Mostrando postagens com marcador Saint-Exupéry. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Saint-Exupéry. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

POEMA DE MARIE DE SAINT-EXUPÉRY (MÃE DE ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY) APÓS A PERDA DE SEU FILHO

“Na manhã da ressurreição,
Em prece ajoelhada
Eu repetirei tua oração
Madalena, na pedra prostrada
No jardim de Getsâmani
“Senhor, onde o pusestes?”
Em todo lugar, procuro meu filho
Pois no dia do meu parto
Gritei para trazê-lo ao mundo
E hoje grito ainda
Quando não sei onde finda
Nada sei, nem mesmo de um túmulo.
Mas ‘sua fome de luz era tanta
Que subiu’, peregrino das estrelas.
Terá chegado, peregrino do céu, 
Às balizas de Deus? Ah! Se eu soubesse
Choraria menos sob meu véu ”

*****



sábado, 27 de janeiro de 2018

O SENTIDO DA TRADIÇÃO EM SAINT-EXUPÉRY

“Quero que chorem por muito tempo os seus lutos, que prestem demoradas homenagens aos mortos, porque a herança passa lentamente de geração para geração”. (Cidadela, I, p. 17).

“Quando nenhum elemento estável liga as gerações umas às outras, a troca deixa de ser possível e o tempo passa a correr tão inútil como a areia de uma ampulheta”. (Cidadela, VI, p. 31).

“O tesouro interior transmite-se, porém, não pela palavra, mas sim pela filiação do amor. E, de amor em amor, vão legando uns aos outros esta herança. Basta romper o contato, uma só vez que seja de geração para geração, e esse amor morrerá”. (Cidadela, XXII, p. 81).

*****

domingo, 19 de novembro de 2017

JARDINEIRO DOS HOMENS

“Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado, e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, a pequena boca ingênua. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa de vida. Não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para os homens. Mozart criança irá para a estranha máquina de entornar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre na sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado. Voltei para o meu carro. E pensava: essa gente quase não sofre o seu destino. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata da gente se comover com a ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio. Gerações de orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim. O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas nem essas feiúras. É Mozart assassinado, um pouco, em cada um desses homens. Só o Espírito, soprando sobre a argila, pode criar o Homem”

*****
Antoine de SAINT-EXUPÉRY. Terra dos Homens, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 138-140.