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terça-feira, 5 de março de 2019

O ESPÍRITO DA QUARESMA


Gustavo Corção

A Igreja nos desdobra o maravilhoso panorama das várias lições que vitalmente interessam, ou deviam interessar aos seus filhos, e assim reaviva nas várias estações do ano litúrgico certas noções que deveriam ser companheiras de todos os passos de nossa vida. Assim é a Quaresma. Segundo ensina nosso pai São Bento, a vida inteira do monge deveria ser uma quaresma ininterrupta. Como isto é impossível para os fracos, e como a Regra Monástica, à semelhança da Igreja, é moderada para que os fortes possam dar mais, e para que os débeis não desanimem, representamos nesta quadra do ano o mistério da preparação da Paixão redentora do Cristo, e concitamos nossos irmãos e amigos a aproveitarem esta sabatina que reaviva o espírito de quaresma.

Qual é a lição essencial da quaresma, no que nos diz respeito? A Igreja responde com a liturgia das cinzas, e nós podemos desenvolver a idéia: o que nos cumpre aprender nestes dias, mais do que nos outros, é a doce e santa lição de nossa total dependência nas mãos de Deus. Ou como diria Santa Catarina de Sena, na sua linguagem de sangue e fogo: devemos aprender a lição de nosso nada.

Todo o mundo moderno é desatento, brutalmente desatento ao espírito da quaresma. Um humanismo insolente, grosseiro, agora reforçado com as estridências que se ouvem pela porta dos fundos da Igreja, tenta inculcar no homem uma confiança em si que o deixe esquecido de sua condição peregrinal e de sua destinação última. Vivemos dentro de uma espessa idolatria: todos querem exaltar os valores humanos em detrimento ou com esquecimento de sua total dependência de Deus. O nome de Deus é silenciado, é empurrado para a obscuridade, para que a glória do homem refulja.

Entende-se bem que o homem realize neste mundo, do melhor modo possível, sua instalação, ou melhor, sua afirmação de domínio sobre o mundo inferior. É bela a conquista da Ciência que exalta a razão e a específica superioridade do homem sobre todo o Universo visível. É confortador o progresso técnico que nos assegura um decente conforto neste trem expresso onde às vezes esquecemos a brevidade do tempo. É bela a civilização que realmente enaltece os valores humanos em contraste com a mundo inferior; mas tudo isto só se mantém em ordem razoável se ao mesmo tempo nos lembrarmos de exaltar a glória de Deus e nossa completa e total dependência. O inferior deve submeter-se ao superior: é razoável que o homem submeta os átomos, mas é loucura submeter os átomos e esquecer que devemos nós mesmos nos submeter a Deus.

A própria psicologia moderna, impregnada de empirismo, tem horror a certas categorias espirituais que fogem aos seus quadros. Assim é que combate com todo o seu vigor todos os sentimentos de insegurança. Ora, isto é uma monstruosidade a mais que se pratica neste vale de lágrimas. É claro que devemos ser corajosos, que devemos ser audazes, que não devemos ser pusilânimes, mas daí não se deduz que devamos nos sentir seguramente instalados na vida. Este sentimento é perfeitamente estúpido e grosseiramente anti-espiritual. A alma cristã, com todas aquelas qualidades de bravura e de audácia, sabe que sua vida pende de um fio que está nas mãos de Deus; e desta ciência não tira amargura nenhuma, ao contrário, tira a humildade, a ação de graças, e o infinito amor pelo Ser absoluto a que a todos nos sustenta. E em termos mais próximos da paixão de Cristo, o sentimento de fragilidade e contingência se traduz em vínculo de caridade que nos prende à videira santa, à Cruz em que pomos toda a exaltação e toda a glória.

O grande judeu Egon Friedel, em sua História da Cultura, teve a finura de sentir o valor sobre-humano do sentimento de fragilidade e de insegurança do medieval. O meio social ajudava, a ciência médica estava numa fase infantil e até caricata que levava o grande São Bernardo, que obedecia pontualmente às extravagantes prescrições de um esculápio, dizer com mansa tristeza: "Eu, que no Mosteiro tenho o encargo de dirigir e dar ordens a santos, tenho de obedecer a um asno". Toda essa pobreza de meios tinha impedido o surto do humanismo senhor de si mesmo, e o arguto judeu se admirava da espiritualidade que iluminava todo aquele povo medieval. Eles sabiam que a vida era uma grande aventura, e que a dependência de Deus se fazia sentir em todos os atos de coragem e de abandono, ou de resignação e tristeza.

Progredimos muito em veículos, em máquinas, em produção, mas no momento parece que regredimos em relação ao espírito de quaresma. Sirva-nos isto de incitamento e de lição, e procuremos nós viver mais a fundo essa presença de Deus que produz a humildade agradecida e amorosa.




terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

A QUARESMA

Padre Altamira Gomes de Paiva.

Intensos estudos se fazem para resolver os mistérios das forças físicas; profundas meditações, para encontrar a chave dos intrincados problemas da natureza; inteligências e energias humanas se empenham na descoberta dos tesouros escondidos da matéria. Magnífico o resultado de tantos suores! Surpreendentes o progresso no reino da matéria!
E para a alma? É lamentável a negligência! Doloroso de ver o pouco interesse em conhecer as necessidades da pobre alma! Nenhum cuidado para ajudá-la a conseguir o seu fim.
O mundo em tanto apreço, e a alma - abandonada; sobressaltos pela saúde do corpo, e pela da alma - indiferença cruel; para os caprichos e exigências da sociedade, multiplicam-se as solicitudes, e para a vida da alma - apatia quase completa.
A moleza da educação moderna, que pouco a pouco, mas eficazmente enfraquece os corações; ambiente mundo que invade, quase sem obstáculos, o lar doméstico; o desuso dos sacramentos e o hábito de nunca elevar uma prece ao trono de Deus; a participação dos espetáculos e cinemas, de onde não raras vezes, os sentimentos nobres e retos saem gravemente feridos; as leituras repletas de sútil veneno contra a fé e contra a pureza do coração - tudo concorre para completar a ruína da alma. O abalo moral é forte!
A corrente das seduções, impetuosa! O triunfo da carne e das paixões põe o homem fora de seu centro, obrigando-o a correr perdidamente pela estrada do prazer.
Quem o conduzirá ao bom caminho? Quem mostrar-lhe-á os perigos que o ameaçam, indicando-lhe ao mesmo tempo um meio reparador? Será sempre a Santa Igreja. Adotando o remédio inculcado pelo Divino Mestre, estabelece o tempo salutar da Quaresma; testemunha da decadência do espírito cristão, abranda o primitivo rigor, na esperança de conservar e fortificar o tênue fio de vida, que se romperia sob o influxo de uma tensão mais forte.
Uma insignificância o que de nós exige a Igreja, durante a quaresma: penitencia quase nula, privações mínimas, sacrifícios limitadíssimos; e, contudo, encontramos mil pretextos para evitarmos a sua lei, procuramos motivos para criticá-la e condená-la.
Desgostam-nos as pequenas dificuldades encerradas no atual preceito do jejum e abstinência.
As páginas sagradas, tanto do velho como do novo testamento, constantemente nos lembram a necessidade e a eficácia de prática tão salutar, pela qual muitas vezes foram obtidos de Deus favores sem número para os profetas e o perdão e misericórdia para grandes pecadores, como Davi e os ninivitas.
É uma das leis mais claramente estabelecidas na Sagrada Escritura: aqui lembrada qual meio eficaz para aplacar a ira de Deus irritado pelos pecados; mais adiante sugerida para fortificar-nos na conquista do céu; umas vezes proposta como freio de nossas paixões; outras vezes prescrita para o conseguimento de nosso fim.
A Igreja apenas determinou o modo e o tempo de uma lei formulada por Deus, nos livros santos, tão evidente e explicitamente.
Se os corações estivessem menos ofuscados pelo fumo das paixões e vaidades, e as inteligências mais livres das trevas da ignorância e da presunção, ver-se-ia melhor a prudência e sabedoria divinas que dirigem a Santa Igreja nas suas determinações.
Ouçamos humildes a sua voz, e entreguemo-nos generosos às santas práticas a quaresma; concedendo às nossas almas metade da dedicação empregada para o bem-estar do corpo permitamos em favor do negócio de nossas almas parte de tantas penas sofridas inutilmente na aquisição de tantas frivolidades.
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*Artigo publicado no Jornal A Cruz, n.12, de 22 de fevereiro de 1920.