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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

VELHA CHÁCARA


 MANUEL BANDEIRA
Especial para "A Ordem"*

A casa era por aqui...

Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinqüenta anos)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...

— Mas o menino ainda existe. 


 Rio, 13.04.1944

*****
*Publicado na revista A Ordem, n. 8, de agosto de 1944.



sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

DEPOIS DE MORTO....

“Depois de morto,
primeiro quererei beijar meus pais, meus irmãos, meus
[avós, meus tios, meus primos.
Depois irei abraçar longamente uns amigos –
Vasconcelos, Ovale, Mário...
Gostaria ainda de me avistar com o Santo Francisco de Assis.
Mas quem sou eu? Não mereço.
E então me abismarei na contemplação de Deus e de sua glória.
Esquecido para sempre de todas as delicias, dores, perplexidades
desta outra vida de aquém-túmulo”.
*****
Manuel BANDEIRA. Andorinha, Andorinha. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966, p. 320-321.



sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

VERSOS DE NATAL

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta. 

*****

Manuel BANDEIRA. In Lira dos cinquent’anos, 1940.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

CANTO DE NATAL

O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.

Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.

*****
Manuel BANDEIRA (1886-1968). In Belo belo, 1948.