Mostrando postagens com marcador Gustavo Corção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gustavo Corção. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 5 de março de 2019

O ESPÍRITO DA QUARESMA


Gustavo Corção

A Igreja nos desdobra o maravilhoso panorama das várias lições que vitalmente interessam, ou deviam interessar aos seus filhos, e assim reaviva nas várias estações do ano litúrgico certas noções que deveriam ser companheiras de todos os passos de nossa vida. Assim é a Quaresma. Segundo ensina nosso pai São Bento, a vida inteira do monge deveria ser uma quaresma ininterrupta. Como isto é impossível para os fracos, e como a Regra Monástica, à semelhança da Igreja, é moderada para que os fortes possam dar mais, e para que os débeis não desanimem, representamos nesta quadra do ano o mistério da preparação da Paixão redentora do Cristo, e concitamos nossos irmãos e amigos a aproveitarem esta sabatina que reaviva o espírito de quaresma.

Qual é a lição essencial da quaresma, no que nos diz respeito? A Igreja responde com a liturgia das cinzas, e nós podemos desenvolver a idéia: o que nos cumpre aprender nestes dias, mais do que nos outros, é a doce e santa lição de nossa total dependência nas mãos de Deus. Ou como diria Santa Catarina de Sena, na sua linguagem de sangue e fogo: devemos aprender a lição de nosso nada.

Todo o mundo moderno é desatento, brutalmente desatento ao espírito da quaresma. Um humanismo insolente, grosseiro, agora reforçado com as estridências que se ouvem pela porta dos fundos da Igreja, tenta inculcar no homem uma confiança em si que o deixe esquecido de sua condição peregrinal e de sua destinação última. Vivemos dentro de uma espessa idolatria: todos querem exaltar os valores humanos em detrimento ou com esquecimento de sua total dependência de Deus. O nome de Deus é silenciado, é empurrado para a obscuridade, para que a glória do homem refulja.

Entende-se bem que o homem realize neste mundo, do melhor modo possível, sua instalação, ou melhor, sua afirmação de domínio sobre o mundo inferior. É bela a conquista da Ciência que exalta a razão e a específica superioridade do homem sobre todo o Universo visível. É confortador o progresso técnico que nos assegura um decente conforto neste trem expresso onde às vezes esquecemos a brevidade do tempo. É bela a civilização que realmente enaltece os valores humanos em contraste com a mundo inferior; mas tudo isto só se mantém em ordem razoável se ao mesmo tempo nos lembrarmos de exaltar a glória de Deus e nossa completa e total dependência. O inferior deve submeter-se ao superior: é razoável que o homem submeta os átomos, mas é loucura submeter os átomos e esquecer que devemos nós mesmos nos submeter a Deus.

A própria psicologia moderna, impregnada de empirismo, tem horror a certas categorias espirituais que fogem aos seus quadros. Assim é que combate com todo o seu vigor todos os sentimentos de insegurança. Ora, isto é uma monstruosidade a mais que se pratica neste vale de lágrimas. É claro que devemos ser corajosos, que devemos ser audazes, que não devemos ser pusilânimes, mas daí não se deduz que devamos nos sentir seguramente instalados na vida. Este sentimento é perfeitamente estúpido e grosseiramente anti-espiritual. A alma cristã, com todas aquelas qualidades de bravura e de audácia, sabe que sua vida pende de um fio que está nas mãos de Deus; e desta ciência não tira amargura nenhuma, ao contrário, tira a humildade, a ação de graças, e o infinito amor pelo Ser absoluto a que a todos nos sustenta. E em termos mais próximos da paixão de Cristo, o sentimento de fragilidade e contingência se traduz em vínculo de caridade que nos prende à videira santa, à Cruz em que pomos toda a exaltação e toda a glória.

O grande judeu Egon Friedel, em sua História da Cultura, teve a finura de sentir o valor sobre-humano do sentimento de fragilidade e de insegurança do medieval. O meio social ajudava, a ciência médica estava numa fase infantil e até caricata que levava o grande São Bernardo, que obedecia pontualmente às extravagantes prescrições de um esculápio, dizer com mansa tristeza: "Eu, que no Mosteiro tenho o encargo de dirigir e dar ordens a santos, tenho de obedecer a um asno". Toda essa pobreza de meios tinha impedido o surto do humanismo senhor de si mesmo, e o arguto judeu se admirava da espiritualidade que iluminava todo aquele povo medieval. Eles sabiam que a vida era uma grande aventura, e que a dependência de Deus se fazia sentir em todos os atos de coragem e de abandono, ou de resignação e tristeza.

Progredimos muito em veículos, em máquinas, em produção, mas no momento parece que regredimos em relação ao espírito de quaresma. Sirva-nos isto de incitamento e de lição, e procuremos nós viver mais a fundo essa presença de Deus que produz a humildade agradecida e amorosa.




quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

DEUS PRECISA DOS SANTOS, E ESPECIALMENTE DE MARIA


"Podemos dizer que Deus precisa dos santos, e especialmente de Maria, porque nessas criaturas temos uma espécie de misericórdia que não podemos ter no próprio Deus: uma misericórdia que, além de vir do amor, vem da própria miséria. Por puríssima que seja, Maria é criatura, e como tal é miserável. E é por isto – ouso dizer – que Deus precisa de Maria e dos santos para o exercício de sua misericórdia e para o contato salvador com nossa miséria.
Todos nós sabemos que Deus e o pecado são incompatíveis; mas também sabemos que as mais belas tradições de nossa história revelam um como que privilégio dos pecadores, ou uma inconcebível espécie de atração de Deus por nossa miséria. Quase diríamos que a marca do cristianismo é a de uma atrevida predileção pelo pecador. Como pode ser isto? Os evangelhos contam o amor de Jesus por Madalena, e nos apresentam a parábola do publicano. Jesus veio salvar “o que estava perdido”. Sua Igreja é uma casa-de-saúde. Seus prediletos são os pecadores, ou ao menos os que se reconhecem como tais. Na cruz, o primeiro santo canonizado é o bom ladrão. E daí por diante abundam as histórias em que os grandes pecadores interessam instantaneamente às almas de eleição. Santa Catarina correu a visitar o jovem Tuldo em seu cárcere, e recebeu sua cabeça decepada e seu sangue, gritando: “Io voglio!” Santa Teresinha do Menino Jesus teve seu primeiro protegido num assassino que mereceu pena de morte: por intercessão de suas fervorosas orações o pobre monstro humano, a dois passos do cadafalso, voltou-se bruscamente e beijou com lágrimas a cruz que um padre lhe oferecia.
Em todas essas histórias tem especial relevo a intercessão de Maria, refúgio dos pecadores".

Gustavo Corção. A Igreja do céu, Revista Permanência.


sexta-feira, 25 de maio de 2018

MUNDO, MUNDO, TRISTE MUNDO.


Ah! esse mundo cheio de aflições! A gente vai andando, vai andando, e esbarra nas almas. E tropeça nas almas. E não sabe o que fazer e o que dizer às almas caídas. E eu aqui, a escrever; e você aí, a ler. Envergonhemo-nos, leitor.
Mundo, mundo, triste mundo. Parece que ventou. Parece que a enorme árvore sacudida atira seus frutos no chão. Onde estão os operários da colheita, que encham seus cestos, e que ao entardecer voltem cantando à casa do Senhor? A gente vai andando, vai andando, e tropeça nas almas maduras. E pisa nas almas caídas. E eu agora a escrever; e você agora a ler; enquanto lá fora se ergue o vento do grande outono.
Como se explica, leitor, que nosso coração não se abrase e não se consuma, que nosso sono não encurte, que nosso zelo não cresça, não cresça mais, não cresça sempre, quando corremos com os olhos essa imensa planície juncada de aflições?
Como se explica que não peçamos a Deus que ainda mais nos ensine a pedir, a pedir que nos atire na fogueira de seu coração?
Queimar por queimar, antes no amor que na justiça. Antes aqui e agora. No dia. Na hora. No momento de arder. No momento de dar com alegria.
Como se explica, leitor, que não peçamos a Deus, mais e mais, que nos ensine a pedir, que nos ensine a pedir para dar, que nos ajude a desejar, a desejar um desejo maior, e que nos tome nas mãos, galho inútil, galho seco, e nos atire assim mesmo, inútil e seco, na grande fogueira de se amor?
Antes queimar assim, por aflição das aflições. Antes torcer-se na chama, dançar na chama, com estalidos e crepitações de quem se consuma e se gaste, nas aflições!
Mundo, mundo, triste mundo - eu aqui a escrever, você aí a ler, ó leitor - e o vento lá fora derrubando as almas maduras!
*****
Gustavo CORÇÃO. Intermezzo, Janeiro de 1950. in Dez Anos (Crônicas), Rio de Janeiro: Agir Editora, 1957, p. 27.


quinta-feira, 17 de maio de 2018

UM CAMINHAR LADO A LADO


“Imagem por imagem, prefiro a de Santo Agostinho, que assim descreve a atitude dos casados: um caminhar lado a lado com os olhos postos no objetivo comum.
E é esse objetivo comum, a casa, os filhos, a instituição benéfica para os que nela vivem e para os outros, o viveiro onde se prepara a amizade cívica, que é a alma da sociedade – é nesse objetivo que está o fim principal do casamento, o fim generoso, aberto, fecundo, difusivo, o fim que tem títulos para exigir do casal o espírito de sacrifício e o esquecimento de si mesmo”.
*****
Gustavo Corção. Claro Escuro, Rio de Janeiro: Agir, 1963, p. 72.


domingo, 1 de abril de 2018

RESSUSCITOU!


Gustavo Corção*

Não há em todo o ano litúrgico, que é o vôo circular em que a Igreja contempla amorosamente os mistérios de Cristo, momento mais jubiloso e mais belo em que, antes de acender o Círio Pascal, o Diácono canta o “Exultet Jam Angélica Turba Caelorum...” que é, sem dúvida alguma, o maior primor que os homens, com inspiração divina e engenho próprio jamais lograram compor em toda a história do cristianismo e do mundo. Quem já adulto, e já doloridamente vivido, teve a felicidade de ouvi-lo pela primeira vez no esplendor do Movimento Litúrgico, pôde apreciar, nessa adamantina condensação, todo o apuro, todo o requinte de infinito bom-gosto que a Igreja, ex abundantia operis, trouxe à civilização, e até hoje guarda a lembrança do estremecimento da alegria que nessa noite sentiu como antecipação de todas as promessas de Deus:

O vere beata nox, quae sola meruit scire tempus et horam in qua Christus ab inferis ressurrexit! – Ó bem-aventurada noite, única que mereceu conhecer o dia e a hora em que Cristo ressuscitou dos mortos.

Inebriada de alegria a Igreja delira, e chega à amorosa inconveniência, à desmedida loucura de cantar:

O certe necessarium Adae peccatum... O felix culpa... – Ó necessário pecado de Adão...Ó culpa feliz.

E depois, agora mais senhora de si, gravemente repete a grande história do Verbo de Deus desde a madrugada da Criação, desde a promessa feita a Abraão, e através das palavras dos profetas até aquela outra madrugada do primeiro dia da semana em que Maria Madalena e a outra Maria vieram visitar o sepulcro.
Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e Salomé, haviam comprado aromas para embalsamá-Lo, e pelo caminho diziam: “Quem nos levantará a pedra do sepulcro?”
Chegadas, viram a pedra rolada, e então as duas mulheres voltaram correndo para anunciar aos apóstolos o que viram e ouviram do anjo que estava ao lado do sepulcro: Ele ressuscitou!
E daí em diante começaram as páginas mais transluminosas, e mais banhadas de alegria das Sagradas Escrituras. Cada quadro tem uma luz suave e mais penetrante do que todo o alvorecer da Criação.
Agora num relâmpago, vemos Maria Madalena voltar-se para o vulto que julgava ser o do jardineiro, e com ela ouvimos:
- Maria! E logo a resposta de adoração: - Raboni!
Mais adiante é no Cenáculo, onde estavam fechados e tristes os apóstolos, que Jesus ressuscitado aparece e lhes diz: “A paz seja convosco.” E agora é na estrada de Emaús que dois discípulos caminham conversando a respeito de tudo o que havia acontecido, e à certa altura percebem que alguém caminha com eles, e lhes pergunta: “De que falais enquanto caminhais?” Os viandantes ficaram tristes, e o que se chamava Cleofas respondeu ao desconhecido: “Serás tu, forasteiro em Jerusalém, o único a ignorar o que se passou nestes dias?” “O que aconteceu?”, perguntou o desconhecido. E os peregrinos contaram a história de Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus, que os príncipes dos sacerdotes e magistrados entregaram para ser condenado à morte, e morte de cruz; e disseram que estavam tristes porque esperavam que ele libertasse Israel, e agora já três dias passaram... É verdade que algumas mulheres, que se achavam conosco, dizem que seu corpo desapareceu do sepulcro e que um anjo anunciou que Ele estava vivo! Mas eles ainda duvidavam...
Disse-lhes então o desconhecido: “Ó homens sem inteligência, como tarda vosso coração em crer o que os Profetas anunciaram!” E começando por Moisés, percorrendo todos os Profetas, o desconhecido ia explicando as palavras de Deus à medida que se aproximava de Emaús. O desconhecido deu a entender que tomava outro caminho, mas a pedido dos peregrinos entrou com eles num albergue. “Fica conosco!” pediam os peregrinos, e Jesus, com eles à mesa, tomou o pão, benzeu-o, partiu-o, e deu-lhes, e então seus olhos se abriram, mas Jesus desaparecera.
Esta pequena história que resiste a todos os maltratos da humana grosseria, tem inspirado e animado o engenho de todas as artes humanas, e poderá ainda, até o fim do mundo, ser cantada, contada, pintada e lavrada sem que a infinita profundidade de sua beleza venha a se exaurir. Por mim, neste momento, sinto com especial comoção a beleza da ação de graças dos dois peregrinos quando retomam a caminhar: — “Lembras-te como nosso coração se abrasava quando Ele, no caminho, nos explicava as Escrituras?”.
Peçamos nós a esses santos peregrinos que nos obtenham de Deus a mesma graça de sentir arder o coração quando ouvirmos a voz de Cristo na voz da Igreja a nos explicar os formidáveis mistérios da Pátria.
Diz-nos São Paulo na Vigília Pascal: “Se morrermos com Cristo, com Ele ressuscitaremos e viveremos". Mas nosso tardo coração sente-se amedrontado diante de tão excessiva promessa de Deus.
Na verdade, na verdade, todos os dons de Deus e todas as suas promessas são excessivas, e tamanho clarão de mistério às vezes mais nos ofusca e nos cega do que nos ilumina. “Creio... na ressurreição da carne...” balbucio eu envolvendo este artigo no mesmo global ato de fé que tem sua razão de ser na Palavra de Deus. Balbucio e tremo quando considero esta pobre carne já tão desgastada, “comme um vieux mouton qui a perdu sa laine aux ronces du chemin” – como um velho carneiro que perdeu sua lã nos espinhos do caminho. Como poderá resplender e reflorescer este pobre corpo já tão próximo do desmoronamento total?
Afina teu ouvido, ó tardo coração, e pondera que nesta Vigília Pascal, por sua Igreja, Cristo nos rememora todas as grandezas de Deus desde a criação até esse momento único em que a chama do Círio representa a grande transição, a maravilhosa travessia, a Páscoa que nos transporta de um desastrado mundo para o mundo dos ressuscitados. E pondera bem, alma de minh’alma, que um só ato vivificado pela graça de Cristo é maior do que todas as galáxias; e que as vezes que do pecado saíste por um ato de contrição e pelo perdão sacramental somam maior total de maravilhas do que todo o Universo criado. Na verdade, na verdade tu te deténs demais na excessiva promessa anunciada pelo Exultet porque ainda te agarras demais à idéia de que teu corpo com sua variedade de órgãos e funções, é a maior maravilha de teu ser. No que te enganas demais, alma de minha alma, porque a maior maravilha de meu ser é a graça da adoção, é o favor sobrenatural que Deus nos concede: o de podermos chamá-lo de Pai Nosso...
E nessa ordem de coisas, que importa infinitamente mais do que todas as estrelas do céu, todas as flores da terra e todos os peixes do mar, nessa ordem nova ou nessa nova criação – tudo é graça.
*****
                                                                               *O GLOBO 29/3/75


sexta-feira, 30 de março de 2018

A MESA E A CRUZ


Gustavo Corção*

À primeira vista parece que não precisa da especial comemoração da Quinta-feira Santa quem todos os dias se acerca da Mesa do Senhor com a familiaridade da doce monotonia. Precisa tanto e talvez mais do que os menos assíduos. A vida religiosa é principalmente trabalho de Deus em nós, mas também é, logo depois, trabalho nosso, colaboração de obediência que consiste, principalmente, em nos desnaturalizarmos deste velho mundo cuja figura vai passando, para nos sobrenaturalizarmos no mundo novo, na única verdadeira e eterna novidade que Jesus nos trouxe. Daí a necessidade de uma contínua e monótona perseverança combinada com a singularidade dos atos extraordinários; ou daí a necessidade de certos choques, de excepcionais descargas para quem já vive aquela perseverança.
A Semana Santa faz reavivar em nós aqueles dias benditos e únicos em que Jesus, o filho do carpinteiro, deixou-nos bem talhadas, e para sempre lavradas, as esquadrias da Mesa e as esquadrias da Cruz.
Volvamos nossa devota memória e nossa agradecida lembrança para aquelas cenas únicas que a Santa Liturgia realça. Na Quinta-feira, Jesus reúne seus discípulos em torno da mesa pascal e em tom festivo anuncia sua Paixão: “Muito desejei comer convosco esta páscoa antes de padecer.” E então, pela primeira vez na história e no mundo, celebrou-se a Santa Missa: Jesus é a vítima oferecida ao Pai, mas, agora, oculta sob o mistério do Sacramento graças ao qual a festa recobre o sacrifício cruento. Mais tarde, depois do Calvário e da Cruz, cada Missa repetirá o mesmo sacrifício incruento, mas então tanto a Vítima como o Sacerdote estarão encobertos sem estarem menos presentes do que estiveram no dia da Mesa e no dia da Cruz. Ceia, Calvário, Missa são o mesmo e único Sacrifício latrêutico, eucarístico, propiciatório e impetratório.
Na Quinta-feira Santa a Igreja rememora mais vivamente a Ceia e a ardente amizade divina com que Jesus se despede dos doze. Observemos desde logo que esta primeira Missa do mundo tem algo de reservado e de fechado, a par da solenidade dos aprestos, e da maravilhosa improvisação do Lava-Pés. Não é para o Povo de Deus que Jesus Cristo celebra esta primeira Missa. Já nesse tempo passava da centena o número flutuante de seguidores de Cristo, mas não é para todos, para o Povo de Deus que a Ceia é oferecida, embora desde então se destinassem a todos os frutos da Ceia. Cristo instituiu o Sacramento da Eucaristia, e deixou formado o núcleo do sacrifício incruento das futuras missas, na presença dos doze, para que eles depois repetissem até o fim do mundo: “Isto é o meu corpo que será entregue por vós; fazei isto para celebrar a minha memória”. Insistamos em dois pontos para bem assinalar a ordem, a hierarquização tão fortemente marcada na Ceia do Senhor: primeiro, a absoluta e infinita prevalência de Jesus, um só celebrante; segundo, a seleção dos doze como primeiros coletores e como inventariantes do tesouro legado por Jesus. A hora do povo virá depois, e caberá a cada um dos descendentes dos apóstolos reunir em torno de seu báculo as ovelhas de Cristo.
Houve depois do Concílio muitos abusos doutrinários tendentes a mostrar a Missa de baixo para cima, e tendentes a derivar a Missa diretamente da Ceia, com esquecimento do caráter sacrifical, e conseguintemente com desapreço do Sangue preciosíssimo por nós derramado. Pode-se, sem dúvida, dizer que, na linha da causalidade formal, a Missa deriva diretamente da Ceia, e o Altar deriva da Mesa; mas, na linha da causalidade eficiente, ambas, a Ceia e a Missa, derivam do Sacrifício da Cruz que é para nós usina das energias espirituais que precisamos para realizar a desnaturalização do novo mundo que já aqui e agora começou para nós pelos trabalhos de Jesus.
Sirva-nos esta Quinta-feira Santa para plantar em nossa alma esta idéia fecundíssima: quando pisamos os degraus da Igreja e nos acercamos do Altar, nós, efetivamente, realíssimamente, saímos do velho mundo, e entramos nos átrios da Pátria verdadeira onde Jesus, no seu tabernáculo, a cada um de nós saúda com palavras de abismal ternura: “Desejei tanto que viesses comer comigo esta páscoa ...”
E sirva-nos esta Sexta-feira Santa para nos relembrar com novo fulgor que é na Cruz, e só na Cruz, que convém gloriarmo-nos. Desde muitos séculos, até os astrônomos, que são homens inclinados a vadiações especiais e a certo desdém pelo planeta Terra, tiveram a idéia de representar nosso planeta por uma esfera com uma cruz cravada em seu pólo. O mundo moderno fez o possível para extirpar esta esquisita excrescência que lembra tantas transcendências, e que anuncia a espantosa novidade que é o Cristo Jesus, diante da qual todas as novidades do velho mundo exausto têm cor de cinza e gosto de palha.
E para ainda mais nos espantar, foi nos próprios meios eclesiásticos, hoje transformados em coudelarias dos cavalos de Tróia, que surgiu a contestação da Cruz. Traga-nos Deus, nesta Sexta-feira Santa, um novo ânimo sobrenatural para adorarmos o santo lenho de onde pendeu nossa Salvação.
***** 
*O GLOBO Quinta-feira, 23/3/78


quinta-feira, 29 de março de 2018

QUINTA-FEIRA SANTA!


Gustavo Corção*

“Nós, porém, nos gloriamos na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, nossa salvação, nossa vida e nossa ressurreição...” (Gal. VI, 14). Estas palavras do Apóstolo Paulo, que estão no Intróito da Missa de hoje, dão-nos o diapasão, o lá fundamental para afinação de todos os muitos movimentos de nossa alma. É sabido que a teologia paulina é tecida de confrontações, de noções conjugadas em tensão dialética, de proposições que viram pelo avesso os critérios do mundo. Temos assim as dialéticas fraqueza-força, carne-espírito, homem exterior-homem interior, velho-novo, dor-alegria; mas nenhuma das grandes fórmulas paulinas afronta, ofende tão violentamente o sentir do mundo e da carne como este de hoje, que gira em torno daquilo em que nos gloriamos. Diga-me em que te glorias, e eu te direi quem és. O homem que vive segundo “as coisas velhas”, sem se aperceber que em Cristo tudo é novo, e o mundo se transfigurou na “nova criação”, gloria-se no prestígio, nos êxitos temporais, no progresso, no desenvolvimento econômico, nas coisas que, na sua ordem, merecem atenção e zelo, mas não merecem os títulos de glória que lhes damos, e muito menos o zelo prioritário que lhes conferem hoje tantos homens da Igreja. Nós outros, porém, nos gloriamos na cruz de Nosso Senhor.
Pela glória colocada em si mesmo o homem se perdeu; pela glória devolvida a quem de direito salva-se o que estava perdido; e para essa devolução, para essa revulsão, diria até para essa revolução, nenhum instrumento é mais eficaz do que a cruz de Nosso Senhor. Por isso, nós nos gloriamos nela, ao arrepio de todos os valores que o mundo tenta nos impor.
O cristianismo é essencialmente uma transfiguração, uma travessia, uma páscoa que se efetua e se consuma dentro de nossos corações; quem não percebeu isto, ou quem abandonou essa divina subversão que os loucos chamam de loucura, e os alienados chamam de alienação, não pegou a ponta da meada, ou perdeu-a no emaranhado de novidades superficiais que o mundo trouxe para encobrir a Novidade essencial e única. Isaías profetizou: "Não penseis mais nas coisas velhas, nem cuideis das passadas! Eis que vou realizar algo de novo. Já está brotando: Não o notais? Sim, eu traçarei pelo deserto um caminho e através do ermo lançarei o sulco de um rio" (XLIII, 18). O Cristo cumpriu na cruz as promessas anunciadas, e o Apóstolo as anuncia como realidades presentes no mundo: "Quando alguém está em Cristo é uma nova criatura, e pode-se dizer: o que era velho desapareceu, vede, tudo é novo!" (2 Cor. V, 14).
Mas na Quinta-Feira Santa o grito paulino ganha na Igreja uma significação mais completa: a glorificação na cruz não tem somente a significação peregrinal de aceitação da fraqueza, do sofrimento, da agonia, como aberturas do céu; tem sentido mais brilhante e mais transfigurado. Nesta cruz de hoje, no seu lenho, no seu símbolo, nas suas esquadrias, vemos a mesa da Ceia do Senhor onde, antes do sofrimento na cruz, está anunciada e representada a imolação. Não há quadro mais belo na história do mundo. Não há mais viva penetração de eternidade no mundo. O céu violou a terra, e plantou num instante, entre os seu elementos, e entre os passos incertos do homem, esse acampamento de festa divina. "Um rei celebrou as bodas de seu filho..." E a festa do céu se realiza na terra.
Hoje é relativamente fácil gloriarmo-nos na cruz, porque nela vemos a mesa da Eucaristia inaugural, da primeira missa do mundo.
Amanhã, diante do espantalho pregado num poste, fora dos muros da cidade, será mais difícil acompanhar a estranha alegria do Apóstolo. E depois, depois de amanhã, e depois de depois de amanhã, quando entrarmos na rotina dos dias iguais, e quando a Ceia Sagrada se nos apresenta como Missa, que um de nós, com mãos ungidas repete pela milionésima vez, tentando este ou aquele romper a monotonia de vinte séculos com alguma novidade mais ou menos pueril, então sim, então podemos dizer que não é fácil acompanhar a estranha alegria do Apóstolo. "Nos autem gloriari opportet in Cruce Domini nostri Jesu Christi..."
Mas ainda aqui é o caso de dizer: não temos outro itinerário, outro roteiro, outro indicador de caminhos fora dessa cruz plantada num monte e exposta à derrisão. Os homens de nosso tempo sentem cócegas nos ouvidos e querem procurar programas de uma novidade que eclipse a novidade de Deus. Em vão, em vão procurarão. É o caso de lhes perguntar como Pedro perguntou entre fiel e aflito: "Aonde iremos? Quem nos dirá palavras de eternidade?
 *****
                                                                              O GLOBO  11/4/68



QUINTA-FEIRA SANTA


Gustavo Corção*

A vida cristã vista com os critérios do mundo parece um disparate; e quanto mais perto seguirmos as pegadas de nosso Salvador mais bem fundada parece a exclamação do Apóstolo: — “Escândalo para os judeus, loucura para os gentios.”
Eis que nesta semana e especialmente os dias da ceia e da Cruz parece concentrar-se um trágico divino que ultrapasse todos os trágicos humanos. Na 5ª Feira Santa, efetivamente, Jesus desvenda o mistério central de sua obra redentora. Ela será realizada por um Sacrifício — sacrifício único mas de três modos espantosamente diversos representados — em que Cristo Sacerdote, Verbo Incarnado, oferece ao Pai seu próprio corpo e seu próprio sangue, isto é, oferece ao Pai o Cristo–Vítima para a salvação dos homens.
Os três modos de apresentação do mesmo e único sacrifício são: a Ceia, em que o Cristo, ainda em sua santa humanidade, ele mesmo com as próprias mãos, consagra o pão e o vinho que, por um portentoso milagre, maior do que o de toda a Criação, se transubstanciam e sob as espécies dos sinais sensíveis, nos trazem a presença real de Cristo vítima por nós, desde a ceia oferecido em Sacrifício sob os véus do sacramento.
Detenhamo-nos a meditar um pouco — e que Deus nos ilumine — em certos aspectos da Ceia que merecem especial atenção. Em artigo anterior chamamos a atenção para o caráter de obra-feita, de obra longamente preparada, desta cerimônia que emenda solenemente o Antigo no Novo Testamento. É em Lucas XXII, 7 a 13, que assistimos aos últimos arremates deste cerimonial comandado pelo próprio Jesus. Não sei quantas vezes o termo ide e preparai, preparar, preparativos, mostram bem que o espantoso desenlace no opróbrio da Cruz em todos os seus pormenores foi comandado pelo artífice de nossa salvação. E é em Lucas XXII, 14 e 15, que chegamos à cena que dificilmente um coração católico pode evocar sem profunda compunção e sem um ardente desejo de voar ao encontro daquele ardente desejo que Jesus agora anuncia: — «Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa». Começa nesse ardente desejo a Paixão de nosso Salvador. Na Cruz, como tantos autores espirituais o assinalam, Jesus repete, no extremo desconforto de uma dor inimaginável, a mesma sede de almas, concentrado naquele grito que a Sagrada Liturgia expressa na palavra; — Sitio.
Uma nota se impõe à nossa atenção à medida que a cena da Divina tragédia se desenrola naquele cenário cuidadosamente escolhido para a solenidade. Naquele tempo Jesus já era bem conhecido e já contava centenas de seguidores mais ou menos assíduos. No Domingo anterior fora aclamado pelo povo de Jerusalém: “Hosana! Bendito aquele que vem em nome do Senhor! Rei de Israel!”(Jo XII, 13 a 21). As expressões «muitos estenderam seus mantos» sugerem uma apreciável multidão. Ora, naquele instante máximo Jesus fez questão de estar só com os doze como que para mais condensar, e até ouso dizer, para melhor segredar o mistério sagrado da vida profana. Deste arcano e desta segregação resultaria uma maior firmeza nuclear no centro da Igreja. E se essas reflexões são realmente irrefutáveis, concluímos aflitos que as infelizes reformas litúrgicas, especialmente no que concernem à Santa Missa, exibem um espírito que dificilmente se coaduna com o que nos enche a alma diante da ceia.
Fugindo à idéia de Sacrifício, pouco aceitável na ONU, e procurando maior apoio na Ceia, os autores do novo missal, no infeliz Ponto 7 do Institutio Generalis apresentam a missa como essencialmente constituída «pela assembléia dos fiéis».
Por onde se vê que o extravio provocado pelo horror à Cruz, espantalho dos humanistas, em vão buscará apoio na Ceia. Exageradamente errado o famoso ponto 7 de Monsenhor Bugnini, não sendo apenas um erro material isolado, mesmo depois das serziduras e remendos, continua a bem revelar o novo espírito que alegrou Taizé e que na capa de Documentations Catholiques provocou a tenebrosa hilaridade comentada pela revista Itinéraires (n˚ 178 – Dez. 73).
Neste ponto apareceu-me o fantasma de um leitor a me reclamar o que lhe soa como uma impiedade imperdoável: aproveitar a Quinta-feira Santa para referências e comentários polêmicos.
Ora, caríssimos leitores, se o que até aqui disse provocou espanto, o que agora acrescentarei ainda mais estranho parecerá: a Quinta-feira Santa é, de todos os dias do ano, o dia mais indicado e mais propício para um artigo polêmico não somente em defesa da Santa Missa mas na denúncia dos traidores. Atrás insisti na idéia de uma esmerada preparação feita pelo próprio Senhor Jesus para a consumação de toda a dramaturgia de nossa salvação. Ora, entre as cenas preparadas pelo divino dramaturgo nós trememos diante desta obra-prima: «...Tendo assim falado, Jesus se perturbou no seu espírito e declarou em voz clara: — Em verdade em verdade vos digo um de vós me trairá. Ouvindo essas palavras, os discípulos se entreolharam sem saber de quem falava Jesus. Então, aquele discípulo que Jesus amava achava-se encostado em seu ombro; Simão-Pedro fez-lhe então um sinal e lhe disse: — Pergunte-lhe de quem fala. E João dirigindo-se a Jesus: — Senhor, quem é? Jesus respondeu: — É aquele a quem darei o pedaço de pão que vou molhar no vinho. Tomando pois o pedaço de pão molhado deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Tendo Judas recebido o pão, Satã entrou em sua alma. E Jesus lhe disse: — O que tens a fazer faze-o logo. (...) Em seguida Judas saiu. Anoitecera».
Este quadro em que Jesus formula uma denúncia que deve ter sido prevista na sua esmerada preparação e em que entra em cena o próprio Satã vem confirmar os seguidores de Cristo nesta ousada idéia de que não há dia mais oportuno para defesa polêmica das coisas santas e denúncia dos traidores.
 *****
  O GLOBO, quinta-feira, 15/4/76


quarta-feira, 28 de março de 2018

NO LIMIAR DA SEMANA SANTA


Gustavo Corção*

Ainda uma vez estamos nós, caro leitor, enquanto por aqui andamos, no limiar da Semana das semanas, a Semana Santa, onde a alma antes de se rejubilar com os hinos da Ressurreição, contempla e sofre a Paixão do seu Senhor.
Toda nossa vida cristã, na medida em que é cristã, deveria transcorrer diante do mesmo sistema de referências com eixos em cruz, mas Deus reconhece nossa fraqueza e confiou à sua Igreja uma soma de recursos pedagógicos para reavivar em nós o nosso nome, o nosso compromisso, o nosso fraco amor. O ano litúrgico é um recurso didático, uma espécie de sabatina, mas difere numa coisa dos métodos humanos de recordação e representação. Quando celebramos um aniversário, uma data de nascimento, de feito cívico ou de festa familiar, é só afetiva a nossa rememoração. Os personagens mortos, os dias idos e vividos não reaparecem na festa senão sob as espécies de sinal e de lembrança. Outra coisa, porém, é a recordação de um mistério divino, como esta que constitui agora a Liturgia da Semana Santa: se o Cristo não torna a descer e a se encarnar e não torna a padecer, não é menos verdadeira uma espécie de descida espiritual desta grande semana. Em outras palavras, não somos só nós, Igreja Militante, que celebramos a Semana Santa, é toda a Igreja, são todos os Santos, e acima de tudo o próprio Deus que realiza na Liturgia uma repetição efetiva, real, da Encarnação e da Paixão. 
E diante dos textos inesgotáveis, por mínima que seja a atenção, tornamos a notar o duplo aspecto divino-humano, em máxima densidade nos dias da Paixão de Nosso Senhor. Tudo o que aconteceu naquele tempo, que ficou registrado nos Evangelhos, tem a marca de um contraste tremendo que Deus ao mesmo tempo exalta e aplaina. Em nenhum outro ponto do Evangelho é tão evidente a transcendência da obra de Cristo, e a sua divindade; mas também em nenhum outro ponto é tão evidente o caminho percorrido pela Misericórdia até as profundezas de nossa miséria. Na leitura de todo o Evangelho antes destes textos de concentração máxima, aqui e ali, se nota o peso da carne, diria até o leve peso da carne na vida de Jesus. Aqui ele tem fome, acolá diz-se cansado. Aqui freme de cólera diante dos vendilhões do templo ou diante da hipocrisia dos fariseus, e acolá chora diante do amigo morto. Mas nas vésperas da Paixão, já diante da Ceia, a atmosfera de paixões se adensa. No Evangelho de Marcos, a Ceia da Quinta-feira Santa começa logo, quase diria ao levantar-se o pano, com uma conversa dramática: “E quando estavam à mesa e comiam, disse Jesus: - Em verdade vos digo que um de vós, que come comigo, me há de entregar”. E então os discípulos ficaram perturbados e começaram a dizer: “Sou eu?” e começaram a se gabar: “Ainda que todos se escandalizem a Teu respeito, eu não me escandalizarei”. E assim se vê que a festa tranqüila, a refeição de amizade, se carrega de tragédia. E nós sentimos ao mesmo tempo a infinita distância, e a infinita proximidade do Verbo Encarnado em todos os passos da Semana Santa. E se em cada episódio ganha realce a tristeza de nossa miséria, acentua-se também, pelo interesse de Jesus por nós, a nota de nossa dignidade. E assim, quando estivermos inclinados a desanimar de nossa humanidade temos o Cristo Crucificado a nos ensinar do alto da Cruz, “ex-cathedra”, o fundamento de nossa religião, de nossa metafísica, de nossa moral, de nossa política.
Às vezes nos escandalizamos quando vemos dentro da Igreja agitações, perturbações, divisões, parecidas com aquela que existiu e que ganhou singular destaque na Quinta-feira Santa em torno da Ceia. E até pensamos que seja virtude calar, quando alguns dão público espetáculo de seus desatinos, como se pudesse haver alguma vantagem em tornar visível aos olhos do mundo somente este aspecto triste, com o risco de alguns pensarem que os demais aspectos da Igreja são do mesmo quilate. A Liturgia da Semana Santa mostra, por assim dizer, a enorme franqueza com que a Igreja publica, cantando, os estremecimentos, os desentendimentos, as traições. Não se escandalizem, pois, os que descobrem, como se descobrissem a pólvora, que o drama continua, e que é diante do mesmo Cristo Crucificado que nós continuamos a clamar pelos séculos e séculos, movidos por nossa insegurança, por nosso sentimento de culpa, por nosso fraco amor: “Sou eu?”, “Sou eu? Eu não me escandalizarei ...” É claro que nós gostaríamos de ter maior entendimento, sobretudo com os mais próximos; é claro que nós lamentamos, que nós choramos, que nós sonhamos com uma paz e uma unidade aqui mesmo neste vale de lágrimas; é claro, claríssimo, que nem por ser permanente o drama da Paixão, devemos descuidar-nos de lutar por uma concórdia maior dentro da Igreja. Mas a grande lição da Semana Santa é a da confiança total posta no mérito do Cristo e na obra de redenção, da qual se tira um conforto sobrenatural, que não se parece com as fórmulas usuais de conforto que o mundo pode dar. Nossa religião é de Cruz: gloriemo-nos na Cruz de Nosso Senhor.
*****
 *O GLOBO Sábado, 18/3/78

segunda-feira, 26 de março de 2018

A SEMANA SANTA


Gustavo Corção*
  
A comemoração litúrgica da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que na dor consumou nosso resgate, é uma lição repetida, é uma sabatina dos dois lados essenciais de nossa vida: o lado Cruz em que Nosso Senhor assumiu todas as nossas dores, convidando-nos a assim nos associarmos à sua obra, e descarregou com seu sangue a tensão de inimizade entre o homem e Deus; o lado Ressurreição com que ultrapassa tudo quanto poderíamos desejar. Para descrever o contraste da obra redentora São Paulo nos diz que “onde abundou o pecado superabundou a graça”, de onde poderíamos tirar várias conclusões de júbilo transbordante: onde abundaram tristeza e lágrima, superabundou a alegria. Ainda vemos essa alegria da Glória no lumem fidei, na lamparina da Fé que nos mostra tudo em sinais enigmas; mas um dia, se não opusermos a nossa vontade à vontade de Deus, veremos tudo o que estava escondido, e tudo resplandecerá no lumem Gloriæ.

O “mundo inimigo” que é o mundo, mas é um mundo, um Reino com seu Príncipe, e com seus clérigos nos trânsfugas que querem fundar a “nova Igreja”, que é uma anti-Igreja, a pretexto de exibir um humanismo interessado pela sorte temporal do homem, despreza a Páscoa do Senhor nos seus dois temos essências, na agonia da Cruz, e na Ressurreição.

A aliança que Deus nos propôs, por cujos termos toda nossa vida tem de se inserir entre a aceitação da Cruz e a certeza da Ressurreição, faz desta vida uma passagem, uma páscoa de valor infinito pelos seus termos extremos, sob a condição de renunciarmos aos pequenos céus frágeis e fugazes de nossa própria invenção. E é nesta renúncia do hoje horizontal, para uma entrega completa ao “hodie” vertical de vida eterna em Deus, é nesta exigência que tropeça o enorme movimento de apostasia de nossos tempos. Todos nós, ai de nós, apegamo-nos aqui e ali a um simulacro de paraíso neste mundo, mas não fazemos disto um sistema muito menos uma vanglória. Gememos, choramos, pedimos perdão 70 vezes 70.

Quando, porém, uma massa volumosa se congrega para secularizar-se, para se apegar ao mundo com grito de triunfo e com risadas de escárnio para a Casa do Pai, então não é só um recrudescimento de pecado o que vemos, não é mesmo uma heresia, “a heresia do século XX” como diz Madiran, não é só uma protestantização da Igreja isto que temos diante de uma consciência boquiaberta.

Com a característica de somar todas as heresias, esse movimento dito “progressista” é na verdade uma massificada e volumosa apostasia cujos fautores e cujos carneiros só não se afastam mais decisivamente, num último assomo de lealdade, porque hoje essa apostasia disfarçada rende muito mais do que os trinta dinheiros com que Judas comprou a corda.

Roguemos nós pelos irmãos na fé. Observemos bem que no Evangelho de São João, Nosso Senhor não desaconselha nem esconde esse amor de predileção. Depois do anúncio da traição que Jesus pronunciou com espírito aflito, Jesus se volta para despedir-se de seus discípulos, amigos e filhos: “Filhinhos meus, ainda um pouco de tempo estarei convosco; depois buscar-me-eis, e como disse aos judeus também vos digo agora: aonde eu vou não podeis vir, mas agora vos digo: trago-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei; que vós vos ameis mutuamente. E NISTO conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes caridade uns pelos outros”.

Os teólogos mais tarde ensinarão que há uma hierarquia na caridade. Neste momento de densidade infinita Jesus não hesita em dizer que seu novo mandamento consiste num amor de coesão dentro da Igreja, e já explica que esse maior amor dos fiéis, uns pelos outros, longe de ser detrimento para os outros, será sinal. “In hoc cognoscent omnes qui discipuli mei estis, si dilectionem habueritis ad invicem”. Pensando o valor deste sinal, para os outros, Tertuliano dizia: “vede como eles se amam”.

Mas no enxame de apóstatas que cerca a Igreja, os mais efusivos se apresentam como os mais bondosos e mais compreensivos do que Nosso Senhor, porque não se restringem nesse novo mandamento, e ostensivamente escolhem no mundo alheio à Igreja seus paradigmas e seus modelos de filantropia: Gandhi, Luther King, e os revolucionários Guevara e Camilo Torres. Na verdade, e como tão bem disse Marcel de Corte, esse amor abstrato pela humanidade em geral, pela classe operária, ou pelo Terceiro Mundo não passa de uma cruel falsificação do amor.

A semana da Paixão de Nosso Senhor, além de outras lições nos aviva a vigilância e a consciência de estarmos cercados de inimigos. Todas as formas da maldade do mundo têm um papel na Divina Tragédia, e não é de todos que Jesus diz: “Perdoai-os Pai, porque eles não sabem o que fazem”. Não é, portanto, para nos amolecer, e para nos tornar mais filantrópicos do que cristãos, que a Igreja realça a Semana Santa. É antes para lembrar o novo mandamento que nos tempera e nos orienta o amor.

*Revista PERMANÊNCIA, Ano VI, n° 54-55, Abril-Maio de 1973.