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sábado, 3 de novembro de 2018

SINTOMAS DE UMA SOCIEDADE SEM ESPERANÇA


“Ao não promover a esperança sobrenatural, a escola abandona o aluno em dois extremos igualmente lamentáveis: o desespero e a presunção. A delinquência juvenil, o suicídio, são sintomas de uma sociedade sem esperança”.
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Frei Alberto García Vieyra O.P. Política Educativa, Buenos Aires: Librería Huemul, 1967, p. 125.

A ESCOLA COMO LUGAR RESERVADO À CONTEMPLAÇÃO


“Nossa palavra Escola - Sjolé em grego, schola em latim - não significa outra coisa senão ócio, e este, como vimos, não tem a ver com as pausas laborais, com as folgas ou as horas livres entre uma tarefa e outra. É a atitude da alma pela qual a alma vê, eleva-se e reencontra-se com a Ordem Criada. A atitude superior e personalíssima que para além dos afazeres diários nos revela a harmonia da existência, às vezes silenciosa, mas sempre presente onipotência de Deus.
Com efeito, a Escola possui, por natureza, um significado cultual, religioso e até sacro. É por eminencia o lugar reservado à contemplação, ao cuidado da vida interior e à elevação da inteligência. O lugar onde se cultiva e preserva o divino que habita em cada criatura, a imagem e semelhança do Criador. Na Escola é onde o homem se religa com Deus buscando a Sabedoria, e encontra no Mestre o exemplo de um lento e repousado exercício das potencias da alma”.
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Antonio Caponnetto. Pedagogía y Educación: la crisis de la contemplación en la Escuela Moderna, Colección Ensayos Doctrinarios, Buenos Aires: Cruz y Fierro Editores, 1981, pp. 16-17.


quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O PAPEL DA MÃE NO LAR E NA FORMAÇÃO DOS FILHOS


“O futuro de um filho é obra da mãe” (Napoleão)

“Feliz o homem a quem Deus deu uma Santa Mãe!”, disse Lamartine. Apesar dos desvios de sua imaginação, Lamartine conservou sempre a lembrança da educação cristã que lhe deu sua mãe. Como disse Joseph de Maistre: “Se a mãe tomou como um dever imprimir na fronte de seu filho o caráter divino, pode-se estar praticamente seguro de que as garras do vício nunca o apagará inteiramente”.
“Quantas outras mães imprimiram profundamente na alma dos filhos o respeito, o culto, a adoração de Deus, de Quem elas eram para eles, pela pureza de vida, a imagem viva!
Como mãe, a mulher cristã santifica o homem-filho; como filha, ela edifica o homem-pai; como irmã, ela aperfeiçoa o homem-irmão; como esposa ela santifica o homem-esposo”.

A “raiz” da santificação

“Eu quero fazer de meu filho um Santo”, dizia a mãe de Santo Atanásio.
Graças mil vezes, meu Deus, por haver-nos dado por mãe uma Santa”, exclamaram por ocasião da morte de Santa Emília seus dois filhos, São Basílio e São Gregório Nazianzeno.
“Quem nos deu um São Bernardo e o fez tão puro, tão forte, tão abrasado de amor por Deus? Sua mãe, Aleth.
Mais próximo de nós, Napoleão disse: “O futuro de uma criação é obra de sua mãe”.
Pasteur afirmou: “Oh, meu pai e minha mãe, que vivestes tão modestamente, é a vós que eu tudo devo! Teus entusiasmos, minha valorosa mãe, tu me transmitiste. Se eu associei a grandeza da ciência à grandeza da pátria, é porque eu estava impregnado dos sentimentos que me havias inspirado”.
Alguns que o felicitavam por ter o gosto da piedade, o Santo Cura d’Ars disse: “Depois de deus, isto se deve à obra de minha mãe”.
“Quase todos os santos fizeram remontar as origens de sua santidade à sua própria mãe”.

A “raiz” de grandes personalidades

“É sobre os joelhos da mãe – disse Joseph de Maistre – que se forma o que há de mais excelente no mundo”.
“Ela é no lar essa chama resplandecente de que fala o Evangelho, distribuindo sobre todos a luz da Fé e o ardor da caridade divina. A ela incumbe vivificar na família a ideia da soberania de Deus, nosso primeiro princípio e nosso último fim, o amor e o reconhecimento de que devemos ter por sua infinita bondade, o temor de sua justiça, o espirito de religião que nos une a Ele, a lei dos castos costumes, a honestidade nos atos e a sinceridade das palavras, a dedicação e ajuda mútua, o trabalho e a temperança”.

.... e de homens de qualquer condição social

“Na família assalariada – disse Augustin Cochin – a figura dominante é a da mãe. Tudo depende de sua virtude e acaba por modelar-se de acordo com ela. Ao marido compete o trabalho e as provisões do lar, e à mulher os cuidados e a direção interna. O marido recebe, a mulher reserva. O marido alimenta seus filhos, a mulher os educa. O marido é o chefe da família, a mulher é seu elo de união com ela. O marido é a honra do lar, a mulher sua benção”.

Mãe Católica: “raiz” do heroísmo

“O Visconde de Maumigny escreveu: “Devemos a nossas mães e irmãs o fundo de honra e de devota e cavalheiresca dedicação que é a vida de França. Nós lhes devemos a Fé católica. Discípulas da Rainha dos Apóstolos e dos Mártires, as mães fizeram passar seus corações aos corações dos filhos...”.
“Maria Santíssima, o modelo das mães, lhe ensinou como se sacrifica um filho único a Deus e à Igreja. Ao ouvir as narrações dessas emulações sublimes (este texto foi redigido em 1862, quando os Zuavos Pontifícios derramavam seu sangue para defender a Santa Sé), Pio IX comentava: “Não! A França que produziu tais santas não perecerá jamais”!
A primeira vez que a heroica viúva de Pimodan [Georges de Pimodan, 1822-1870] viu o Papa, não lhe disse: “Oh, Santo Padre, devolvas meu marido!”, mas sim: “Oh, dizei que ele está no Céu”! E quando Pio IX respondeu: “Não reo mais por ele”, ela não perguntou nada mais, pois entendeu que era viúva de um mártir, e isto bastava.
“Em Castelfidardo os Zuavos Pontifícios combatiam sob os olhos de suas mães, presentes em seu pensamento e entre as paredes do santuário onde a Rainha dos Mártires engendrou ao Rei dos Mártires. Todos, enquanto marchavam contra o inimigo, repetiam esta frase de um deles: “Minha alma a Deus, meu coração à minha mãe, meu corpo a Loreto”.
À mãe deles, a Maria Santíssima, que a todos inspirava, reverte a honra da batalha. Como outrora os Cruzados, e mais tarde os Vandeanos, foi sobre os joelhos das mães que eles aprenderam a morrer por Deus, pela Igreja e pela Pátria”.
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Mons. Henri DELASSUS (1836-1921). L’Esprit Familial dans la Maison, dans la Cité et dans l’État, Société Saint-Augustin.


terça-feira, 9 de outubro de 2018

O FIM DA EDUCAÇÃO CRISTÃ É A PERFEIÇÃO MORAL


"À luz do realismo integral do Cristianismo, a educação é a formação total da personalidade do educando. A educação é processo vital resultante de fatores externos e internos, de forças naturais e espirituais, da ação consciente do educador e da vontade livre do educando. A educação não se confunde com o simples desenvolvimento ou com a mera adaptação. Não se resume numa preparação utilitária para fins exclusivos ou numa formação de aspectos parciais da personalidade, através do desabrochamento integral das suas virtualidades físicas, intelectuais e morais. A educação cristã procura desenvolver no homem toda a perfectibilidade de que ele é capaz no sentido de prepará-lo para a ordem da natureza e para a ordem da graça, para a vida natural e para a vida sobrenatural. Para isso, é necessário que a formação física do educando se subordine à formação intelectual e está à formação moral. Pois o fim supremo da educação cristã é a perfeição moral simbolizada pela personalidade viva de Jesus Cristo."
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THEOBALDO Miranda Santos. Noções de filosofia da educação, 9ª edição, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1962, p. 56.


sábado, 6 de outubro de 2018

DA NECESSIDADE DE NOVAS ESCOLAS CATÓLICAS


“Não hesiteis, não desanimeis; para defender a alma das crianças, para manter a religião na sociedade, continuai a sustentar escolas, fundando novas, quanto puderdes. Empregai nisso o vosso dinheiro, e, se não tiverdes outro lugar, ou vos faltar liberdade, abri escolas em vossas casas, como nós o fizemos no Vaticano".

São Pio X, citação extraída do Jornal "A Cruz", n.10, de 9 de março de 1913, p. 2.


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

A ADMIRÁVEL PEDAGOGIA DA LITURGIA

Toda a Liturgia bem entendida é admirável Pedagogia.
Desde o ambiente dos templos "admiravelmente educativos na linguagem da liturgia e da arte", até as menores cerimônias do culto, tudo, através dos sentidos, atinge a inteligência, conforta a vontade, move à prática das virtudes individuais e sociais, figuradas e simbolizadas de maneira tão sugestiva no aparato luminoso dos sagrados ritos.
Oxalá fosse mais conhecida a Liturgia Católica, e obedecidas suas sugestões tão plenas de sentido! As torres das igrejas a apontar a finalidade última, e as naves a recordar os perigos da travessia, os altares simbolizando Cristo, o modelo supremo; a pureza das ceras, a brancura dos linhos, o vário dos ornatos, o perfume do incenso, - evocando e estimulando as virtudes cristãs; a união com Jesus e entre os cristãos - lembradas em tantos ritos, máxime na oblação do Sacrifício e no ósculo da paz; a humildade, a obediência, a pureza, o amor de Deus, o esquecimento das coisas da terra, - tudo encontramos compendiado na Liturgia Católica, somado ainda a todos os ensinos dogmáticos, cuja lição nela também aprendemos, com doçura e com proveito.
A Liturgia é a Pedagogia ativa, que ensina com a apresentação intuitiva das verdades de crer e dos princípios de agir. "Se os cristãos se compenetrassem bem do espirito das festas (litúrgicas) não ignorariam nada do que devem saber, porquanto encontrariam nessas festas todos os bons ensinamentos e, ao mesmo tempo, todos os bons exemplos". (1)

1) Bossuet, citado por D. Bauduin, Vida Litúrgica, p. 52. Cfr. FIad, L"éducation par  la liturgie.
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ALVES DE SIQUEIRA, Antonio (Cônego). Filosofia da Educação, Petrópolis: Vozes, 1948, p. 75.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A ESSÊNCIA DA EDUCAÇÃO E O AMOR MATERNAL


“A essência da educação encontra-se no desenvolvimento da pessoa até que esta alcance a personalidade plena. A personalidade, com todo o cortejo de suas virtudes, encontra-se, por sua vez, escondida no espirito da criança. A chave de ouro que abre a porta para sua libertação é precisamente o amor familiar e particularmente o amor maternal, a mais alta participação do amor criador de Deus”.

ANGEL GONZÁLEZ ALVAREZ. Citado por Maria Carmen LLÓRENTE em “El principio de subsidiriedad y la educación”, p. 985.


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A SÃ EDUCAÇÃO


“Procuramos colocar o educando dentro de uma concepção de vida nitidamente patriótica e cristã formando-o no respeito à tradição nacional, a Deus e à família, de que fizemos o centro do desenvolvimento da personalidade humana, cuja dignidade defendemos a todo transe. É preciso evitar as tendências ecléticas, o confucionismo pedagógico, a preocupação de uma erudição livresca e suntuária, para nos dedicarmos a um só ensino – esse que forma o caráter, a personalidade, a vontade e a inteligência dentro do conceito espiritual da vida e das finalidades metafísicas do homem”. 

Nilo Pereira. O seminário pedagógico, Revista A Ordem, 1938, n. 91 p. 51.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

AMOR E AUTORIDADE


O amor, a simpatia, a intuição, e nunca a inteligência, têm sido os caminhos seguros, pelos quais os grandes educadores como Pestalozzi e D. Bosco conseguiram penetrar na alma misteriosa da criança.
É necessário, porém, que essa afeição mutua não seja realizada através de uma familiaridade excessiva. A adesão afetiva dos alunos não deve ser obtida à custa de uma diminuição da autoridade do mestre. Mesmo porque a doçura e a benevolência não excluem a gravidade e a firmeza. A bondade e o afeto se conciliam perfeitamente com o respeito e a autoridade. E sobretudo é preciso não esquecer que o mestre deve ser o exemplo vivo das virtudes que ele deseja despertar em seus alunos. Pois a criana na sua tendência irreprimível de tudo imitar, quase sempre encarna no mestre o seu ideal de personalidade. Daí o cuidado imenso que devemos ter com as atitudes que assumimos diante de nossos alunos. A criança é um ser sensível e vibrátil e um gesto nosso de impaciência ou de irritação poderia sacrificar o amor e a admiração de que somos alvos. E o mestre que cai do seu pedestal, dificilmente reconquista o seu lugar no coração dos alunos.
É indispensável, portanto, que saibamos aliar, em nossas atitudes e em nossos gestos, a afeição ao respeito, a bondade à justiça, a doçura à firmeza, a serenidade à energia, a benevolência à autoridade. Nessa aliança sutil reside todo o segredo da eficácia educativa e disciplinadora.
Em suma, procuremos fazer do amor a grande força motivadora da educação e da disciplina. Mas tenhamos a humildade de reconhecer que só podemos educar na medida em que nos educamos e que, sem que nos disciplinemos a nós mesmos, jamais conseguiremos disciplinar nossos alunos.
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Theobaldo MIRANDA DOS SANTOS. O problema da disciplina na pedagogia moderna. Revista A Ordem, n. 115, maio de 1941, pp. 452-453.



quarta-feira, 11 de abril de 2018

A ESCOLA


Mons. Pedro Anísio.

“(...) a escola tem por principal escopo, não comunicar apenas aos meninos uma determinada soma de conhecimento, tanto de aritmética, tanto de geografia, tanto de história, etc., mas formar o espírito, desenvolver a personalidade, abrir na alma firmes e amplos fundamentos que possam sustentar o caráter e a vida moral do educando. 
A escola, para ser escola, para corresponder à sua finalidade, deve ter valor educativo, deve servir-se do ensino das diferentes disciplinas, dos objetos e circunstâncias que se oferecem ao mestre em suas relações com os alunos para os conduzir à prática do bem, ao cumprimento do dever, de sorte que, no dia de amanhã, possam, com ânimo forte e varonil, fazer face às emergências da vida.
O grande dever do homem é servir a Deus, na vocação própria que a Divina Providência lhe destinou para, assim, alcançar a sua felicidade eterna.
(...) Sob o pretexto especioso de vencer o analfabetismo, multiplicam-se indefinidamente as noções acessórias, deixando-se de lado a educação moral. Nas aulas do Estado ateu não se fala de Deus e da Providência, despreza-se o seu nome, e tem-se como sobrecarga o ensino da religião.
Em lugar de cultivar nos jovens os sentimentos de virtude, de amor de Deus, de piedade filial, de amor da Pátria, de abnegação e sacrifício, a escola neutra transforma-se em seminário de descrença e de dissolução moral.”.
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*A quem pertence a Educação, Revista A Ordem (Nov-Dez), 1933, p. 812-813.




sábado, 17 de março de 2018

PEDAGOGIA DA VIRTUDE


Frente à Pedagogia da mediocridade e do ecletismo, frente à proposta de um self-made man sem outro compromisso senão com a ausência de compromisso, frente à moral autônoma, frente aos pensamentos moveis e à anormalidade homologada como normal, frente a todas as formas de imanentismo, reducionismo e massificação, frente à destruição da vida contemplativa com as maquinas de ensinar e os programas de controle remoto, frente – em suma – à Pedagogia Moderna, é necessário, urgente, impostergável, reconquistar a Pedagogia dos Arquétipos.
Tudo já foi provado; resta provar a Verdade.
Um ensino fundamentado no senhorio sobre si mesmo – que não é outra coisa que a verdadeira liberdade -, na renúncia e na obediência, na concepção da vida como um ato de serviço; um ensino baseado nos mais elevados valores especulativos e nas mais licitas preocupações concretas.
Pedagogia do homem essencial, portador de um destino transcendente; Pedagogia da virtude e do Patriotismo; da Ordem Natural e do realismo; Pedagogia da Cruz e não da foice e do martelo...
A resposta adequada deve partir de uma atitude metafísica. Não basta resolver problemas conjunturais por importantes que pareçam. Mas, ademais -  e isto é decisivo -, esse movimento da alma para o Exemplar que suscitam os Arquétipos, não só incide no próprio aperfeiçoamento pessoal e social mas tem seu desenlace obrigatório, sua coroação, diríamos, no conhecimento e imitação do Arquétipo por antonomásia, a Causa Exemplar, Modelo e Modelador, guia e matriz de tudo o que existe: Deus.
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Antonio CAPONNETTO. Pedagogía y educación: la crisis de la contemplación en la Escuela Moderna. Colección Ensayos Doctrinarios. Buenos Aires: Cruz y Fierro Editores, 1981, pp. 256-257.


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O MONOPÓLIO DA EDUCAÇÃO PELO ESTADO


Pe. Leonardo CASTELLANI (1899-1981)*.

Centralização significa a absorção de toda a atividade dos corpos intermediários e mesmo dos indivíduos pelo Estado. Esta absorção cresce desde a famosa francesada de 1789 até hoje, de modo que é possível dizer que hoje todos os Estados são tiranias. O maior ladrão de qualquer Estado é o Governo. O publicista Bertrand de Jouvenel, em seu denso tratado O Poder, compreende que essa absorção é inevitável no Estado; que o agigantar-se é essencial ao Estado. Deveria ter acrescentado a condicionante: a menos que outro não o impeça. Com efeito, a função natural dos poderes parciais e relativos (Família, Município, Grêmio, Dinheiro, Universidade, Exército) é limitar o poder, em si açambarcador, do Poder Central.
Hoje em dia o Estado faz de tudo, menos, às vezes, o que deveria fazer. De sapateiro a construtor de casas, o Estado se mete em tudo... Você não pode publicar um livro sem ter o Fisco em cima. O Fisco sangra toda a atividade produtiva e inclusive monopoliza a maior parte das atividades produtivas.
Mas onde o Estado se mostra mais zeloso e por isso mesmo mais danoso é no Monopólio do Ensino. O Estado é o mestre de part Dieu – que digo? -, é o Mestre dos Mestres, o Mestríssimo. Direta ou indiretamente é o que transmite a - chamemo-la assim – Educação, diretamente nas escolas ‘publicas’, indiretamente nas escolas mal chamadas ‘privadas’.
Esta aberração de o “Político” se meter a reger ou a fazer o que não lhe corresponde, sem aptidão, nós copiamos da Terceira República francesa e esta copiou de Juliano, o Apostata, com o fim de perseguir a Religião. Napoleão também o fez, mas com fim diverso. É o dogma mais acariciado do futuro Estado socialista e é o credo do Anticristo. Os pais têm o dever e o direito de educar seus filhos; a Igreja tem a missão de ensinar a religião. O Estado é político e não educador, a não ser para subjugar a educação à política, e nesse caso, à infidelidade. “Greve dos trabalhadores da Educação”. Este enunciado grotesco é a criada marota que se tornou como que a divisa do Estado Educador. Está acontecendo aqui o se passou na França, a saber: o Estado Anticlerical fundou a Escola Normal Superior, que devia forjar todos os mestres superiores, e reservou para si o poder de habilitar os mestres comuns. Queria fazer dos educadores os “soldados da República”, como se expressou Jules Ferry, ou seja, aqueles que inocularam nas crianças indefesas o laicismo e o anticlericalismo.
Com efeito, como resultado lógico ocorreu que os mestres se fizeram comunistas, e começaram a dar dor de cabeça à ‘República laica, una e indivisível’, com greve atrás de greve começando por pedir ‘aumentos de salário’...
Quando o dano ou o escândalo se torna intolerável, o Governo cede e aumenta os salários e os trabalhadores da Educação se reintegram ao trabalho de educar, depois de haver dado o mau exemplo de deseducar. ‘Os soldados da República’.
Aqui neste país, o monopólio da educação é responsável pela decadência da educação; e a decadência da educação é responsável, em grande parte, pela decadência da República.
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*Prólogo ao livro Nociones de comunismo para católicos, de Enrique Elizalde, In. Seis Ensayos y Tres Cartas, Buenos Aires: Ediciones Dictio, Buenos Aires, 1973, p. 142-144.


O PAPEL DO ESTADO EM MATÉRIA DE EDUCAÇÃO


Revista A Cruz, 22 de abril de 1928.
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Há um axioma antigo de pedagogia, segundo o qual os doentes devem repetir aos alunos os princípios já ensinados, por que, assim, a força de ouvi-los amiúde, vinguem facilmente gravá-los na memória ou assimilá-los na inteligência.
Também o Mestre Supremo e Infalível da Verdade, uma vez por outra, se utiliza deste recurso de método, como meio de defender e guardar inalterada a ortodoxia da fé. Foi o que aconteceu, agora, na audiência ao Conselho dos Homens Católicos, de Roma, diante dos quais Pio XI acaba de lembrar a existência de dois princípios, desde muito normativos da consciência do mundo cristão.
O primeiro é o de caber aos pais e não ao Estado, o dever de dar educação aos filhos, obrigação esta inerente ao pátrio poder que os chefes de família devem cumprir em harmonia com os interesses da sociedade. O segundo é a competência exclusiva da Igreja no tocante ao ensino religioso, quer ministrado em forma de homilia, quer de modo catequético à infância.
Se quanto à ultima destas afirmações do Soberano Pontífice, ninguém há capaz de fazer reservas bem fundadas, o mesmo não se dá em relação à primeiro, à qual muitos opõem uma tese contrária.
O papel do Estado em matéria de educação é de mera assistência, em que exerce apenas uma função suplementar, por delegação tácita dos pais. Daí a exorbitância dos poderes públicos, ao se arregrarem o direito de dar uma instrução em desacordo com os sentimentos religiosos das famílias; daí a escola leiga, ou melhor, a escola sem Deus, tudo sendo consequência natural, de uma tese que ora se generaliza.
Contra este cerceamento de um direito natural, que os pais não podem abdicar de todo, sem faltar à sua missão social, os premune a Sentinela Vigilante da Igreja de Jesus Cristo.
E era necessário fazê-lo; porque, se os chefes de família católicos, da Alemanha, acabam de fazer diante do Reichstag, uma denodada e edificante reivindicação, ao se tratar, ali, do problema escolar, o indiferentismo de muitos outros vai comprometendo, em outros países, as crenças das futuras gerações.
Infelizmente entre nós, os governos agem sempre discricionariamente quando tratam de um assunto como este, de tanto interesse para a família.
O ensino leigo ou monopolizado pelo Estado é uma das armas mais perigosas manejadas pelos inimigos da nossa fé.
Contra ela, foi que se levantou, agora, a voz de Pio XI, em aviso prudente e sábio ao Conselho dos Homens Católicos, em Roma, voz cuja ressonância Deus queira impressione também os tímpanos dos que nos leem.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A ESCOLA

Com o primeiro filho, constitui-se na família uma nova sociedade - a sociedade parental ou paterna - que não é outra coisa senão a extensão e o complemento natural do matrimônio. Daí a obrigação gravíssima dos pais educarem seus filhos, educação que há de ser física, intelectual e moral, consoante a natureza humana. Esta obrigação importa um direito inalienável dos pais sobre os filhos, direito que não é propriedade, mas consiste na autoridade única e exclusiva de educação. Dessarte, não deve Estado imiscuir-se em coisas de educação, cumprindo-lhe apenas o dever de auxílio ou subsídio às famílias, no que diz respeito à instrução da mocidade. Sejam os pais zelosos das suas prerrogativas naturais, mas convém não esquecerem que, antes de qualquer direito, existe o dever positivo ou natural, donde se origina o mesmo direito. Antes do direito está a lei. E a lei natural impõe sobre os pais uma série de compromissos, que bem se resumem na arte de educar os filhos. Educar um filho é cuidar atentamente dele desde o seu nascimento até a sua maioridade; defendê-lo de qualquer acidente corporal ou espiritual; desenvolver nele o vigor físico, o espírito de iniciativa, o sentimento de responsabilidade; inspirar-lhe amor ao trabalho, afeição à família, dedicação à pátria, estimulá-lo para o bem próprio e comum - baseando todo esse trabalho magnífico no santo temor de Deus, que é o princípio da sabedoria. A educação há de ser cristã, católica aliás, para evitarmos equivocações. Não basta esse cristianismo suspeito, de que fazem praça os hereges protestantes, e que diminui, ou destrói o santo temor de Deus. Nem se devem contentar os pais com a moral bastarda, chamada independente ou leiga, isto é, sem Deus. "Moral sem Deus - dizia Napoleão -, justiça sem tribunais". Formar bons católicos, preparar cidadãos úteis à religião e à pátria é em que devem se ocupar principalmente os pais. E aqui vem a talho a recomendação oportuníssima e necessária que fazemos aos pais para mandarem os seus filhos ao catecismo, máxime se frequentarem as escolas públicas, onde não há o ensino oficial da religião. Não podem descansar os pais, descuidando desta obrigação. A melhor consolação para os pais na hora da morte será o terem cumprido este dever. "Eu morro contente - dizia à família, nos seus últimos momentos, Bussen, político e notável homem de letras - eu morro contente: neste momento solene para mim, minha maior consolação é ter procurado com todas as minhas forças, fazer amar e adorar Jesus Cristo".   
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*Artigo publicado na Revista A Cruz, Ano II, n. 1, Rio de Janeiro, 19 de setembro de 1920.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

CARTA AOS PAIS

Esta carta de ANDRÉ CHARLIER (1895-1971) merece ser lida duas vezes. Uma, por seu conteúdo e oportunidade; Outra, tendo-se em vista a data em que foi escrita, 22 de outubro de 1954, quando Charlier era diretor da escola preparatória de Clères, na Normandia. Embora escrita para pais franceses, estas breves reflexões certamente interessarão ao leitor brasileiro.

Prezados amigos, escrevi há muitos anos "cartas aos pais", e parei de escrevê-las, uma vez que, no final, não via utilidade. Elas não persuadiam senão aqueles que já se encontravam persuadidos. Muitos me escreviam: “Como o sr. tem razão!”, mas não passavam desta aprovação platônica. Ora, tenho muito pouco tempo para escrever coisas inúteis. Se escrevo aos senhores hoje mais uma vez, é porque uma imperiosa necessidade me incita a isto. É preciso, de todo modo, que o homem ao qual os senhores confiaram a educação de seus filhos lhes diga o que pensa da juventude da França que cresce. Sua responsabilidade moral, como a minha, está empenhada e é preciso que aos senhores seja apresentada a realidade. O quadro que apresento é uma visão geral cujos elementos não foram tomados apenas do que pude constatar na escola. Do que tenho a lhes dizer, cada um aproveitará o que quiser ou puder.
O que me espanta mais, é o quanto esta juventude é pouco viril. E por que é assim? Porque, simplesmente, os senhores jamais exigiram nada dela. Os senhores apenas se preocuparam de que fossem felizes e realizaram todos os seus desejos; desde a primeira infância, os satisfizeram de todos os modos possíveis; como poderão querer que tenham a idéia de que, por um lado, a vida é difícil, que as coisas difíceis são as únicas que interessam e que, por outro lado, todas as alegrias se compram e mesmo que custam tanto mais caro quanto mais elevadas são? Tudo sempre lhes foi dado e eles julgam normal que tudo lhes seja dado, estimam mesmo que é seu direito; e como a cultura e a ciência não se comunicam por si mesmas, vêem nisso uma espécie de injustiça. Eles não estão longe de se considerarem vítimas, posto que o Latim e as matemáticas não entregam tão facilmente os seus segredos.
Isto é assim porque, na educação que os senhores lhes deram, eles sempre receberam tudo de graça. Os senhores foram vítimas da demagogia universal e do moderno liberalismo, que considera a autoridade um vestígio de tempos bárbaros. Os senhores repudiaram a autoridade; quiseram agradar seus filhos para serem amados: mas não serão mais amados do que nossos pais o foram e serão, talvez, menos estimados por seus próprios filhos quando estes tiverem idade para julgar. Pois não lhes ensinaram que tudo tem um preço e que as coisas de valor custam caro. Jamais tiveram necessidade de merecer os prazeres que lhes foram dados; jamais aprenderam a fazer coisas contrárias às suas vontades. Ora, não é coisa agradável, em si mesma, por exemplo, estudar as declinações do latim ou do alemão.
Quando eu era pequeno, aprendi a fazer sem discutir o que me era ordenado; prestaram-me, assim, um imenso serviço. Mas, seus filhos, como discutem tudo! Não param nunca de discutir! Nada parece agradável para eles. Julgam tudo à medida de seu prazer imediato. Não se surpreendam que não tenham nem obediência, nem disciplina, nem respeito, nem senso de dever. E mais: os senhores os cumularam a tal ponto, que não querem mais nada, e eu jamais vi coisa mais desoladora do que jovens sem vontade. A ausência de vontade é um estanho bem-estar.
Julgam que sou pessimista? Mas os professores que conheço me dizem precisamente o mesmo. Aliás, nas conversas que tive com os senhores, todos mostraram estar de acordo com o que disse, apenas esqueceram de aplicá-lo nas próprias casas. Os senhores não se dão conta de que se preocupam imensamente com tudo que diga respeito à saúde, alimentação, conforto, férias ― e também com os estudos, pois, no final, há o sacro-santo vestibular ― mas, e quanto à alma dos seus filhos, ela os preocupa? Enquanto aguardo que o respondam perante Deus, pergunto: Que homens os senhores darão à França?
Os senhores sabem, contudo, que a vida não é fácil. Seus encargos profissionais são cada vez mais pesados. Os senhores estão insensíveis para o quanto a França diminuiu-se politicamente no mundo, o quanto ela decepciona seus amigos estrangeiros por não trabalhar o bastante, por não saber governar sua casa, por ter perdido suas forças em discussões estéreis. Acreditam que uma geração sem alma livrará a França de seu mal? Pois estamos prestes a fabricar a geração mais medíocre que a França jamais conheceu, pois nossos filhos não sabem mais impor a si mesmos tarefas desagradáveis. Aliás, eles encontraram uma maneira fácil de escapar delas, que é a dos fracos: eles mentem. Mentem aos senhores, e os senhores não se dão conta. Quanto a mim, gasto um tempo precioso para descobrir suas mentiras. Jamais tive tanta dificuldade para estabelecer, em meu internato, uma atmosfera de lealdade. Não seria assim se os senhores tivessem comunicado o sentimento de que a regra nos ultrapassa e que a devemos respeitar. Mas, como os srs. são franceses — os franceses são anárquicos ― os srs. dão a eles, involuntariamente, o sentimento de que podemos burlar a regra. Para as saídas de domingo, fixei que se deveria voltar às 17 horas — pois a esta hora há, seja um estudo, seja um ofício na capela: mas cada domingo há alunos atrasados. Estabeleci como regra absoluta que os alunos não devem levar dinheiro com eles, mas os srs. lhes dão por trás de minhas costas, o que os instala na mentira e produz conseqüências por vezes muito graves.
Após nos ter confiado seus filhos, os srs. pararam de se preocupar com sua educação. Mas os senhores nos repassam a responsabilidade de fazer o que os srs. mesmos não têm a coragem de fazer. Os srs. abdicaram. Sei bem que, dada a atmosfera moral do mundo moderno, a tarefa dos pais, se a quiserem cumprir escrupulosamente, é uma tarefa quase heróica. Pois bem, é preciso tomá-la como tal, e não fugir dela. Ninguém os substituirá e, apesar de tudo, os senhores responderão por ela. Os srs. sabem o que se passa nas casas de educação, mesmo religiosas? Os educadores estão completamente impotentes: ocupam-se dos melhores e deixam a grande massa dos medíocres com sua mediocridade.
Somos aqui uns poucos que se põem a fazer uma tarefa que, hoje, ninguém mais quer fazer e que ninguém quer ajudar, sob nenhum ponto de vista. Portanto, não nos dê o desgosto de achar que, aquilo que arduamente fazemos de um lado, é freqüentemente desfeito por outro. Jamais foi tão difícil retomar o trabalho como este ano, após as férias, pois estas foram demasiado doces, prazerosas, confortáveis. E sobretudo, quando os srs. vierem aqui, abandonem a idéia de que estes pobres meninos devem ser, a todo preço, confortados do mal de serem internos com quilos de bombons, gordos desjejuns ou sei lá o que. Tento tratá-los como homens, e peço que acreditem: não é fácil. Ser homem não consiste em discutir e colocar tudo perpetuamente em discussão. Consiste em assumir responsabilidades corajosas e generosas em uma ordem que nos ultrapassa. Façam, pois, como eu. Acham que é heróico? Sejam, pois, heróis. Não há outra coisa a fazer.
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André Charlier, sua esposa Alice Charlier e suas filhas Marguerite e Anne-Marie, em Pullay em 1933. 

domingo, 11 de fevereiro de 2018

O MUNDO AUDIOVISUAL: UMA ARMA DE DEFORMAÇÃO

“O principal e inevitável perigo da TV é colocar imagens nas mentes das crianças e não ideias; é parar, pelo poder enganador da imaginação, o trabalho natural da inteligência: a abstração. Esse perigo de perversão da mente e da imaginação é muito mais profundo e muito mais difícil para os pais entenderem do que uma espetacular corrupção do sentido moral, que logo acompanhará o mau uso das imagens. O contato com as imagens, por sua vez, diminui a atenção, amolece a vontade, debilita a memória inchada de representações, impossibilita a retenção das articulações dos mais simples raciocínios”. 
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Luce Quenette. Balayez Astérix, in Itinéraires N. 160., février 19772, p. 17-18.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

CRIANÇAS DE HOJE

Luce Quenette (1904-1977)*

Em toda sociedade civilizada, há um constante apelo à honra, o que naturalmente provoca sentimento de culpa nos que violam suas leis e usos. Alguém dirá que uma tal sociedade engendra a hipocrisia. Pois bem! Quando a virtude e a decência são honradas, o homem perverso não tem outro recurso, se não quiser converter-se, que o de dissimular, fingindo virtude. E finge tão mal, que as pessoas honestas chamam-no hipócrita. Mas, “a hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude”. A decência e a virtude não lhe servem de causa, mas de ocasião. A honra a que elas têm direito e que lhes prestamos é ocasião de inveja, dissimulação, astúcia e furto. Ora, toda lei justa, a começar pelos Dez Mandamentos, é ocasião de pecado para o coração concupiscente. A lei protege o fariseu, evidentemente. Poder-se-ia dizer que a lei é má, como fala São Paulo? Longe disto. Ela é boa. Mas por si mesma, sem a graça de Jesus Cristo, não pode nada. Toda organização da sociedade cristã está aí. É preciso que Ele reine.
A cura de toda hipocrisia e de todo cinismo é o conhecimento da lei em estado de graça.
* * *
Quem vos fala é uma mãe. Ela leva a Péraudière seu filho mais velho, de cinco anos e meio. Com coragem, seu marido e ela percebem o rosto ligeiramente angustiado do pequeno João, que nunca deixara o doce lar:
“Nós o teríamos colocado no Sacré-Coeur, com os jesuítas, bem próximo de nossa casa, mas soubemos que nas turmas da 10a. série, sim, no Sacré-Coeur (!), havia lições de iniciação sexual, e com imagens. Foi uma mãe que nos disse isso. Ela tinha acabado de levar seu filhinho para a entrada do colégio. Disse a ela: “a senhora precisa tirá-lo de lá, não pode deixar que se cometa este atentado.” Ela suspirou: “Que posso fazer? Isso agora é permitido”. Horrorizada, interroguei outros pais na mesma situação e cheguei a esta terrível conclusão: não somente eles o admitiam, mas SE JUSTIFICAVAM, pensando que estavam legitimamente dispensados de dar aos filhos uma iniciação que os embaraçava; eles calavam sua repugnância com o slogan criminoso: você sabe, hoje em dia, é um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde!”
* * *
Eis um pequeno idoso (de um ano de idade) que foi, antes do mais, insuportável e que, de volta das férias, mantinha-se ereto, com um aspeto respeitoso e altivo entre o pai e a mãe. Eu sentia, no entanto, que aquilo era demais. A mãe fez com que o filho fosse dar uma volta e me disse que, durante as férias, a criança fora terrível. “Bom, disse eu, é preciso chamá-lo e dizer tudo na frente dele.” É o que eu faço. Meu filho abaixa a cabeça, confuso, envergonhado, arrependido. A mãe, tímida: “Sabe, filho, não é para te machucar nem te fazer sofrer que dizemos essas coisas.” — “Mas sim, Madame, é para fazer sofrer, para machucar seu coração, que ama a mamãe, para que ele se arrependa e que, nas próximas férias, vocês tenham um filho carinhoso. Ele entende muito bem e sabe que estamos certos.” Dois olhares: Alan eleva os olhos, que oferecem seu acordo e humildade. Por sua vez, o olhar bom da mãe é de espanto e admiração. Quanto ao pai (pois há ainda sua opinião), este se inclina perto da mãe e diz, contente: “Viste, bem que te avisei!”
Que estes amigos encantadores perdoem-me de mostrar, por meio deles, na alma do educador e do filho deles, a passagem de uma correção derrisória, conforme a moda, à nobre beleza da justiça cristã.
* * *
É espantoso o zelo com que as crianças cristãs recebem o apelo doutrinal à conversão. Seu coração, preparado pelo batismo e pela fé de seus pais, instintivamente repugna à justificação conforme o mundo. Claro, uma criança mimada se compraz, em seu egoísmo e sensualidade, de ser “compreendida” e não “repreendida”. Serve-se gulosa e insolentemente das falsas desculpas e explicações que lhes oferecem para seus pecados. Mas isso a enerva, a excita, e não a acalma. Os grandes ingênuos que “compreendem” sua gulodice, sua preguiça, sua tirania, ele os despreza e explora. Mas, se os pais são cristãos, se estão resolvidos a preservar a alma de suas crianças, custe o que custar, ainda que lhes faltem algumas luzes e, por conseguinte, o savoir-faire, nada estará perdido. Nós vemos isso claramente. O pequeno novato entra na Péraudière convencido de que é preciso fugir do mal que o assediou, que respirou e que cometeu nas más escolas; ele sabe que vai aprender a servir a Deus segundo a Tradição e que é por isso que seus pais se separaram dele. A disposição fundamental é justa.
Então, convém, o quanto antes, após alguns dias em que se terá experimentado a afeição e a solicitude, levá-lo à conversão. O que eu disse aqui é fruto da experiência dentro de uma escola, em busca de nosso fim essencial; isso, eu digo para todos os fundadores de escola e para todas as famílias.
Graças a Deus e a pais santos, as crianças já entram na escola convertidos. Mas, para tantos outros, a reeducação da alma, afetada pela terrível psicologia que justifica o mal, deve começar pela conversão. Resumirei isso tudo com a seguinte e surpreendente declaração de uma criança de dez anos, que guardo comigo há muitos anos, como a fórmula mesma da conversão do coração: “Pareceu-me, de repente, disse-me esta criança, que Deus me dizia: Olha para tua vida! Daí, enxerguei todos os meus pecados, quis que eu nunca voltasse a cometê-los e fui para o confessionário.”
Eis o ponto de partida, todo resto é vão: as exortações para se dedicar, para agradar àqueles que o amam etc, etc, tudo é vão, antes.
Olha, meu filho, e vê, à luz das lições do catecismo, da lição sobre o pecado, dos novíssimos, do exame de consciência seguindo os mandamentos, à luz da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Olha, minha criança, olha para tua vida! A criança volta-se para si mesma, se entristece na contrição e examina seus pecados cuidadosamente, com uma seriedade que nos faz repetir para nós mesmos: “Se não fores semelhantes a um desses pequeninos!” E finalmente, com confiança e humildade, se entrega ao Tribunal da Penitência.
Bendito o padre, ministro fiel de Jesus, que recebe com respeito e atenção este retorno do filho pródigo! Digo mesmo “retorno do filho pródigo” porque sei que, mesmo entre pessoas piedosas, que se dizem fiéis e tradicionalistas, ainda reina o instinto estúpido de não levar a sério as faltas de uma criança, de sorrir de sua gravidade, de não dar importância a seu arrependimento pela maneira pueril de a acolher.
Muitos educadores me acusam de dar muita importância a esta reviravolta na alma de uma criança, de levá-la mesmo às raias do escrúpulo e, porque não, de ser jansenista…
Julga-se a árvore pelos seus frutos: a criança convertida sai do Tribunal da Penitência radiante, banhada pela misericórdia, começando uma nova vida; ela corre para diante do Tabernáculo, reza sua penitência com os mesmos sentimentos de Joinville ao partir para a cruzada.
É preciso saber que tudo que se subtrai da gravidade do pecado por meio de um freudismo disfarçado, subtrai-se da misericórdia de Deus e da dignidade livre do animal racional.
Após este banho salutar de penitência, a criança convertida não está ao abrigo das tentações; contudo, a experiência permite dizer que elas são bem menos freqüentes e que “dão menos vontade”. A Santa Virgem esmaga a cabeça da serpente, sobretudo se temos o hábito do recurso filial e contínuo à sua Santa Maternidade, através do terço cotidiano e da invocação repetida.
A criança convertida é mais calma, mais feliz; possui “esta moderação das pessoas felizes” da qual fala La Rochefoucauld. Ficam mais espaçadas as cóleras de criança mimada e sem vida interior, que se revoltava à privação de um prazer ou à perspectiva de um esforço.
A criança convertida é mais inteligente. O nível intelectual das crianças saídas das escolas de hoje é lamentável. Na verdade, as classes atuais não fazem mais pensar. As novas matemáticas ajudariam a preencher este vazio, se a inacreditável preguiça não o impedisse. Ora, a conversão opera o mais profundo movimento das faculdades espirituais. A graça exige da alma no que toca a inteligência, intuição, lucidez, atenção; no que toca a vontade, humildade, resolução, execução, além do sábio governo da sensibilidade.
É possível mensurar de quantos bens naturais e sobrenaturais estão privadas as crianças de hoje, por obra de uma heresia que as submete a vigílias de penitência e à sacrílegas absolvições coletivas, sem confissão de pecados?
* * *
É preciso que os pais católicos estejam convencidos da necessidade sobrenatural da penitência e da conversão; e que, nesta perspectiva (de guardar as crianças na fé de Jesus Cristo, quer dizer, em estado de graça), eles tornem-se severos.
Outro fruto da experiência: as crianças convertidas têm orgulho de ter pais severos. Isso é evidente: a criança contestadora se insurge contra toda proibição, pois despreza a lei e aqueles que a anunciam. A criança cristã honra a autoridade, que a quer em paz com o Céu.
Isso é evidente, comprovado.
Recebi, em meados de setembro, duas cartas de dois irmãos terríveis, briguentos, mas convertidos. Ei-las: “No final destas férias, tornamo-nos insuportáveis de novo. Mas nossos pais agiram bem: brigaram conosco e nos puniram como merecíamos.”
Esta é uma apreciação de espíritos livres e clarividentes, sem sombra de insolência, mas profundamente satisfeitos da ordem justa das coisas.
Mais um fato, dentre os muitos do ano passado: explicávamos, no catecismo, o quarto mandamento; quatro meninos, de seis a oito anos, enxugavam a louça; criam-se a sós; mas, enquanto isso, uma senhorita corrigia seus cadernos numa sala vizinha, cuja porta estava aberta. Estes são os mais velhos, que tem o hábito de lavar a louça em paz e conscienciosamente.
A conversa a sós estava bem animada:
Roberto: tua mãe te dá muita bronca?
Carlos: Ah sim, e me castiga mais que às meninas.
Roberto: Por quê?
Carlos (sem modéstia): Porque as meninas fazem menos besteiras do que os meninos (ele tem três irmãzinhas).
João: E quando tua mãe te castiga, ela te bate?
Carlos: Antes ela me explica, sempre, e depois que eu entendo, ela bate bem forte. Aí, então, tomo juízo.
Roberto: Quem me bate é o papai. Ele pega um couro e bate bem forte. E o teu pai, ele é duro contigo?
Carlos: Menos que a mamãe, porque ele quase sempre está fora. Mas mamãe conta para ele.
João: Meu pai começou a dar bronca há pouco; desde que estou na Péraudière, ele dá muito mais bronca.
O quarto menino não disse nada. E você, que teu pai e tua mãe fazem?
Paulo, (envergonhado e, mesmo assim, tentando se gabar): Mamãe se zanga e meu pai também.
João: Mas eles te castigam?
Paulo: Eles dizem que isso certamente vai acontecer.
João: Então, fala para eles… Explica como se faz.
* * *
Alguém dirá: “Mas você não tem o direito de ‘julgar’ a culpa de ninguém”. Compreendamos: eu certamente não tenho o direito de julgar o seu grau de culpa e de responsabilidade. Não tenho este direito porque não tenho como exercê-lo. Não enxergamos o interior dos corações. Só Deus julga. Mas tenho o dever de julgar a espécie moral do ato. Dever inscrito na economia mesma da Lei: não matarásnão atentarás contra a castidadenão tomarás o bem alheio. Isto evidentemente significa que o homicídio, o adultério e o roubo são crimes e que aquele que os comete é culpado, é pecador.
A Caridade, a verdadeira, está em preveni-los disso; o que significa, em conformidade com a justa e familiar expressão, “fazer com que se sintam culpados”.
O sentimento de culpa, que é uma emoção, tal qual o pudor no inocente, é advertência e prevenção. É a ressonância na sensibilidade dos ditames da consciência; a culpa é a vingança da honra, a vitória da justiça, da justiça de Deus e de uma sociedade que reconhece o valor absoluto do Bem.
Bendita e terrível culpa, colada ao dogma do pecado original: tiveram vergonha e se ocultaram. “E o Senhor Deus chamou por Adão, e disse-lhe: Onde estás?”. O inimigo da Salvação enganou-os mortalmente: “sereis como deuses” A terrível e austera ironia do Todo-Poderoso faz crescer a culpa, torna-a aguda, cortante, até que os humilhe e mortifique: “Eis que Adão se tornou como um de nós!”
A alma envergonhada experimenta a feiura e o ridículo do pecado. Então, ela escuta a promessa de um Redentor.
Açular o vício atacando o sentimento de culpa, não é caridade, mas crueldade satânica.
Face à Onipotência de Deus, à morte, ao inferno, ao amor de Nosso Senhor, à clareza dos seus mandamentos e da Cruz, confesso: sim, isto eu fiz. Em verdade, digo que fui insensato. Eu me levantarei e irei ao meu Pai.
Demonstrar, pela razão e pela fé, a loucura do pecado à criança, após o ter meditado e vivido por si mesmo, é fortalecer seu coração e defendê-lo contra Satã; é despertar, ressuscitar de algum modo a inteligência; é incendiar de amor sua vontade e enchê-la de força para todo o sempre, quaisquer que sejam as quedas possíveis.
Mas, ao contrário, “compreender” o pecado, pretender justificá-lo, é desarmar e desesperar (porque é enganar) a natureza livre resgatada por Jesus Cristo.
“Fatal”, “inevitável”, “renovador”, “enriquecedor”, — o pecado compreendido desta forma escapa à Redenção, e nos conduz ao inferno; o pecado, assim travestido, tornar-se-á inconsolável, inexpiável, irremissível.
* * *
Se compreender o ato pecaminoso é enfatizar as circunstâncias atenuantes, o melhor é recorrer à própria doutrina da Redenção. Aí, a psicologia há de encontrar tudo que é preciso.
O catecismo nos ensina que o pecado do anjo é irremissível, porque o anjo, puro espírito, vê diretamente, sem o véu da carne, a obrigação absoluta do serviço de Deus. Quando este diz: “Non serviam”, sua clarividência é completa, assim como seu consentimento; daí, precipita-se no inferno.
O homem, feito de corpo e alma, vê o Bem e a obrigação do serviço de Deus, mas sob os véus dos seus sentidos, aos quais falam as coisas sensíveis. O fruto proibido não era, para o homem, apenas proibido, mas “bom para comer e formoso aos olhos”. A mulher escuta a serpente e o fruto proibido é, em seguida, apresentado por Eva à Adão, que é fraco e complacente com relação à Eva.
Deus pode condená-lo e precipitá-lo no inferno; mas Ele condescende, porque o homem fora induzido pela fraqueza da carne, prometendo-lhe um Salvador após o seu arrependimento.
Mas o ato do pecado em si, em sua malicia essencial, é absurdo e incompreensível. É o mistério da iniqüidade em cada consciência. Preferir a criatura à Vontade do Criador, o prazer à eternidade da alegria, sublevar-se contra o amor de Nosso Senhor e recusar-Lhe submissão e obediência quando a razão e a fé gritam sua necessidade, isto, em si, no ato mesmo, é algo que não se pode compreender, é algo de incompreensível, e tão errado quando mau.
Daí ser preciso, para a conversão, contemplar, se assim podemos dizer, o absurdo do pecado e, depois de haver compreendido suas tristes circunstâncias (a fraqueza da carne, a cegueira da razão, a tibieza da fé), compreender também que tudo isso não explica a malicia intrínseca deste consentimento interior ao mal.
Neste ponto, o catecismo é esclarecedor. Para que haja pecado mortal, é preciso que haja:
1) matéria grave;
2) plena consciência;
3) pleno consentimento.
Isto é demonstrar o absurdo do pecado, em sua própria natureza; ora, um dos motivos mais eficazes de conversão, e que assegura a sua solidez, é a consideração do absurdo do pecado.
* * *
Muitas mães se preocupam com o catecismo. Querem encontrar catequistas, mas não pensam em ensinar o catecismo elas mesmas. Ficamos estarrecidos de ver tantas mães em tal situação. A mãe, a irmã ou o irmão mais velho e, porque não, o pai, os avós devem ser ou tornar-se capazes, o mais rápido possível, de ensinar em casa a doutrina cristã que receberam.
É preciso estudar. É um dever estrito, uma obrigação pela qual prestaremos contas no Tribunal de Deus.
Fiquei surpresa, no retorno às aulas, ao constatar que alguns destes pequeninos (6, 7 anos de idades) não sabiam o pelo-sinal, que os meninos maiores ignoravam o Pai Nosso e a Ave Maria em latim, ou responder o Angelus em latim.
Como é fácil remediar isso tudo!
Pacientemente repetimos que é preciso trabalhar o catecismo de São Pio X todo dia, o qual deve ser procurado, além do Catecismo do Padre Emmanuel (Catecismo da Família Cristã), sobre o qual Jean Madiran escreveu: “Se tiverem outros catecismos, este não será redundante. Se preferirem ter apenas um livro de catecismo, é este que recomendamos. É útil para a família inteira, em família; serve aos grandes e aos pequenos, aos pais e aos filhos.”
Mãos à obra! todo dia! A Santa Virgem abençoará esta meia hora arrancada, na busca do Céu, das ocupações da terra. As graças atuais serão dadas à professora materna, junto com os frutos da luz e da paz no coração dos pequenos.
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*Luce Quenette dedicou toda a sua vida à educação cristã de crianças e jovens. Nasceu em 1904 em Saint-Etienne em uma família com fé forte e profunda. Após profundos estudos na faculdade católica de Lyon em 1928, ela se entregou com dedicação incansável à educação católica gratuita até sua morte em 1977.
Duas escolas são hoje testemunhas de sua ação: a escola Péraudière em Montrottier, no Ródano, e a escola Sainte-Anne de Providence, na Sabóia.
Luce Quenette escreveu extensivamente sobre temas de educação e religião, quer para a revista Itinéraires, quer para a revista de comunicação com pais de alunos, a Carta da Péraudière.