sábado, 9 de março de 2019

O OXIGÊNIO DA ALMA...


Por Pierre l'Ermite*

Vi um campo... Fora outrora meticulosamente trabalhado. A boa semente fora semeada, tratada, vigiada. Normalmente a colheita deveria ser soberba. Mas o cultivador possuía inimigos encarniçados. Esses inimigos tinham direito de entrar no campo, de espezinhá-lo e de nele lançar, dia e noite, a mancheias, as mais abomináveis sementes. Chamava-se a isso a liberdade de imprensa.
Vi uma família... O pai e a mãe existiam, sem existirem. Os chefes da família eram nomeados pelos filhos por maioria de votos. Cada qual tinha um voto, o mesmo... os pequenos como os grandes, os inteligentes como os imbecis... Os filhos olhavam ironicamente os que em tom austero lhes recomendavam o trabalho, a ordem, a economia.
Mas, naturalmente faziam festas aos que mais lhes prometiam férias, doces...e a lua.
Assim, quando votavam, os prudentes eram relegados pelos espertalhões, pelos preguiçosos e pelos tolos. E a isso chamava-se o sufrágio universal.
O abismo chama outro abismo.
Até agora somente os homens votavam.
Amanhã as mulheres, deixadas até então na calma do lar, iriam, também elas, votar.
A fatalidade das premissas, postas outrora pela revolução, devia dar nisso.
Depois dos direitos do homem, os direitos da mulher. Era rigorosamente lógico.
Sem contar que - nem sempre, mas algumas vezes, a mulher é bem melhor que o homem.
Então minada já pelo divórcio, atacada pela recrudescência de egoísmo do tempo moderno, vai a família ser dividida por um fator a mais.
E que fator! A política.
Em certos casos, toda a família votará no mesmo candidato.
Muitas vezes, porém, o pai terá o seu favorito, o filho, um outro; a mãe, o seu; a filha também o seu...
Imaginai o jantar da família depois das eleições. Felizes os que possuírem louça de alumínio!
Devemos desencorajar-nos? Não... Nunca nos devemos desencorajar. Desencorajar-nos, quando somos arautos de uma boa causa, é duvidarmos de Deus, que quando quiser, reduzirá a nada todos os maçons do mundo.
Dum spiro spero. A esperança, é o oxigênio da alma. E, depois, folheando a história de meu pais, confesso preferir viver em minha época a ter vivido no dia seguinte ao de Azincourt, ao de Poitier, ao de Créoy e a muitas outras datas.
E principalmente, razão mais forte: não posso escolher.
Deus fez-me nascer na época presente.
Não me exigirá contas senão do meu tempo.  Mas desse, exigir-me-á, de certo, contas.
Vamos, pois, a ele. Vamos desde logo com os meios de sempre. Com a oração, o preparo profundo do catecismo, a vida paroquial intensa, as escolas, o recrutamento sério das vocações. Essa é a base de todo trabalho para a conquista das almas.
Deprimir essa base por necessidade de modernismo, é edificar sem alicerces e pretender que uma árvore possa viver sem raízes. Completai, entretanto, o efeito dessas armas de sempre pelos meios atuais. Nossos inimigos tanto nos dão o exemplo!
Com efeito, o exército é sempre o exército, com a infantaria, a cavalaria, a engenharia, a artilharia. Seria, porém, o exército moderno sem aviões, hidroplanos, dirigíveis, gazes, etc?
A paróquia é sempre a paróquia. Seria, porém a paróquia moderna, se se imitasse a esperar tranquilamente os fiéis aos pés das cadeiras da pequena Igreja? Seria uma paróquia moderna se não tivesse a sua “União” para homens, sua “Liga” para senhoras, sua obra de imprensa, sua biblioteca, um salão paroquial, um cinema, colônias de férias...
Toda paróquia, por menos importante, deve tender para a totalidade desses armamentos.
E se todos esses meios forem postos em obras com fé, método, perseverança, então, e então somente, nos tornaremos interessantes aos olhos desse Deus, de que os tímidos tanto desgostam, a ponto de preferir a ele, os próprios maus...
À obra, pois! Não espereis para empreender, não há necessidade de ser bem-sucedido para perseverar. Deus não nos pede senão o esforço. Ele pesa o menor dos nossos gestos de apostolado.
A vitória, isso é só com ele.
Se tendes fé, a grande fé dos grandes apóstolos, então arrancar-lhe-eis o milagre necessário...
Essa fé, tende-a, dura, obstinada mesmo, se o milagre custar..., mesmo que não seja concedido.
É diante da recusa de Deus que é belo exclamar. Creio em Ti, de qualquer modo! Em tua bondade, em tua proteção por uma pátria que não podes deixar de amar, porque é como o coração do mundo.
***
*Revista A Cruz, n. 34, Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1925.



PUREZA INTERIOR


A pureza de alma das crianças deve ser cuidada pela mãe com especialíssima dedicação, porque a pureza e a delicadeza interior são pressupostos do verdadeiro carácter. A pureza da alma infantil é como o cristal e basta um só hálito para a embaciar. A mãe nunca pensa que o filho é ainda muito novo e que ainda não compreende. Por isso põe especial atenção nos jogos das crianças, e procura evitar os excitantes da sensibilidade do filho e tudo quanto possa fazê-lo mole e sonhador. Certas bebidas ou comidas, a solidão, o excessivo comodismo nas posições, etc., são prejudiciais. Na mesma ordem de ideias, é preciso pôr em relevo, com insistência, esse fato do problema habitacional, que obriga a deitar as crianças na mesma cama. Deve ser evitado sempre que for possível.
Os pedagogos constataram o facto de que sessenta por cento das crianças atravessaram, dos três para os seis anos de idade, uma grave crise moral. Pode acontecer que nesses anos da infância estejam a faltar, à sua maneira, contra o sexto mandamento sem que os pais tenham a menor suspeita. O abraçar e beijar demasiado as crianças nem sempre é conveniente e um bocado de aspereza não faz mal nenhum. Oxalá todas as mães tenham o dom de educar os seus filhos na mais rigorosa moralidade e na mais delicada pureza!

Cardeal MINDSZENTY. A Mãe, 2ª ed., Lisboa: Aster, pp.208-209.


terça-feira, 5 de março de 2019

O ESPÍRITO DA QUARESMA


Gustavo Corção

A Igreja nos desdobra o maravilhoso panorama das várias lições que vitalmente interessam, ou deviam interessar aos seus filhos, e assim reaviva nas várias estações do ano litúrgico certas noções que deveriam ser companheiras de todos os passos de nossa vida. Assim é a Quaresma. Segundo ensina nosso pai São Bento, a vida inteira do monge deveria ser uma quaresma ininterrupta. Como isto é impossível para os fracos, e como a Regra Monástica, à semelhança da Igreja, é moderada para que os fortes possam dar mais, e para que os débeis não desanimem, representamos nesta quadra do ano o mistério da preparação da Paixão redentora do Cristo, e concitamos nossos irmãos e amigos a aproveitarem esta sabatina que reaviva o espírito de quaresma.

Qual é a lição essencial da quaresma, no que nos diz respeito? A Igreja responde com a liturgia das cinzas, e nós podemos desenvolver a idéia: o que nos cumpre aprender nestes dias, mais do que nos outros, é a doce e santa lição de nossa total dependência nas mãos de Deus. Ou como diria Santa Catarina de Sena, na sua linguagem de sangue e fogo: devemos aprender a lição de nosso nada.

Todo o mundo moderno é desatento, brutalmente desatento ao espírito da quaresma. Um humanismo insolente, grosseiro, agora reforçado com as estridências que se ouvem pela porta dos fundos da Igreja, tenta inculcar no homem uma confiança em si que o deixe esquecido de sua condição peregrinal e de sua destinação última. Vivemos dentro de uma espessa idolatria: todos querem exaltar os valores humanos em detrimento ou com esquecimento de sua total dependência de Deus. O nome de Deus é silenciado, é empurrado para a obscuridade, para que a glória do homem refulja.

Entende-se bem que o homem realize neste mundo, do melhor modo possível, sua instalação, ou melhor, sua afirmação de domínio sobre o mundo inferior. É bela a conquista da Ciência que exalta a razão e a específica superioridade do homem sobre todo o Universo visível. É confortador o progresso técnico que nos assegura um decente conforto neste trem expresso onde às vezes esquecemos a brevidade do tempo. É bela a civilização que realmente enaltece os valores humanos em contraste com a mundo inferior; mas tudo isto só se mantém em ordem razoável se ao mesmo tempo nos lembrarmos de exaltar a glória de Deus e nossa completa e total dependência. O inferior deve submeter-se ao superior: é razoável que o homem submeta os átomos, mas é loucura submeter os átomos e esquecer que devemos nós mesmos nos submeter a Deus.

A própria psicologia moderna, impregnada de empirismo, tem horror a certas categorias espirituais que fogem aos seus quadros. Assim é que combate com todo o seu vigor todos os sentimentos de insegurança. Ora, isto é uma monstruosidade a mais que se pratica neste vale de lágrimas. É claro que devemos ser corajosos, que devemos ser audazes, que não devemos ser pusilânimes, mas daí não se deduz que devamos nos sentir seguramente instalados na vida. Este sentimento é perfeitamente estúpido e grosseiramente anti-espiritual. A alma cristã, com todas aquelas qualidades de bravura e de audácia, sabe que sua vida pende de um fio que está nas mãos de Deus; e desta ciência não tira amargura nenhuma, ao contrário, tira a humildade, a ação de graças, e o infinito amor pelo Ser absoluto a que a todos nos sustenta. E em termos mais próximos da paixão de Cristo, o sentimento de fragilidade e contingência se traduz em vínculo de caridade que nos prende à videira santa, à Cruz em que pomos toda a exaltação e toda a glória.

O grande judeu Egon Friedel, em sua História da Cultura, teve a finura de sentir o valor sobre-humano do sentimento de fragilidade e de insegurança do medieval. O meio social ajudava, a ciência médica estava numa fase infantil e até caricata que levava o grande São Bernardo, que obedecia pontualmente às extravagantes prescrições de um esculápio, dizer com mansa tristeza: "Eu, que no Mosteiro tenho o encargo de dirigir e dar ordens a santos, tenho de obedecer a um asno". Toda essa pobreza de meios tinha impedido o surto do humanismo senhor de si mesmo, e o arguto judeu se admirava da espiritualidade que iluminava todo aquele povo medieval. Eles sabiam que a vida era uma grande aventura, e que a dependência de Deus se fazia sentir em todos os atos de coragem e de abandono, ou de resignação e tristeza.

Progredimos muito em veículos, em máquinas, em produção, mas no momento parece que regredimos em relação ao espírito de quaresma. Sirva-nos isto de incitamento e de lição, e procuremos nós viver mais a fundo essa presença de Deus que produz a humildade agradecida e amorosa.




domingo, 13 de janeiro de 2019

RETRATO, NA VOZ DE JOÃO VILLARET


Ele era da raça dos que suportam
Todo o peso da vida,
Era da dos que não se queixam
Dos que sorriem diante do destino adverso.

Viveu em silêncio grandes horas amargas
E ninguém conheceu as devastações,
O efeito dos golpes que lhe foram vibrados.

As sua ruínas, os seus deuses mutilados,
Os túmulos que estavam nele
Ninguém desvendou,
Tudo ficou escondido,
Tudo ficou defendido
Pela sua máscara tranquila.

No entanto ninguém amou
Mais profundamente do que ele amou,
E ninguém terá recolhido maior melancolia
E maior incompreensão
Do amor.
Ninguém desejou mais a companhia dos seus semelhantes,
Ninguém teve mais necessidade do calor amigo,
Do apoio, do aplauso, da solidariedade humana.
No entanto - sua vida se consumiu na solidão, no desamparo e na indiferença.

A amargura não fermentou sua alma,
O ressentimento não dominou jamais sua visão simples das coisas,
Ele era da raça dos heróis obscuros.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

DEUS PRECISA DOS SANTOS, E ESPECIALMENTE DE MARIA


"Podemos dizer que Deus precisa dos santos, e especialmente de Maria, porque nessas criaturas temos uma espécie de misericórdia que não podemos ter no próprio Deus: uma misericórdia que, além de vir do amor, vem da própria miséria. Por puríssima que seja, Maria é criatura, e como tal é miserável. E é por isto – ouso dizer – que Deus precisa de Maria e dos santos para o exercício de sua misericórdia e para o contato salvador com nossa miséria.
Todos nós sabemos que Deus e o pecado são incompatíveis; mas também sabemos que as mais belas tradições de nossa história revelam um como que privilégio dos pecadores, ou uma inconcebível espécie de atração de Deus por nossa miséria. Quase diríamos que a marca do cristianismo é a de uma atrevida predileção pelo pecador. Como pode ser isto? Os evangelhos contam o amor de Jesus por Madalena, e nos apresentam a parábola do publicano. Jesus veio salvar “o que estava perdido”. Sua Igreja é uma casa-de-saúde. Seus prediletos são os pecadores, ou ao menos os que se reconhecem como tais. Na cruz, o primeiro santo canonizado é o bom ladrão. E daí por diante abundam as histórias em que os grandes pecadores interessam instantaneamente às almas de eleição. Santa Catarina correu a visitar o jovem Tuldo em seu cárcere, e recebeu sua cabeça decepada e seu sangue, gritando: “Io voglio!” Santa Teresinha do Menino Jesus teve seu primeiro protegido num assassino que mereceu pena de morte: por intercessão de suas fervorosas orações o pobre monstro humano, a dois passos do cadafalso, voltou-se bruscamente e beijou com lágrimas a cruz que um padre lhe oferecia.
Em todas essas histórias tem especial relevo a intercessão de Maria, refúgio dos pecadores".

Gustavo Corção. A Igreja do céu, Revista Permanência.


quarta-feira, 7 de novembro de 2018

A FAMÍLIA COMO LAÇO DE AFETO


“A família é o laço de afeto que dá à sociedade em que vivemos o caráter de pátria, e quando essa ideia se agita em nossa mente e em nosso coração, é que nele se agitam, dando consistência e substantividade ao conceito, as noções e as lembranças do lar, e as reminiscências da infância envoltos nas carinhosas repreensões do pai e os jogos alegres dos irmãos e as lagrimas e abraços da mãe”.
*****
Pe. LUIS CHALBAULD (S.J). La familia como forma típica y transcendental de la constitución social vasca, p. 45.


sábado, 3 de novembro de 2018

SINTOMAS DE UMA SOCIEDADE SEM ESPERANÇA


“Ao não promover a esperança sobrenatural, a escola abandona o aluno em dois extremos igualmente lamentáveis: o desespero e a presunção. A delinquência juvenil, o suicídio, são sintomas de uma sociedade sem esperança”.
*****
Frei Alberto García Vieyra O.P. Política Educativa, Buenos Aires: Librería Huemul, 1967, p. 125.

A ESCOLA COMO LUGAR RESERVADO À CONTEMPLAÇÃO


“Nossa palavra Escola - Sjolé em grego, schola em latim - não significa outra coisa senão ócio, e este, como vimos, não tem a ver com as pausas laborais, com as folgas ou as horas livres entre uma tarefa e outra. É a atitude da alma pela qual a alma vê, eleva-se e reencontra-se com a Ordem Criada. A atitude superior e personalíssima que para além dos afazeres diários nos revela a harmonia da existência, às vezes silenciosa, mas sempre presente onipotência de Deus.
Com efeito, a Escola possui, por natureza, um significado cultual, religioso e até sacro. É por eminencia o lugar reservado à contemplação, ao cuidado da vida interior e à elevação da inteligência. O lugar onde se cultiva e preserva o divino que habita em cada criatura, a imagem e semelhança do Criador. Na Escola é onde o homem se religa com Deus buscando a Sabedoria, e encontra no Mestre o exemplo de um lento e repousado exercício das potencias da alma”.
*****
Antonio Caponnetto. Pedagogía y Educación: la crisis de la contemplación en la Escuela Moderna, Colección Ensayos Doctrinarios, Buenos Aires: Cruz y Fierro Editores, 1981, pp. 16-17.


A ORAÇÃO


O mais importante é a oração: eis que chega o tempo de orar e de agradecer.
Certa mãe que pressentiu a chegada de um novo ser disse-me que deveria rezar por ele, para que todos os latejos do seu coração pertencessem ao filho. Fiquei surpreendido e a pensar nas razões por que toda a mãe deve rezar pelo bem do seu filho nesta vida e no reino da graça. Talvez porque todo o universo esteja compreendido na oração da mãe que reza.
Donna Música, depois da batalha de Monte Branco que o marido venceu, ajoelhou-se na igreja de São Nicolau, pensando no filho que trazia no seio e rezou:
“Ó meu Deus, que bem se está neste lugar e que
alegria estar aqui convosco! Em parte nenhuma se
poderia estar melhor.
“Não é preciso dizer nada. Basta trazer-vos o meu
rude ser e ficar em silêncio aos vossos pés.
“O segredo que se oculta no meu coração, só Vós
o conheceis. Só Vós compreendeis o que é dar a vida.
Só Vós partilhais comigo deste segredo da minha
maternidade:
“Uma alma que faz outra, um corpo que alimenta
outro corpo, em si mesmo, da sua substância.
“O meu filho está em mim e ambos estamos unidos
a Vós.
“E juntos rezamos por este pobre povo desorientado,
ferido e despedaçado que· me rodeia para que se
deixe curar e compreenda os conselhos do inverno, da
neve e da noite.
“Coisas que noutros tempos eu não teria compreendido,
antes de ter em mim este filho, quando a
minha alegria estava fora de mim”.
Que a cólera, o medo, a dor e a vingança,
abram caminho às mãos carinhosas da neve e da
[noite.
(Paul Claudel)
*****
Cardeal MINDSZENTY. A Mãe, 2ª ed., Lisboa: Aster, pp. 95-96.


O VALOR DO SILÊNCIO


Um grave autor, escrevendo um livro sobre o martírio diz que o casamento é um, pelas mil consumições que consigo acarreta, antes, diz ele, tenho por certo, de muitos mártires que veneramos sobre os altares terem sofrido muito menos, do que sofrem muitos casados e casadas. Terão tribulações, diz São Paulo, terão tribulações. Quando aquele felicíssimo e castíssimo consórcio de Maria e de José as teve, e tamanhas, como foram cruéis suspeitas e desconfianças, pensamentos de divórcio, mágoa da perda do menino Jesus, e tantas outras, quanto mais agora o casamento dos pecadores?
Portanto, quem se casa abrace-se logo, com a sua cruz, e quando vier qualquer sofrimento, vá dizendo: Eu já sabia. Para isto é que me casei. E fique em sossego, paciente, resignado, possuindo sua alma na paz.
Portanto, quem se casa abrace-se logo, com a sua cruz, e quando vier qualquer sofrimento, vá dizendo: Eu já sabia. Para isto é que me casei. E fique em sossego, paciente, resignado, possuindo sua alma na paz.
Evitem-se com todo o cuidado entre casados altercações vergonhosas, polémicas ásperas, palavras descorteses ou de desprezo; antes tratem-se sempre com suma atenção, respeito, polidez e carinho. Que todo azedume, cólera, indignação, rixa, maledicência, e toda malícia seja banida dentre vós, diz S. Paulo; e ainda: Seja toda palavra boa, útil, edificante, própria a dar a graça aos que a escutam. (Efésios IV, 31, 29.1)
Antes quebrar por si e ter a paz, do que sustentar vãos caprichos, que metem a desordem na família. O segredo de manterem-se os casados em santa concórdia e constante harmonia é suportarem um ao outro os seus defeitos, não apurando agravos, antes relevando muita cousa e, calando, quando a prudência manda calar.
A ira é, muitas vezes uma faísca; mas diz o sábio: Se soprais a faísca, sairá dela um fogo ardente; se cuspis em cima, se apagará; e a boca é que faz uma e outra cousa; (Ecl. XXXVIII, 14) assim a língua acende ou abafa as contendas. Se não lhes pondes cobro, a faísca torna-se logo brasa, a brasa labareda, a labareda incêndio. As palavras vão se precipitando, como levadas de engenho em se lhe abrindo a corrediça. Guardar, pois, silêncio é o melhor alvitre.
Os que acharam este segredo vivem contentes e em paz no seu estado. Referem os autores, a este propósito, o caso gracioso de uma coitada, que se foi queixar mui magoada ao seu Padre espiritual dos desabrimentos do marido. "Logo que me entra em casa, disse, é uma tormenta desfeita de impropérios e de injúrias; renovam-se todos os dias estas cenas violentas, com grandes clamores, que atordoam e escandalizam a vizinhança.
Ando consumida, já me é insuportável a vida; dizei-me, Padre, o que devo fazer em tão angustiosa situação?"
O Padre, depois de ouvi-la com toda paciência, foi buscar um frasco de água e lho entregou dizendo: "Esta água fará o milagre. Todas as vezes que teu marido entrar colérico, e começar a maltratar-te de palavras, toma um pouco desta água na boca, e aí a conservarás até que ele se tenha calado. Verás que a água que te dou tem singular virtude".
Fez a mulher exatamente como lhe dissera o Padre, e observou que depois que tomou a água na boca, a ira do marido como que se amainou mais depressa. No dia seguinte, mesmo proceder, mesmo resultado. As cóleras do marido foram-se tornando cada vez menos duradouras e menos frequentes, até que enfim cessaram de todo, e reinou a paz no pobre casal.
Foi a mulher ao Padre, toda jubilosa, agradecer o portentoso efeito daquela água.
"A água, mulher, só teve uma virtude, e não pequena", respondeu o Padre: "foi a de fazer-te calar; pois em quanto a tinhas na boca, não podias proferir palavra. A este silêncio, e só a ele, deves o benefício da paz e concórdia que logras com teu marido. "
Se quando um se agastasse, o outro se calasse, nunca haveria dissenções nas famílias.
 *****
D. Antônio de Macedo Costa (1830-1891). O Livro da família: ou explicação dos deveres domésticos segundo as normas da razão e do Cristianismo. 3ª ed., São Paulo: Paulinas, 1945, pp. 85-86.


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A FAMÍLIA FECUNDA: UM PEQUENO MUNDO


A experiência demonstra que habitualmente a vitalidade e a unidade de uma família estão em relação natural com a sua fecundidade. Quando a prole é numerosa, ela vê o pai e a mãe como dirigentes de uma coletividade humana ponderável pelo número dos que a compõem como – normalmente – pelos apreciáveis valores religiosos, morais, culturais e materiais inerentes à célula familiar. O que nimba de prestígio a autoridade paterna e materna. E, sendo os pais de algum modo um bem comum de todos os filhos, é normal que nenhum destes pretenda absorver todas as atenções e todo o afeto dos pais, instrumentalizando-os para o seu mero bem individual. O ciúme entre irmãos encontra terreno pouco propício nas famílias numerosas. O que, pelo contrário, facilmente pode surgir nas famílias com poucos filhos. Também nestas últimas se estabelece não raras vezes uma tensão pais-filhos, em resultado da qual um dos dois lados tende a vencer o outro e a tiranizá-lo. Os pais por exemplo podem abusar da autoridade, subtraindo-se ao convívio do lar para utilizar todo o tempo disponível nas distrações da vida mundana, deixando os filhos relegados aos cuidados mercenários de baby-sitters ou dispersos no caos de tantos internatos turbulentos e vazios de legítima sensibilidade afetiva.
E podem tiranizá-los também – é impossível não mencionar – por meio das diversas formas de violência familiar, tão cruéis e tão frequentes na nossa sociedade descristianizada. Na medida em que a família é mais numerosa, vai-se tornando mais difícil o estabelecimento de qualquer dessas tiranias domésticas. Os filhos percebem melhor quanto pesam aos pais, tendem a ser-lhes por isso gratos, e a ajudá-los com reverência – quando chegado o momento – na condução dos assuntos familiares.
Por sua vez, o número considerável de filhos dá ao ambiente doméstico uma animação, uma jovialidade efervescente, uma originalidade incessantemente criativa no tocante aos modos de ser, de agir, de sentir e de analisar a realidade quotidiana de dentro e de fora de casa, que tornam o convívio familiar uma escola de sabedoria e de experiência, toda feita da tradição comunicada solicitamente pelos pais, e da prudente e gradual renovação acrescentada respeitosa e cautamente a esta tradição pelos filhos. A família constitui-se assim num pequeno mundo, ao mesmo tempo aberto e fechado à influência do mundo externo. A coesão desse pequeno mundo resulta de todos os factores acima mencionados, e esteia-se principalmente na formação religiosa e moral dada pelos pais em consonância com o pároco, como também na convergência harmônica das várias hereditariedades físicas e morais que, através dos pais, tenham concorrido para modelar as personalidades dos filhos.
(....)
Esse pequeno mundo diferencia-se de outros pequenos mundos congêneres, isto é, das outras famílias, por notas características que lembram em modelo pequeno as diferenciações entre as regiões de um mesmo País, ou os diversos países de uma mesma área de civilização. A família assim constituída tem habitualmente como que um temperamento comum, apetências, tendências e aversões comuns, modos comuns de conviver, de repousar, de trabalhar, de resolver problemas, de enfrentar adversidades e de tirar proveito de circunstâncias favoráveis. Em todos estes campos, as famílias numerosas possuem máximas de pensamento e de procedimento corroboradas pelo exemplo do que fizeram os seus antepassados, não raras vezes mitificados pelas saudades e pelo recuo do tempo.
*****
Plínio Corrêa de Oliveira. Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana, pp. 94-95.