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quarta-feira, 23 de maio de 2018

LIBERDADE OU LIBERTINAGEM?


Gustave Thibon (1903-2001)

Chegou-me casualmente às mãos a tradução de um comunicado cuja publicação ocorreu num número da revista "Culture Soviétique". Trata-se da resposta de uma alta autoridade do Ministério da Cultura a um jovem contestario que criticava "a atitude hipócrita das publicações, filmes e emissões de televisão soviéticos relativamente ao sexo" e que concluía: "sobre este assunto, a nossa informação está muito abaixo do nível internacional e é urgente abrir as comportas".
Por outras palavras, o referido jovem, deslumbrado pela liberdade sexual ao contemplar o mar de lama que inunda o Ocidente, verifica, despeitado, que a Rússia ainda está a seco e reclama um aumento maciço da produção pornográfica, a fim de restabelecer a paridade entre o seu país e as nações burguesas...
A revista reproduz a carta desse jovem e dá-lhe esta resposta oficial:

"Lenine sempre criticou implacavelmente a noção de amor livre como sendo de origem burguesa e estranha à moralidade soviética. Amor livre de quê? De toda a responsabilidade para com a pessoa que nos é querida? Mas tal amor, na realidade, ‘está livre do próprio amor’, porque este sentimento, pela sua própria natureza e excelência, pressupõe sempre uma responsabilidade ao mesmo tempo para consigo mesmo e para com a pessoa amada".

Eu tenho dito centenas de vezes estas mesmas coisas, quase com as mesmas palavras, e alegra-me - uma vez não são vezes - o fato de me sentir de pleno acordo com o ensino oficial do Estado soviético. Só com a diferença de que, ao defender os princípios elementares da moral sexual, não me colocava sob o patrocínio sagrado de Lenine e obtinha o efeito de que me tratassem regularmente como um detestável burguês retrógrado. Pois bem, aqui estou eu agora afiançado pelo socialismo mais ortodoxo.
A eminente doutora que subscreve o comunicado prossegue nestes termos:

"Num país socialista, não há nenhuma razão para que se desenvolva a teoria do amor livre. Como médica, considero que a pornografia é nociva, sobretudo no período do desenvolvimento físico e espiritual dos adolescentes. A derrogação das leis contra a pornografia, no Ocidente, conduz a um verdadeiro beco sem saída moral e à sobre excitação de emoções perversas que não são naturais ao homem... A nossa sociedade deve velar pela saúde moral dos nossos jovens trabalhadores e estudantes".

Uma vez mais, não se pode deixar de aprovar sem restrições tal declaração, porque não se trata já de moral burguesa ou socialista, mas simplesmente da moral resultante das exigências do homem eterno. E temos de confessar que, neste ponto, o nosso liberalismo que conduz à distribuição da pílula às adolescentes, à democratização do aborto e à exibição pornográfica, este liberalismo avançado à maneira dos frutos bichosos e do queijo que se decompõe, desqualifica-nos no nosso combate pela liberdade contra os regimes totalitários.
Eis aonde conduz a dissociação entre a política e a moral que grassa nas nossas democracias deliquescentes. Mas um povo não pode viver indefinidamente sem moral e esta, rejeitada por uma liberdade transviada, renasce, mais cedo ou mais tarde, sob a pressão da tirania política. Daqui a alternativa que se põe ao Ocidente: ou salvar livremente a liberdade impondo-lhe as disciplinas necessárias à sobrevivência, ou continuar a deixar a liberdade degradar-se em libertinagem - o que exige o mesmo remédio que um membro incuravelmente gangrenado: a amputação.



sexta-feira, 6 de abril de 2018

A UTOPIA


Gustave Thibon

"Todo o bem real projeta algum mal: só um bem imaginário não projeta mal". Este pensamento de Simone Weil exprime uma verdade profunda. A linguagem corrente traduz a mesma ideia dizendo que "não há luz sem sombra".
Podemos sonhar e esperar uma felicidade absoluta ou uma perfeição sem mistura de imperfeições, mas não podemos alcançá-las. A vida real é sempre uma mistura de bens e de males e a melhor coisa tem sempre o seu lado negativo.
Quem parte de férias para um pais meridional sonha com um céu sempre sem nuvens, com um mar tranquilo onde os banhos são uma delícia, com alimentos novos e saborosos, etc... Sem dúvida, encontrará tudo isso, mas experimentará também (e estas coisas não estavam previstas no seu programa de férias) os engarrafamentos de trânsito, dias de mau tempo e talvez mesmo algumas indigestões, devidas à cozinha exótica...
Os namorados pensam no casamento como numa lua-de-mel permanente e sem fim e pensam nos futuros filhos como numa alegre ninhada de pequenos seres encantadores e afectuosos. Na realidade, algumas cores escuras virão misturar-se a estas visões cor-de-rosa. Nem todos os casamentos são felizes e, mesmo nos melhores, há sempre uma parte de decepção e de provações. E quanto aos filhos trarão aos pais, juntamente com alegrias, um cortejo de preocupações e de dificuldades...
O mesmo acontece com todas as outras circunstâncias da vida.
Por que razão há esta distância entre o que se deseja e o que se consegue na realidade? Muito simplesmente, porque os nossos desejos são indefinidos e as nossas capacidades de realização são muito limitadas.
Qualquer que seja a orientação que dermos à nossa vida, ela comportará sempre uma mistura de bem e de mal.
Por isso, a sabedoria consiste em escolher não só o maior bem, mas também o menor mal. E acontece, não raro, que a solução menos má ainda é a melhor. Schopenhauer dizia que os reis que começavam as suas proclamações por estas palavras: "Nós pela graça de Deus", estariam mais próximos da verdade, se escrevessem: "Nós, de dois males o menor". Com efeito, toda a autoridade comporta abusos e injustiças, mas o governo mais imperfeito ainda é preferível à anarquia.
A vida terrena é um caminho imperfeito para a perfeição que nos espera na eternidade. Este caminho torna-se rapidamente impraticável, se exigirmos dele a perfeição, que só será alcançada no termo. É neste sentido que lorde Acton dizia que "a sociedade se torna um inferno, na medida em que se quer fazer dela um paraíso". Se, ao pensar em casar, um homem sonha com uma esposa ideal e com filhos absolutamente sem defeitos, mais lhe vale ficar solteiro, para não ser um mau marido e um mau pai. E se, na vida profissional, uma pessoa não tolera nenhum fracasso nas suas empresas nem nenhum defeito nos seus colaboradores, todos os seus esforços ficarão estéreis. A experiência prova que não há homem mais insuportável que aquele que não sabe suportar nada.
São Tomás Moro descreveu numa obra célebre um Estado onde reinaria a justiça ideal e a felicidade absoluta. Mas situou esse Estado na ilha da Utopia, o que em grego significa o pais que não existe em parte nenhuma. Enquanto a nossa viagem terrena não chegar ao fim, devemos, portanto, tender para a perfeição, mas nunca pretender consegui-la.

Gustave Thibon (1903-2001)


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

PARA QUE TUDO MELHORE

Gustave Thibon

Ser otimista ou pessimista ante a realidade da vida é uma alternativa sem sentido, porque não existem nem o bem nem o mal absolutos. Sempre há margem para melhorar a condição do homem.
Faz pouco tempo, em Nova York, depois de uma conferência sobre o tema do mal no mundo, um dos assistentes me perguntou boquiaberto: "Em definitivo, você é otimista ou pessimista?". Lhe respondi que esta pergunta não tinha sentido e que não se tratava de ser otimista ou pessimista a priori, senão de ver o bem e o mal onde estão e tal como são, e sobretudo, trabalhar para vencer o mal com a força do bem.
Há um otimismo e um pessimismo tão vulgares e irrefletidos, porque julgam o mundo desde nossa situação pessoal de momento. Si alguém está alegre, vê tudo cor de rosa ao seu redor; e quando surge a menor contrariedade, tudo lhe parece escuro. Bernanos dizia que o otimista é um imbecil alegre e o pessimista um imbecil triste.
- Um único erro: Estes dois erros opostos procedem de uma ausência de lucidez e do pecado de tudo ser colocado em relação a um. Por isso ocorrem tão facilmente em um mesmo indivíduo.
Conheço um homem que gozou durante muito tempo de uma magnífica saúde ao passo que seus negócios andavam de vento em polpa. "A vida é bela", proclamava continuamente. Todos os enfermos lhe pareciam murmuradores e todos os desafortunados nada mais que incapazes. Mas um dia conheceu ele mesmo a enfermidade e as dificuldades materiais. Caiu então em um pessimismo absurdo, repetindo sem cessar que o mundo é mal e que a vida não vale a pena ser vivida.
Esta mudança de óptica se explica sem dificuldade. O homem que, agarrado apenas a si mesmo, a sua própria sorte, permanece cego e insensível aos males dos outros, se encontra desamparado no momento em que a dificuldade se abate sobre ele: acaba aprisionado por esse mal que não havia sabido ver nem prever.
Assim, depois de viver cego pela comodidade ao ponto de não ver o mal que o rodeia, o homem continua cego para entender a desgraça até o ponto de não ver os bens que lhe restam. Porque aqui embaixo, no âmbito temporal, não há mal absoluto: seja qual for nossa prova, sempre conservamos algo - a saúde física, recursos materiais, o carinho de nossos amigos mais próximos...- e se perdemos tudo, ainda resta a esperança em Deus e na vida eterna.
- Paz interior: Não esqueçamos, com efeito, que nossa paz interior depende menos dos acontecimentos, que da interpretação deles; segundo a postura que tomemos, a pior catástrofe pode ser para nós causa de desespero ou motivo de esperança.
Penso neste momento em dois homens de minha região que, durante a segunda guerra mundial, foram enviados ao mesmo campo de concentração. Um era crente e o outro ateu. O primeiro, desacorçoado pela prova, perdeu a fé; o segundo, fortalecido pelo sacrifício, voltou a religião.

Seguindo esta linha de raciocínio, se desfaz o falso problema de otimismo e pessimismo. É igualmente absurdo dizer que tudo vai bem ou que tudo vai mal: o que nos é pedido é lutar sem descanso para que tudo melhore.
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sábado, 10 de fevereiro de 2018

A CADA DIA BASTA SUA PENA

Gustave Thibon (1903-2001)

O homem é o único ser vivo capaz de pensar e de prever o futuro. Este privilégio permite conceber e realizar projetos por meio dos quais - ao contrário do animal que vive no dia-a-dia sob a influência imediata dos seus instintos - o homem pode orientar e construir o seu próprio destino. A previsão é o motor do progresso.
Mas esta preciosa faculdade é também fonte de um número incalculável de ilusões e de sofrimentos.
Com efeito, muitos homens vivem de tal modo no futuro que se esquecem de saborear as alegrias ou de cumprir os deveres da hora presente. E isto, quer porque esperam do futuro uma felicidade ideal, que não é compatível com as condições da vida terrena, quer porque adiam para amanhã o cuidado de se corrigirem dos seus defeitos ou de tomarem certas decisões cuja urgência se faz sentir já hoje. Esquecem que o futuro é apenas um presente diferido e que, se hoje são incapazes de ser felizes e de realizar certos esforços, amanhã encontrar-se-ão com as mesmas limitações e as mesmas dificuldades, de tal modo que, deslocando as suas esperanças de amanhã em amanhã, acabarão por morrer sem nunca ter vivido. "O inferno está cheio de boas intenções" - diz um velho ditado... A mesma obsessão do futuro pode apresentar-se também sob a forma do medo e da angústia. Quantos homens agravam os seus males reais com a imaginação dos males possíveis e sofrem de antemão acontecimentos que talvez nunca venham a ocorrer! Estes terrores são geralmente tão ilusórios quanto as falsas esperanças, porque os males que nos atingem não são quase nunca aqueles que tínhamos previsto. Conheci um homem que vivia na obsessão do cancro; o menor mal-estar parecia-lhe um sintoma da terrível doença; via-se já destruído e condenado pela doença; por fim, acabou por morrer num acidente de automóvel, no qual nunca tinha pensado. Mas, entretanto, tinha estragado a sua vida na expectativa de males imaginários.
Responder-me-ão que há casos em que os males que se receiam não são imaginários e um homem que sofra, por exemplo, de uma doença grave, ou que defronte sérias dificuldades financeiras, tem razões muito legítimas para recear pelo futuro. Direi que tal fato é mais uma razão para não acrescentar á dor presente - que já é demasiado acabrunhante - o peso suplementar da dor futura. Vejamos o caso de um doente. O que o acabrunha e desanima é menos o seu sofrimento atual do que a imagem que cria para si mesmo do conjunto de males que talvez venha a sofrer e de perigos de que se sente ameaçado. "Que mais terei eu ainda para sofrer? Como vou sair disto tudo?" - pergunta a si mesmo. E sente-se esmagado por essa carga de provações futuras, que por agora só existem no seu espírito. Precisamos de aprender a aceitar as provações exatamente como elas nos são dadas, isto é a retalho, aos poucos e no dia-a-dia. "Qualquer que seja o teu sofrimento - dizia Marco Aurélio - podes sempre suportá-lo até ao minuto seguinte: ora, a vida é apenas uma sucessão de minutos". Também já foi dito que, se pusessem diante de um homem o conjunto dos alimentos que ele virá a consumir até ao fim dos seus dias (várias toneladas de pão, de carne, etc...), ele perderia imediatamente o apetite. E contudo, dia após dia, sem pensar nisso, o homem virá realmente a comer toda essa quantidade de alimentos...

"Não vos inquieteis a pensar no amanhã; a cada dia basta a sua pena" - diz-nos o Evangelho. O que nós temos de fazer não é sonhar o futuro, mas construí-lo mediante uma fidelidade sem quebra ao cumprimento das tarefas e dos deveres da hora presente.
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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

UMA VELA NA ESCURIDÃO

Gustave Thibon (1903-2001)

"O sorriso não é algo devido, senão um favor, uma graça, a forma de converter um encontro em luz".

É a hora do descontentamento em todas suas formas, desde a lamentação resignada até a sublevação manifesta. Velhos e jovens se conciliam para denegrir o presente: uns sentem nostalgia do passado e outros colocam toda sua esperança nas mudanças que aportará o porvir. Em todos os graus da escala social, as pessoas lamentam de sua sorte e se esgotam em críticas. Em suma, ninguém está contente com nada, salvo de si mesmo, pois, quem aceita sua parte de responsabilidade nos males que deplora?
Ao sair de uma reunião impregnada por completo deste ambiente taciturno, o azar de uma leitura me fez reparar neste pensamento de Confúcio: "Mais vale acender uma luz, por pequena que seja, que maldizer a escuridão ".

- A falta de vela

Um amigo a quem comentei esta sentença me respondeu: "De acordo, mas Confúcio viveu em uma sociedade descentralizada, de tipo agrícola e artesanal, onde o indivíduo podia fazer algo para remediar as desgraças da época. Quando anoitecia, se acendia uma vela; se fazia frio, podia-se recorrer a lenha nos bosques mais próximos e havia uma chaminé em cada casa para acender o fogo. Mas, o que se pode fazer hoje em dia em uma grande cidade quando um apagão de energia nos priva simultaneamente de luz e de calor?".
Igualmente, que recursos tem a iniciativa individual contra males como a inflação, o desemprego, uma greve dos correios ou de ferroviários? O mal adquiriu um caráter coletivo que exige igualmente remédios coletivos, quer dizer, medidas de conjunto que correspondem em grande parte aos poderes públicos. Daí a politização geral dos problemas sociais. "Que espera o governo para...?", diz espontaneamente o homem que passa pela rua. Em uma palavra, estamos em uma situação em que as pessoas, por falta de vela, não tem outro recurso senão maldizer a noite até que hasta que se solucione o problema da iluminação pública.
Reconheço — e este é o reverso angustioso de nossa técnica, as vezes libertadora pela potência dos meios que põe a nossa disposição, e alienante pelo excesso de centralização — que o homem moderno tem cada vez mais domínio sobre os elementos externos de seu destino. O que favorece por uma parte a passividade, pois se espera que as soluções venham de fora, e de outra o afã reivindicativo, o desejo de receber sempre mais. O indivíduo pode, sem embargo, acender uma vela nesta noite, ao menos estabelecendo o contato humano, tão reduzido hoje pela concentração e o anonimato tecnocrático. Nós lamentamos que a tecnocracia imponha aos homens relações quase unicamente funcionais. Mas depende de cada um de nós remontar este obstáculo. Ofereço como prova dois exemplos opostos.

- Intercâmbio luminoso

Me encontrava faz alguns meses em uma oficina de correios. Uma anciã que desejava enviar uma carta disse timidamente a funcionária: "Esqueci meus óculos, teria a bondade de preencher meus dados?". A empregada, com um olhar em que se unem a frieza pessoal e a indiferença administrativa, responde irritada: "Crê que tenho tempo para fazer seu trabalho? Olhe o impresso e verá que diz: preencher pelo usuário". Ainda estou vendo a pobre anciã retirar-se (depois pude ajudá-la), andando mais devagar e com o ânimo gelado por esta acolhida glacial.
Outra oficina de correios da mesma cidade. Detrás de um dos guinches mais frequentados, uma jovem tranquila, amável, recebe a cada um com um sorriso espontâneo e acolhedor, desconhecido inclusive entre os comerciantes mais zelosos, porque tal sorriso se dirige não ao cliente, senão ao ser humano. Após fazer os envios postais aos quais tinha direito pagando as tarifas usuais, levei comigo esse sorriso inesperado que não era algo devido, senão um favor, uma graça. E, ademais, me senti disposto a sorrir aos interlocutores que devia encontrar durante a jornada, pois o bom humor, a atenção, a afabilidade, provocam reações em cadeia do mesmo modo que a indiferença ou a animosidade.

Este elemento de graça e gratidão (as duas palavras têm a mesma etimologia) confere as relações mais superficiais uma qualidade única e insubstituível. Graças a ele, o encontro anônimo de dois peões no tabuleiro social pode converter-se em um intercâmbio luminoso e vivo entre duas presenças. Este clarão de simpatia, que está ao alcance de todos em qualquer momento, ao dissipar a escuridão, nos evita maldizer.
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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O HOMEM VIVE EM UM ESTADO DE PERMANENTE INSATISFAÇÃO

"O clima de facilidade e de desfrute em que vivemos, ao multiplicar em todos os planos as necessidades, que aumentam sempre mais rapidamente que as possibilidades de as satisfazer, socavam a base de nossa capacidade de experimentar verdadeiras alegrias e verdadeiros sofrimentos. Para muitos de nossos contemporâneos, não resta mais que a mediocridade de uns pequenos prazeres e de uns pequenos aborrecimentos, avantajando, ademais os segundos aos primeiros com grande diferença, pois o homem, obcecado pela excessiva busca da felicidade, vive em um estado de permanente insatisfação que o faz indiferente ao que possui e avido do que lhe falta. A fome, provocada e mantida artificialmente, se transforma em incurável saciedade. Daí uma frustração em duas fases: “tenho que obter isso custe o que custar”; e depois: “Não era nada de mais; busquemos outra coisa”. Há que se concluir que não se separa impunemente a busca da felicidade do conjunto das atividades, dos deveres e das virtudes, que são a trama de toda existência autentica. Os grandes personagens aos que a humanidade reconhece como seus modelos e guias preocuparam-se, por acaso, alguma vez de sua pequena felicidade individual? Obedeceram à sua vocação sem se esquivar dos riscos nem das desgraças que as acompanha e, às vezes, chegando até o sacrifício de sua vida; e a felicidade, na medida em que é possível neste mundo, lhe foi dada por acréscimo. Pois a vida é indivisível; se em nome do famoso “direito à felicidade” com que nos martelam os ouvidos, se tenta dissolvê-la, se chega ao irrisório resultado de ficar-se só com o liquido".
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Gustave THIBON. El equilibrio y la armonía, Belacqva, 2005.


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

DISTINÇÃO ENTRE INFORMAÇÃO, INTRUÇÃO E CULTURA

Gustave Thibon (1903-2001)*

A informação (palavra muito recente no sentido em que é usada hoje em dia) abarca as resenhas e notícias que nos chegam pelos jornais, pelo rádio, pela televisão, etc. Pode-se defini-la como uma instrução limitada aos acontecimentos atuais. Quais são as relações entre essa classe de instrução e a cultura? Para responder essa questão é necessário analisar as diferenças que separam a instrução em geral (tal como se dá hoje em dia) da verdadeira cultura. O dicionário, neste caso, não nos ajuda muito, já que as duas definições são quase idênticas: cultura e instrução significam aquisição de conhecimentos. É certo que, tanto na instrução como na cultura, há aquisição de conhecimentos. Mas esses conhecimentos não se situam no mesmo nível do espírito. Uma pessoa pode ser muito culta sem ser muito instruída, e pode ser muito instruída sem ser culta. Mais precisamente, toda cultura implica um mínimo de instrução, mas a recíproca não é verdadeira: pode-se ter muita instrução e não ter cultura alguma. É possível ser erudito ou “sábio” de uma maneira puramente mecânica e por efeito de uma doutrinação puramente externa. Fala-se frequentemente que um cachorro é sabido ou inteligente, mas ninguém ousa dizer que um cachorro é culto! A instrução com relação a cultura é completamente extrínseca, e não é nada mais que uma acumulação de conhecimentos; não implica necessariamente a participação intrínseca. Acrescentamos que na instrução o papel essencial é da memória, faculdade em grande parte material.
Se não se trata mais do que memória, um aparato registrador qualquer, um gravador, um disco, possui esta faculdade em seu grau máximo. É claro que um cérebro eletrônico possui muito mais memória que um homem (e consequentemente mais instrução), visto que chega a resolver problemas que exigiriam a colaboração de milhares de cérebros humanos. A cultura é outra coisa. Implica não só o conhecimento do objeto, mas a participação vital do sujeito. Recordemos que a etimologia da palavra (colere, cultivar) evoca a agricultura. Uma terra que se cultiva colabora com a germinação e crescimento dos grãos. Há participação da terra na transformação dos grãos em plantas. A instrução, como tal, é tão estranha à vida profunda do homem, que usamos na maior parte das vezes termos materiais para designá-la. Falamos, por exemplo, da “bagagem intelectual” que queremos dar a nossos filhos, o que indica muito bem o caráter extrínseco da instrução. Nesse mesmo sentido, falamos em “encher a cabeça”. Muitos estabelecimentos escolares não têm outro sistema pedagógico além desse, e neles, a formação humana dos alunos é sacrificada a este tipo de “inchaço cerebral”. Aparece assim uma primeira diferença: a instrução é extrínseca, a cultura é intrínseca. Em outras palavras, diremos que a instrução é impessoal e a cultura é pessoal, quer dizer, integrada à vida peculiar do indivíduo. Talvez haja a mesma diferença entre o homem instruído e o homem culto que entre o geógrafo e o explorador. O geógrafo conhece maravilhosamente o mapa e todos os lugares que estão nele marcados: cidades, montanhas, rios, oceanos, etc. O mapa não é mais que um decalque abstrato e impessoal das paisagens terrestres. O explorador visitou os lugares; talvez tenha conhecimentos menos extensos que o geógrafo, pois não foi possível a ele visitar todos os territórios indicados no mapa, mas de todos os lugares que percorreu, guarda um conhecimento saboroso, particular e direto, que nasceu e morrerá com ele. A instrução, como tal, não comporta diferenças de nível (ou se sabe, ou não se sabe), ao passo que acultura ´e suscetível de um aprofundamento indefinido. Por exemplo: saber de cor um verso de Racine é típico da instrução, mas meditar sobre esse verso e encontrar em cada leitura novas ressonâncias interiores é o que caracteriza a cultura. O homem culto é o que estabelece entre os dados da instrução relações pessoais e inéditas. Era isto a que se referia Paul Valéry quando falava que preferia ser lido sete vezes pelo mesmo homem do que ser lido uma só vez por sete homens. A cultura se aprofunda, ao passo que a instrução não pode mais que estender-se. É por isso que podemos falar de uma cultura profunda e não de uma instrução profunda, mas apenas de uma instrução extensa.

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Publicado na Revista Verbo, de Madri, n. 42-43, p. 169-170.


*GUSTAVE THIBON (02 de setembro de 1903 – 19 de janeiro de 2001), foi autodidata genial, nasceu em Saint-Marcel-d'Ardèche (França) onde foi sempre lavrador. Não foi um homem de diplomas e títulos. Estudou por si só o grego e o latim, os "Diálogos" de Platão e a filosofia de Aristóteles, a "Suma Teológica" de Santo Tomás. Deu-nos páginas luminosas de "Diagnósticos de Fisiologia Social", "O que Deus uniu", "A Escada de Jacob" e outros volumes de aforismos penetrantes, que são como flechas agudas atiradas para todos os lados. Poucos como ele compreenderam tão profundamente o homem e a mulher, o amor humano e o casamento. Thibon foi o testemunho que se ocultou para deixar brilhar a verdade em todo o seu esplendor. (Apresentação feita pela Revista Hora Presente).