdução e aceitação social do divórcio, do aborto, das relações pré-matrimoniais, e em geral, de todas as formas de erosão da família tradicional e cristã.
Ademais, a televisão opera sobre determinados esquemas mentais, capacidades cognitivas, estruturas perceptivas e sensibilidades preexistentes no indivíduo. Mas ao mesmo tempo que se ativam são modificadas pelo meio. A televisão produz um fenômeno de hiperestimulação sensorial, que leva a uma necessidade de estimulação sensitiva continua, que por sua vez provoca falta de concentração e uma visão fragmentada da realidade que foi denominada 'cultura mosaico'.
Enquanto a cultura tradicional era limitada nos conhecimentos, mas organizada, coerente, estruturada, a cultura mosaico se caracteriza pela desordem, a dispersão e o caos. A televisão favorece um tipo de conhecimento incoerente e descentralizado. Em um informativo, por exemplo, se passa da tragédia na Ruanda aos resultados da liga de futebol, e segundo depois um anuncio frívolo apresenta a felicidade fugaz através da aquisição de um perfume... A imagem televisiva potencializa, por outro lado, o pensamento visual, intuitivo e global contra a leitura, que estimula o pensamento lógico, lineal, sequencial. Por essa razão, ver televisão não requer concentração, senão apenas abertura. Se privilegia assim a percepção sobre a abstração, o sensitivo sobre o conceitual e, em definitivo, a implicação emotiva. Assim ocorre que as respostas que a televisão desencadeia são mais do tipo de “gosto-não gosto” do que “estou ou não estou de acordo”. O intuitivo e o emocional tende a prevalecer sobre o intelectual e racional, o que dá lugar a um estilo impulsivo de pensamento em lugar de um estilo reflexivo. Outrossim, a televisão potencializa o sentido de imediatismo e de dinamismo e, definitivamente, o sentido da impaciência ao oferecer uma satisfação imediata derivada do próprio significante, diferentemente da leitura, cuja gratificação é retardada por provir do significado e não dos signos do significante. Satisfação instantânea e hiperestimulação sensorial que a retroalimenta. E quando a experiência não é gratificante cabe sempre recorrer ao controle para mudar de canal.  As frustrações se produzem quando na vida não se pode mudar de canal tão facilmente, nem se pode acelerar o ritmo dos acontecimentos, vivendo com a impaciência do zapping* nos olhos e no coração.
Assim, a televisão é um catalizador do gosto do homem atual da mudança pela mudança e se opõe, evidentemente, ao forjamento do caráter e das virtudes, à capacidade de entrega, de sacrifício e autonegação que requer tantas vezes a vida familiar e a educação dos filhos".
***** 
Javier URCELAY ALONSO. Tevisión y Disolución Familiar, Revista Verbo, n. 339-340, Madri, pp. 995-997.

*Mudança rápida e consecutiva de um canal para outro, com o controle remoto, geralmente para evitar os intervalos comerciais.


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O MONOPÓLIO DA EDUCAÇÃO PELO ESTADO


Pe. Leonardo CASTELLANI (1899-1981)*.

Centralização significa a absorção de toda a atividade dos corpos intermediários e mesmo dos indivíduos pelo Estado. Esta absorção cresce desde a famosa francesada de 1789 até hoje, de modo que é possível dizer que hoje todos os Estados são tiranias. O maior ladrão de qualquer Estado é o Governo. O publicista Bertrand de Jouvenel, em seu denso tratado O Poder, compreende que essa absorção é inevitável no Estado; que o agigantar-se é essencial ao Estado. Deveria ter acrescentado a condicionante: a menos que outro não o impeça. Com efeito, a função natural dos poderes parciais e relativos (Família, Município, Grêmio, Dinheiro, Universidade, Exército) é limitar o poder, em si açambarcador, do Poder Central.
Hoje em dia o Estado faz de tudo, menos, às vezes, o que deveria fazer. De sapateiro a construtor de casas, o Estado se mete em tudo... Você não pode publicar um livro sem ter o Fisco em cima. O Fisco sangra toda a atividade produtiva e inclusive monopoliza a maior parte das atividades produtivas.
Mas onde o Estado se mostra mais zeloso e por isso mesmo mais danoso é no Monopólio do Ensino. O Estado é o mestre de part Dieu – que digo? -, é o Mestre dos Mestres, o Mestríssimo. Direta ou indiretamente é o que transmite a - chamemo-la assim – Educação, diretamente nas escolas ‘publicas’, indiretamente nas escolas mal chamadas ‘privadas’.
Esta aberração de o “Político” se meter a reger ou a fazer o que não lhe corresponde, sem aptidão, nós copiamos da Terceira República francesa e esta copiou de Juliano, o Apostata, com o fim de perseguir a Religião. Napoleão também o fez, mas com fim diverso. É o dogma mais acariciado do futuro Estado socialista e é o credo do Anticristo. Os pais têm o dever e o direito de educar seus filhos; a Igreja tem a missão de ensinar a religião. O Estado é político e não educador, a não ser para subjugar a educação à política, e nesse caso, à infidelidade. “Greve dos trabalhadores da Educação”. Este enunciado grotesco é a criada marota que se tornou como que a divisa do Estado Educador. Está acontecendo aqui o se passou na França, a saber: o Estado Anticlerical fundou a Escola Normal Superior, que devia forjar todos os mestres superiores, e reservou para si o poder de habilitar os mestres comuns. Queria fazer dos educadores os “soldados da República”, como se expressou Jules Ferry, ou seja, aqueles que inocularam nas crianças indefesas o laicismo e o anticlericalismo.
Com efeito, como resultado lógico ocorreu que os mestres se fizeram comunistas, e começaram a dar dor de cabeça à ‘República laica, una e indivisível’, com greve atrás de greve começando por pedir ‘aumentos de salário’...
Quando o dano ou o escândalo se torna intolerável, o Governo cede e aumenta os salários e os trabalhadores da Educação se reintegram ao trabalho de educar, depois de haver dado o mau exemplo de deseducar. ‘Os soldados da República’.
Aqui neste país, o monopólio da educação é responsável pela decadência da educação; e a decadência da educação é responsável, em grande parte, pela decadência da República.
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*Prólogo ao livro Nociones de comunismo para católicos, de Enrique Elizalde, In. Seis Ensayos y Tres Cartas, Buenos Aires: Ediciones Dictio, Buenos Aires, 1973, p. 142-144.


O PAPEL DO ESTADO EM MATÉRIA DE EDUCAÇÃO


Revista A Cruz, 22 de abril de 1928.
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Há um axioma antigo de pedagogia, segundo o qual os doentes devem repetir aos alunos os princípios já ensinados, por que, assim, a força de ouvi-los amiúde, vinguem facilmente gravá-los na memória ou assimilá-los na inteligência.
Também o Mestre Supremo e Infalível da Verdade, uma vez por outra, se utiliza deste recurso de método, como meio de defender e guardar inalterada a ortodoxia da fé. Foi o que aconteceu, agora, na audiência ao Conselho dos Homens Católicos, de Roma, diante dos quais Pio XI acaba de lembrar a existência de dois princípios, desde muito normativos da consciência do mundo cristão.
O primeiro é o de caber aos pais e não ao Estado, o dever de dar educação aos filhos, obrigação esta inerente ao pátrio poder que os chefes de família devem cumprir em harmonia com os interesses da sociedade. O segundo é a competência exclusiva da Igreja no tocante ao ensino religioso, quer ministrado em forma de homilia, quer de modo catequético à infância.
Se quanto à ultima destas afirmações do Soberano Pontífice, ninguém há capaz de fazer reservas bem fundadas, o mesmo não se dá em relação à primeiro, à qual muitos opõem uma tese contrária.
O papel do Estado em matéria de educação é de mera assistência, em que exerce apenas uma função suplementar, por delegação tácita dos pais. Daí a exorbitância dos poderes públicos, ao se arregrarem o direito de dar uma instrução em desacordo com os sentimentos religiosos das famílias; daí a escola leiga, ou melhor, a escola sem Deus, tudo sendo consequência natural, de uma tese que ora se generaliza.
Contra este cerceamento de um direito natural, que os pais não podem abdicar de todo, sem faltar à sua missão social, os premune a Sentinela Vigilante da Igreja de Jesus Cristo.
E era necessário fazê-lo; porque, se os chefes de família católicos, da Alemanha, acabam de fazer diante do Reichstag, uma denodada e edificante reivindicação, ao se tratar, ali, do problema escolar, o indiferentismo de muitos outros vai comprometendo, em outros países, as crenças das futuras gerações.
Infelizmente entre nós, os governos agem sempre discricionariamente quando tratam de um assunto como este, de tanto interesse para a família.
O ensino leigo ou monopolizado pelo Estado é uma das armas mais perigosas manejadas pelos inimigos da nossa fé.
Contra ela, foi que se levantou, agora, a voz de Pio XI, em aviso prudente e sábio ao Conselho dos Homens Católicos, em Roma, voz cuja ressonância Deus queira impressione também os tímpanos dos que nos leem.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A ESCOLA

Com o primeiro filho, constitui-se na família uma nova sociedade - a sociedade parental ou paterna - que não é outra coisa senão a extensão e o complemento natural do matrimônio. Daí a obrigação gravíssima dos pais educarem seus filhos, educação que há de ser física, intelectual e moral, consoante a natureza humana. Esta obrigação importa um direito inalienável dos pais sobre os filhos, direito que não é propriedade, mas consiste na autoridade única e exclusiva de educação. Dessarte, não deve Estado imiscuir-se em coisas de educação, cumprindo-lhe apenas o dever de auxílio ou subsídio às famílias, no que diz respeito à instrução da mocidade. Sejam os pais zelosos das suas prerrogativas naturais, mas convém não esquecerem que, antes de qualquer direito, existe o dever positivo ou natural, donde se origina o mesmo direito. Antes do direito está a lei. E a lei natural impõe sobre os pais uma série de compromissos, que bem se resumem na arte de educar os filhos. Educar um filho é cuidar atentamente dele desde o seu nascimento até a sua maioridade; defendê-lo de qualquer acidente corporal ou espiritual; desenvolver nele o vigor físico, o espírito de iniciativa, o sentimento de responsabilidade; inspirar-lhe amor ao trabalho, afeição à família, dedicação à pátria, estimulá-lo para o bem próprio e comum - baseando todo esse trabalho magnífico no santo temor de Deus, que é o princípio da sabedoria. A educação há de ser cristã, católica aliás, para evitarmos equivocações. Não basta esse cristianismo suspeito, de que fazem praça os hereges protestantes, e que diminui, ou destrói o santo temor de Deus. Nem se devem contentar os pais com a moral bastarda, chamada independente ou leiga, isto é, sem Deus. "Moral sem Deus - dizia Napoleão -, justiça sem tribunais". Formar bons católicos, preparar cidadãos úteis à religião e à pátria é em que devem se ocupar principalmente os pais. E aqui vem a talho a recomendação oportuníssima e necessária que fazemos aos pais para mandarem os seus filhos ao catecismo, máxime se frequentarem as escolas públicas, onde não há o ensino oficial da religião. Não podem descansar os pais, descuidando desta obrigação. A melhor consolação para os pais na hora da morte será o terem cumprido este dever. "Eu morro contente - dizia à família, nos seus últimos momentos, Bussen, político e notável homem de letras - eu morro contente: neste momento solene para mim, minha maior consolação é ter procurado com todas as minhas forças, fazer amar e adorar Jesus Cristo".   
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*Artigo publicado na Revista A Cruz, Ano II, n. 1, Rio de Janeiro, 19 de setembro de 1920.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

O MUNDO AUDIOVISUAL: UMA ARMA DE DEFORMAÇÃO

“O principal e inevitável perigo da TV é colocar imagens nas mentes das crianças e não ideias; é parar, pelo poder enganador da imaginação, o trabalho natural da inteligência: a abstração. Esse perigo de perversão da mente e da imaginação é muito mais profundo e muito mais difícil para os pais entenderem do que uma espetacular corrupção do sentido moral, que logo acompanhará o mau uso das imagens. O contato com as imagens, por sua vez, diminui a atenção, amolece a vontade, debilita a memória inchada de representações, impossibilita a retenção das articulações dos mais simples raciocínios”. 
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Luce Quenette. Balayez Astérix, in Itinéraires N. 160., février 19772, p. 17-18.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

FORMAR CRISTO EM UM ALMA

"Os pais participam da obra da criação ao gerar os filhos e devem participar da obra da redenção, educando os filhos para Deus. E a redenção se faz com sofrimento. A educação dos filhos se faz a base de sofrimentos, de abnegação, de sacrifícios. Tudo isso junto com grandes alegrias, e a primeira dessas alegrias é a de poder formar Cristo em uma alma."
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Trecho do Sermão para o 2º Domingo depois da Epifania - 14.01.2018 – Padre Daniel Pinheiro, IBP.

domingo, 31 de dezembro de 2017

A VIDA FAMILIAR CONHECE DOLOROSAS PROVAÇÕES

“A vida familiar conhece dolorosas provações...
Como hão de os esposos suportar esses sofrimentos se Deus não os sustém derramando-lhes nos corações os bálsamos da vida espiritual? Aqui, ainda, a graça do sacramento será a fonte inesgotável que os secundará na sustentação de seu fardo.
Aliás, as verdadeiras alegrias da vida familiar estão estreitamente unidas ao generoso cumprimento dos deveres a ela impostos.
Eis porque não se pode conceber o amor humano sem que Deus esteja presente para aluminá-lo, guiá-lo e purificá-lo.
A graça é elemento necessário à vocação do casamento”.
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Abade Jean VIOLLET. Moral familiar, Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, p. 12.