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terça-feira, 16 de abril de 2019

AVE! MARIA!


Fagundes Varela (1841-1875)

A noite desce – lentas e tristes
Cobrem as sombras a serrania,
Calam-se as aves, choram os ventos,
Dizem os gênios: – Ave! Maria!

Na torre estreita de pobre templo
Ressoa o sino da freguesia,
Abrem-se as flores, Vesper desponta,
Cantam os anjos: – Ave! Maria!

No tosco alvergue de seus maiores,
Onde só reinam paz e alegria,
Entre os filhinhos o bom colono
Repete as vozes: – Ave! Maria!

E, longe, longe, na velha estrada,
Pára e saudades à pátria envia
Romeiro exausto que o céu contempla,
E fala aos ermos: – Ave! Maria!

Incerto nauta por feios mares,
Onde se estende névoa sombria,
Se encosta ao mastro, descobre a fronte,
Reza baixinho: – Ave! Maria!
Nas soledades, sem pão nem água,
Sem pouso e tenda, sem luz nem guia,
Triste mendigo, que as praças busca,
Curva-se e clama: – Ave! Maria!

Só nas alcovas, nas salas dúbias,
Nas longas mesas de longa orgia
Não diz o ímpio, não diz o avaro,
Não diz o ingrato: – Ave! Maria!

Ave! Maria! – No céu, na terra!
Luz da aliança! Doce harmonia!
Hora divina! Sublime estância!
Bendita sejas! – Ave! Maria!



terça-feira, 16 de outubro de 2018

AS ESTRELAS


“Assim me encontrava uma noite
Contemplando as estrelas,
Que me parecem mais belas
Quanto mais se é desgraçado
E que Deus as tenha criado
Para consolar-se nelas”.

José HERNÁNDEZ (1834-1886). Martín Fierro, I, IX, 1445-1450.


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

UM POEMA DE RIBEIRO COUTO


Queixa da moça arrependida
Ribeiro Couto (1898-1963)*

A São Francisco de Assis
Fui pedir perdão na igreja
Por ter matado os ratinhos.

Meus brocados do Oriente!
Meus panos de seda antiga!
Tudo roíam, roíam...

Só São Francisco de Assis,
Que de bichinhos e panos
Desde menino entendia,
Só São Francisco de Assis
Me perdoar poderia.

Chegando ao altar do santo,
nem bem me ajoelhara, vi
Que um rato os pés lhe roía.
O santo olhava e sorria.


*Poema publicado no Diário de Notícias (RJ), edição 7787 de 14 de março de 1948.







segunda-feira, 3 de setembro de 2018

VELHA CHÁCARA


 MANUEL BANDEIRA
Especial para "A Ordem"*

A casa era por aqui...

Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinqüenta anos)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...

— Mas o menino ainda existe. 


 Rio, 13.04.1944

*****
*Publicado na revista A Ordem, n. 8, de agosto de 1944.



terça-feira, 31 de julho de 2018

O DIA DA CARMELITA

MADRE MARIA JOSÉ


...Estando encerradas, peleamos por El. (Cam. De Perf. C. III, 60).

Na calma da madrugada
Ouve-se uma matracada,
Depois outras e outras mais...
Levanta-te, ó Carmelita
Olha quanta gente aflita
Nas prisões, nos hospitais...

Os Missionários
Sobem ao altar;
Os operários
Vão acordar...
Dá-lhes coragem,
Dá-lhes vigor,
- Qual doce aragem –
O teu amor.

Vai ao coro antes da aurora,
Na oração suplica e chora
Para que o bem vença o mal;
E depois, no santo Ofício,
De ti faze o sacrifício
Mais inteiro, mais total

Já as criancinhas
Se vão erguer...
Ah! Pobrezinhas!
Que irão fazer?
Precisa a infância
De tanta luz...
Pede-a com anciã,
Pede-a a Jesus.

Corre a haurir orça e energia
Nas fontes da Eucaristia,
E depois deixa-a correr,
- Como tranquila ribeira
Que refresque a terra inteira
Dando a todos de beber.

Entra nos lares,
Nos “Ateliers”
Transpõe os mares,
Ninguém te vê;
Cai – como orvalho –
Sobre as missões,
Sobre o trabalho
Das conversões.

Junto à Mãe do Céu bendita,
Dia e noite, ora e medita
Na santa Lei do Senhor;
Para os ministros da Igreja
Serem fortes na peleja,
Em redor de seu Pastor.

São sal da terra,
Do mundo luz;
Nada os aterra,
Sua arma é a Cruz.
Dá-lhes bravura
Na luta cruel,
Sendo mui pura,
Humilde e fiel.

Quantas virgens consagradas
Vivem no mundo, ilibadas,
- Como lírios num paul...
Vôa a dar-lhes força e alento,
Percorrendo num momento
A terra, do norte ao sul.

- “Anjos amados,
Lutai, sorei,
Como soldados
Do Cristo-Rei,
Vossa irmã pede
Por todas vós,
Roga e intercede...
Ah! Não estais sós!”

Sempre imolada e serena,
Faze quanto a Regra ordena,
Sem nenhum temor servil.
Fez-te “Mãe” a Virgindade:
Ganha o pão à Humildade,
Sobretudo ao teu Brasil...

Com Deus expande
Teu coração...
Oh! quanto é grande
Tua missão!
Tu representas,
Na Igreja, “o Amor”:
O mundo alentas
Com teu ardor.

Já bem tarde, em tua cela,
Com Maria, junto d’Ela,
Sob seu materno olhar,
No duro leito adormece,
Que também teu sono é prece,
Teu dormir inda é amar...

Ao vir a morte,
Sublime, em paz,
Guerreira, forte,
Não temerás.
Ganha a vitória,
Irás, veloz,
Inda na Glória
Rogar por nós...

(“Ya, hija, hábeis visto la gran empresa que pretendemos ganar; que tale habremos de ser para que en los ojos de Dios  del mundo no nos tengan por muy atrevidas? Esta claro que hemos menester trabajar mucho...) [Camino de Perección, Cap. IV, 1].



quinta-feira, 3 de maio de 2018

RESSURREIÇÃO DA CARNE


Lauro de Araújo Barbosa* (1915-1997)

Teu corpo, Perfeito como o vaso do oleiro,
Em que eu bebi a essência de tu'alma,
Há de voltar ao solo,
De onde vem a argila.

Tuas mãos,
Que se ergueram numa oferta,
E se puseram sobre as minhas num gesto de noivado,
Hão de tonar-se em humus,
De onde vem o lírio.

Teu cabelo,
Que cobria tua cabeça como um véu,
Diante da minha majestade de homem,
Há de voltar às minas,
De onde vem o auro.

Teus olhos,
Carvões desoladores,
Que queimaram a minh'alma e purificaram o meu corpo,
Se apagarão no céu,
De onde vem a luz.

Tua boca, Livro purpureo,
Que guardava as palavras da Sabedoria,
Mergulhará no mar,
De onde o coral vem.

Teus gestos,
Sóbrios como um culto,
Que marcaram o límite do meu mundo,
Hão de perder-se no espaço,
Como um vôo ferido.

Tua voz,
Que aplacava a minha ira
E chegava à torre do meu exílio
Há de se partir como a corda, de onde vem o som.

Teus passos,
Que maracaram sulcos na minha carne,
Hão de se perder como o rastro do peregrino,
Que a areia do deserto apaga
Na direção incerta.

Mas um dia,
Ao soar das Trombetas,
As tuas particulas desagregadas,
Entradas na formação de outros mundos,
De novo formarão um todo perfeito,
Sem ruga e sem mancha.

Então os anjos,
Com as suas asas de fogo,
Longas e rubras,
Formarão um círculo em torno do teu corpo,
Para defendê-lo;
E ele será como a cidade invicta,
Onde ninguém Penetra.

Mas quando eu chegar.
Transfigurado,
Na minha veste de nupcias,
Os anjos se afastarão,
Silenciosos...

E eu, comovido
Ante a tua beleza,
Que nada iguala,
Apenas tocarei, com medo,
A orla do teu vestido.
*****



*Lauro de Araújo Barbosa é o nome de batismo de DOM MARCOS BARBOSA, o monge poeta, tradutor de "O Pequeno Príncipe", a magnífica obra de Saint-Exupéry, e também, entre outras, de "O Anúncio feito a Maria" de Paul Claudel. A poesia que ora publicamos foi extraída da Revista A Ordem, 1937, n. 80, p. 51-53.




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

CONSUBSTANCIAÇÃO

Augusto Frederico Schmidt*

Agora que eu passei tanto tempo distante
Vejo de novo o céu, abrindo-se, e o sorriso
Da aurora a caminhar sobre a relva molhada.

Altos tempos, Senhor!
Oh! o trigo vai florir!
Da semente esmagada
o ouro infantil
o ouro bom
descerá substancioso
E Cristo vai tomar
Formas elementares
E Cristo vai vestir as roupagens singelas.

As criancinhas vão receber Jesus, vestidinhas de branco!

Os ventos da noite estão longe
O sol enche de amor a manhã alta e enorme.
*****

*Publicado na Revista Vida, n. 2, maio de 1934, p. 7.

À VIRGEM DA PENNA

Jonathas Serrano (1888-1944)

Tu, que o Verbo trouxeste no teu seio,
E a tua carne humana à obra divina
Ofertaste, ó Beleza Peregrina,
Eva de quem o Novo Adão proveio:

Virgem da Penna, vê com que receio
Se atreve a humana pena, por mais fina
E rara, a celebrar-te a matutina
Graça, da qual o Sol do Amor nos veio.

Mãe do Divino Verbo, ao verbo humano
Da força, encanto e luz. Virgem da Penna,
Faz que a pena em nossas mãos mesquinhas
Seja a tuba da Fé, que ao Soberano
Do Céu leve o clamor da grei terrena,
Celebrando a Rainha das Rainhas.
***** 

*Soneto publicado na Revista A União, Ano VII, n. 33, de 10 de setembro de 1916, p. 2.


domingo, 31 de dezembro de 2017

VOLTA PARA DEUS

Francisco Karam

Eu fui até Vós
Quando ergui os meus olhos.
E todas as cousas desapareceram de redor de mim.

Desapareci eu, em Vós.
Os meus sentidos
Ficaram despregados de mim,
Para Vos sentir.

E em Vós foi que eu senti
E que eu vivi.

Vivi a Vossa Eternidade.
Vivi o êxtase calado de vosso poder.

Divino como Vós, eu me senti senhor,
E grande, e criador,
E terrível.

Momento de todas as horas.
Atravessei as Idades, desde o Princípio.
E fiquei onde estava
Porque não caminhava para o Fim.
Porque não caminhava.
Porque tinha voltado para Vós
E Vós sois a Eternidade.

*****
 Publicado na Revista A Ordem, n. 3-4, 1929, p. 173.