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segunda-feira, 30 de abril de 2018

SOLIDÃO DO HOMEM SEM CRISTO

Murilo Mendes (1901-1975)*

Já temos atrás de nós uma soma enorme de humanidade.
Quanta força perdida! Quantos gestos inúteis! Não podemos acrescentar ou diminuir um centímetro ao nosso corpo. Quase não podemos caminhar nas almas. Diante de nós se estende a amplidão do deserto.
Deus! Deus! O nosso Deus é um Deus escondido. Somente o Crucificado consegue de repente nos fazer crer na existência. Fora do Crucificado só há fantasmas.
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*Publicado na revista "Vida", n. 24, 1936, p. 5.



quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

UMA POESIA DE MURILO MENDES

Murilo Mendes (1901-1975)


" Tu, que instituíste o sacramental da poesia, assegurando a Maria Madalena a eternidade de seu gesto amoroso e romântico.
Tu, que moves os corações das musas e o amor dos amantes e dos esposos.
Tu, que em ti mesmo e por ti mesmo só tens relação com o Pai e com o Espírito Santo, Te constitues relação entre todas as formas e manifestações inumeráveis da vida.
Tu, que sempre exististe e que antes da criação do mundo já tinhas determinado Tua projeção no tempo e Tua morte da qual brotou, por Tua vontade, uma descendência infindável de poetas. Tu, que pela Eucaristia, testamento de poesia, de mistério e amor, distribuiste exemplares de Ti mesmo entre todos os homens até a consumação dos séculos. Ninguém pode ser indiferente a Ti. Todos te são tangentes pelo amor, pelo pressentimento, pela superstição ou pelo ódio.
  Só tua imagem resiste e resistirá ao ridículo, ela que se desdobra e se multiplica nas Igrejas, nos lares, nas fábricas, nos armazéns, nos prostíbulos, nos tribunais, nos peitos dos fiéis, nos livros, nas medalhas, nos jornais, nos teatros, nos quadros, nas esculturas e nos filmes. Assim como Tua imagem esteve escondida três séculos debaixo da terra, ela está hoje patente no alto dos morros e nas asas dos aviões, e sempre o estará nas futuras invenções humanas. Assim como estiveste presente na sociedade primitiva, pois que Adão, os patriarcas, e os sacerdotes são prefigurações de Ti em Tua existência terrena, assim também estiveste presente na sociedade romana, na sociedade bárbara, na sociedade feudal, na sociedade burguesa, e estarás presente na sociedade operária e na que lhe suceder. Meu Deus, eu te peço que tenhas pena dos homens que na próxima grande revolução irão tentar outra vez destruir Tua imagem, lembra-Te que os filhos deles hão de restaurai-a com maior fervor. Peço-Te que sacies a fome do pobre, que anules o tédio do rico e que faças o homem voltar a sua vocação inicial. E Te peço que consumas o mais depressa possível o miserável poeta que tenho sido, para que não fique poema sobre poema, pois estou ansioso para me abrigar a luz eterna da Tua imutável, da Tua definitiva Poesia! "

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Citado por JORGE DE LIMA. A mística e a poesia, Revista “A Ordem”, Setembro de 1935, n. 62, p. 225-226.