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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A MULHER FORA DO TEMPO

Gertrud VON LE FORT (1876-1971)*

Uma curiosa constatação se impõe: cada vez que se trata da Mãe, a arte, quando verdadeiramente grande, sugere apenas, não exprime nada. A grande poesia dramática se abstém, ou quase, de toda indicação: com o “Rei Lear”, Shakespeare escreveu a tragédia do pai, mas a tragédia da mãe está ausente. Não temos dele senão o grito de Constance, no rei João, e, no “Coriolano”, as duas mães, cuja única função é servir de réplica ao herói masculino do drama. A mais velha faz ressaltar esta verdade: a mãe não se satisfaz de agir e brilhar senão em seu filho. A mais moça, ouvimo-la chamar: “meu doce silêncio”. A surpreendente beleza deste epiteto significará que a arte também realiza o que Ruth Schaumann diz de cada mulher: “Quando alguma coisa a comove, ela se cala?”
O silêncio da arte não será o indicio de que a arte conhece bem a mãe? A grande literatura dramática parece confirma-lo. A hora heroica da mulher, e todo verdadeiro grama é construído em torno de uma hora heroica, não se manifesta por ações visíveis, como a hora heroica dos homens, mas se realiza no seio do mais profundo recolhimento. Assim como escapa aos olhos, escapa também à representação dramática.
Outra razão ainda: o elemento gerador do drama não é somente a ação heroica, é também a lei interior de uma figura excepcional em seu desenvolvmento. Ora, a mãe não é uma figura excepecional, ela não tem lei própria, sua lei é o filho, tudo o que tem fora de seu centro de gravidade é sempre mais ou menos impessoal. A mãe é a mulher fora do tempo, porque é imutável. Seu amor não conhece desenvolvimento, desde o primeiro momento ele lá está, não há progresso no imutável. O amor de uma mãe não pode ser acrescido, isto poderia fazer supor que ele tivesse sido menor. Não se pode falar de progresso a propósito dos diferentes períodos da vida materna. Estes períodos são semelhantes as estacoes da natureza: primavera e outono não são etapas de desenvolvimento, são partes de um círculo infindável.
A hora do parte, a mãe engaja sua vida, sem retorno, por seu filho: depois do nascimento, ela perde a disposição de sua vida, para remetê-la à criança. A mulher fora do tempo é a mulher que se perde no rio das gerações: a mulher em maternidade é a mulher que desapareceu em seu filho.

Ela deu um filho ao mundo
Alta alegria, profunda pena,
Ei-la agora toda perdida
Em sua muda ternura.
(Friedrich Hebbel)

O amor imenso, o amor de natureza que jorra da mãe e que forma, por assim dizer, o clima em que o filho vai conquistar seus traços próprios e sua personalidade, este amor impõe à mãe, renúncia e sacrifício, até o risco de perder seus traços próprios e sua própria personalidade. E esta perda é ainda o mesmo sacrifício, de um heroísmo não apenas total, mas também desprovido de patético. A hora heroica do parto se efetiva no segredo de uma alcova nupcial. A mãe transmite a vida ao infinito, mas sua própria vida se escoa no infinito de pequenas, ínfimas fadigas.
Feito de silencio, o heroísmo da mãe é feito também do quotidiano e do ordinário de cada dia. O que vale dizer que o gênero literário que convém à figura da mãe não é o drama, imagem dos grandes destinos, mas a arte burguesa da vida quotidiana, o romance. Este tem por traços formais esta ausência do patético, esta simplicidade, esta monotonia que caracterizam o destino e o heroísmo maternos. Suas afinidades pelo detalhe do dia a dia o qualificam mais especialmente ainda para retratar com amor este infinito desdobrar de acontecimentos pequenos, minúsculos, que tecem a trama de uma vida de mãe.
Ao contrário, a verdadeira grandeza da mãe, o que ela tem, para lá da psicologia, do universal, de imutável, de elementar, de natural – tudo o que faz da mãe mulher fora do tempo – não o encontramos no romance, sempre ligado a um tempo, mas ingenuidade da arte popular. Tudo o que faz da mãe uma estranha ao drama, destina-a ao conto e à legenda. Lá, não se trata de indivíduos, mas de tipos. Num conto, a mãe é sempre a mesma. É sobretudo quando os contos fazem aparecer a mãe morta, que eles mostram a constância de seu amor, a indissolubilidade dos laços que a prendem a seu filho. No fundo, nenhuma fábula acredita que a mãe possa morrer. A morte não tem poder sobre o amor, ela nada pode sobre o que não muda.
Não há apenas um só nascimento, o do filho pela mãe. Há também o nascimento da mãe pelo filho. “Os filhos nos acordem, os filhos nos dizem: tu és áspera, torna-te doce”, escreve Ruth Schaumann.
O soldado desconhecido, das guerras, não é ele filho da mãe desconhecida?
É da essência mesma da maternidade vencer o tempo. A mulher que gera um filho, leva a vida ao infinito, a mulher guardiã e protetora traz, no tempo mesmo, uma parte do infinito.
*****

*Excerto do livro "A mulher eterna", publicado no jornal Tribuna da Imprensa, p.5, de 27 de maio de 1950. A obra referida está disponível para download: https://mega.nz/#!YZsXCAbQ!PBKYcpIHvjH3OMdXaGSc6hqJKCdOi7AY6j68aMC-XO8


sábado, 30 de dezembro de 2017

A MULHER

Tasso da Silveira

Mulher brasileira,
é a ti que eu falo.

A ti que obscuramente realizas
a mulher valorosa
da sabedoria bíblica;
a que é mais preciosa do que as pérolas das extremidades do mundo,
a em quem serenamente confiou
o coração do esposo,
a que recolhe a lã e o linho
e os tece com as suas mãos velozes,
a que se levanta noite ainda
para ordenar o longo trabalho do dia inteiro,
a que provou o azeite
e constatou que ele era bom,
e não deixará extinguir-se pela noite adiante
a chama do seu candeeiro
a que atende o mendigo à porta,
a que se revestiu de força e graça
e riu-se do dia alvorescente,
a que recebeu dos filhos
à hora do despertar
a saudação feliz...

Mulher brasileira: guardarás
ao sopro do vento uivante
esta aureola de sonho e de pureza?

Vejo que não...
Vejo que invade o teu coração desprevenido
um vago fluido de inquietação.
Vejo que já tens ao lábio
o amargor de uma queixa,
vejo que foges
ao teu destino de fecundidade...

Mulher brasileira,
a mais tocada de Deus,
a mais tocada de graça maternal
entre todas as mulheres do mundo:
aprendeste a fazer do amor o gozo efêmero.

Eras como uma terra primitiva
sobre cujo mistério
passou, fecunda, a sombra
do espírito criador,

Passou fecunda, envolta
na pulsação do humano amor.

E no espelho das águas mansas de tua alma
refletiram-se céus distantes e infinitos,
e no húmus do teu corpo
a vida germinou e floresceu.
Eras como uma terra adormecida
que a esse frêmito novo despertou
para a plenitude da alegria
- a alegria de criar...
Mas, depois, esqueceste a transcendência
do teu destino.
E distendeste o corpo fatigado
e olhaste a vida em torno,
e hauriste um sorvo de lascívia,
e achaste
que o teu esforço heroico te roubava
a doçura das horas passageiras.
E, então, tomaste a decisão mortal:
Estancar em teu ser
as nascentes do ser...

Mulher brasileira, com o sacrilégio desse gesto,
profanaste o santuário
dos destinos raciais.

Mulher brasileira, a mais tocada de graça maternal
entre todas as mulheres do mundo
não foi apenas ao transitório sacrifício
das volúpias misérrimas
que fugiste.

Foi às sagradas determinações
da Vida
foi ao sonho
de Deus...

*****
*Parte IV do poema “A exortação”, publicado na Revista A Ordem, n.31, setembro de 1932, pp. 191-192.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

A MULHER MANTÉM O SENSO COMUM NO MUNDO

"É a mesma Natureza quem rodeia a mulher de filhos muito pequenos que requerem que se lhes ensine, não qualquer coisa, mas sim todas as coisas. Os bebês não necessitam aprender um ofício, mas sim que se lhes introduza a um mundo inteiro. A criança é um ser humano capaz de fazer todas as perguntas possíveis, e muitas das impossíveis. Se alguém diz que responder a essa criança insaciável é uma tarefa exaustiva, tem razão. Se diz que é uma tarefa desagradável, admito que pode ser tão desagradável como a de um cirurgião ou bombeiro. Em contrapartida, quando alguém diz que essa tarefa feminina não somente é cansativa, mas também trivial e odiosa, me é impossível entender o que querem dizer. Se odioso quer dizer insignificante, descolorido e intranscedente, confesso que não o entendo. Porque decidir e organizar quase tudo; ser ministra da economia que investe e compra roupas, livros, materiais e comidas; ser Aristóteles que ensina lógica, ética, bons costumes e higiene... Tudo isto pode deixar a uma pessoa exausta, mas o que não posso imaginar é como poderia fazê-la estreita e limitada. A maneira mais breve de resumir minha postura é afirmar que a mulher representa a idéia de saúde mental, é o lar intelectual à que a mente regressará depois de cada excursão pela extravagância. Corrigir cada aventura e extravagância com seu antídoto de senso comum não é -como parecem pensar muitos- ter a posição de um escravo. É estar na posição de um Aristóteles ou de um Spencer, isto é, possuir uma moral universal, um sistema completo de pensamento. Uma mulher assim tem que saber equilibrar muito para consertar e resolver quase tudo, para adaptar-se ao que faz falta. E equilibrar pode ser próprio de pessoas covardes, que se aconchegam ao mais forte. Mas também define as pessoas de caráter nobre, que sempre se colocam ao lado do mais fraco, como o marinheiro que equilibra um barco sentando-se onde há necessidade de seu peso. Assim é a mulher, seu trabalho é generoso, perigoso e romântico. Sua carga é pesada, mas a humanidade pensou que valia a pena colocar esse peso nas mulheres para manter o senso comum no mundo".
*****
G.K. CHESTERTON. La mujer y la familia, Editorial Styria.Barcelona, 2006.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A MÃE É O CORAÇÃO DA FAMÍLIA

“A mulher está pronta... a trocar a coroa de louros pela coroa de murta e a sacrificar a ciência nas aras da felicidade de mãe e de esposa... e a maternidade é a mais bela flor que pode oferecer um coração de mulher. Neste sentido, é rainha e sacerdotisa do grande mistério da vida e essa dignidade leva à veneração... a mãe é o coração da família, a rainha do reino do amor.... A mãe abre as portas do lar e da vida a um novo ser e embala-o carinhosamente nos seus braços. Mais tarde, quando os braços da mãe estiverem cansados, serão os filhos que mitigarão as suas últimas dores e fecharão silenciosamente os seus olhos”.
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Cardeal MINDSZENTY. A Mãe, Trad. Rui de Santelmo, Coleção Éfeso, Lisboa: Editorial Aster, p. 16 e seg.