quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

À VIRGEM DA PENNA

Jonathas Serrano (1888-1944)

Tu, que o Verbo trouxeste no teu seio,
E a tua carne humana à obra divina
Ofertaste, ó Beleza Peregrina,
Eva de quem o Novo Adão proveio:

Virgem da Penna, vê com que receio
Se atreve a humana pena, por mais fina
E rara, a celebrar-te a matutina
Graça, da qual o Sol do Amor nos veio.

Mãe do Divino Verbo, ao verbo humano
Da força, encanto e luz. Virgem da Penna,
Faz que a pena em nossas mãos mesquinhas
Seja a tuba da Fé, que ao Soberano
Do Céu leve o clamor da grei terrena,
Celebrando a Rainha das Rainhas.
***** 

*Soneto publicado na Revista A União, Ano VII, n. 33, de 10 de setembro de 1916, p. 2.


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

CARIDADE

"O reino de Deus vem. A mais ardente prece que Jesus ensinou diz "adveniat" e a oração inefável do Espírito Santo diz "veni". O céu vem. A esposa vem. Mas como seria possível imaginar o grito ardente que chama, que pede a vinda, o "veni", sem o impulso ainda mais ardente de correr ao encontro de quem chama? Que esposo apaixonado chamaria a esposa, gritaria: vem! sem se levantar de sua cadeira, sem esticar os braços, sem atirar corpo e alma ao encontro da bem-amada? Assim também só podemos entender a mensagem da esperança na caridade, e o reino de Deus está nesse encontro impetuoso em que Pai e filhos se atiram num imenso abraço de reconciliação.
(...)
E quando ele ainda estava longe, seu Pai o viu; e, tocado de compaixão, correu, atirou-se em seus braços e cobriu-o de beijos."
*****
Gustavo CORÇÃO. "Ainda um pouco de tempo", in A Descoberta do Outro.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

OS LIVROS MULTIPLICES

Se lestes, - já não quero dizer os Evangelhos – mas, simplesmente a Imitação de Cristo, ao tempo em que vivíeis alheio à fé; e depois voltastes a lê-la ao começo de vossa conversão; e depois, anos mais tarde, quando o habito da oração perene já em muito vos aliviou de vós mesmo; e depois, mais tarde ainda, quando as duras provações abriram rasgões no chumbo de vosso peito, deixando penetrar no mais fundo de vós mesmo o ar puro do sentimento de Deus; e depois, quase ao fim, quando a experiência do mundo já foi bastante para que lhe sentísseis o amargor total e para que dele vos desprendêsseis – tereis lido, de fato, cinco livros diferentes: cinco livros absolutamente diferentes uns dos outros. E fico nos limites estreitíssimos da minha própria experiência. Porque, sem dúvida, para os santos, a cada novo grau de santidade alcançado, corresponderá uma diversíssima compreensão desse livro multíplice. E como a Imitação, há muitos outros livros de substancia proteica, se assim me posso exprimir.
Ao lado destes, é evidente, há também os livros que, a sucessivas leituras, só revelarão de cada vez melhor a sua vacuidade.
Há cidades, há países, que são como aqueles primeiros livros. Revelam-se “outros”, se andamos para a frente, a cada nova etapa da nossa caminhada, mesmo que não tenham passado por nenhuma transformação material. Como com relação àqueles livros, podemos explorá-los em profundidade, à proporção que formos, com a experiência vivida adquirindo mais agudeza de penetração.
Tais livros, tais cidades, tais países são os que superam sempre, em substancia de sentido, a nossa força de compreensão, a cada período novo de nossa vida.
Por isto mesmo, de certo ponto em diante, são analogias de Deus.
Apenas, Deus nos supera, em substancia de sentido, infinitamente. Por mais vertiginosamente que caminhemos para ele, Ele será sempre outro para nós, - através de toda a longa eternidade.
*****
Tasso da SILVEIRA. Artigo publicado na Revista A Cruz, n. 45,1938, p. 12.

A SOCIEDADE MODERNA TENDE À ESTAGNAÇÃO

"Já não se preocupam as famílias com a formação do caráter e dos costumes de seus rebentos: ou elas lhes buscam estabilidade e segurança, em lugar de insuflar a vitalidade que lhes permitiria chantar-se no real e traçar o próprio caminho na vida, ou então os abandonam sem guias ou apoio, o que dá no mesmo: ante o temor supersticioso do futuro, procuram salvaguarda, proteção e defesa contra os riscos e os golpes da fortuna. Não há como ser diferente numa sociedade privada de modelos e de elites que os encarnem. Para os adolescentes desvitalizados, o diploma aparece como a única saída, porque ele é o caminho mais fácil, não obstante o peso dos programas. Eles não dão a menor importância – e como poderiam? – aos fatores essenciais à vida: o caráter, a retidão da vontade, a honra, o dever, o senso moral e estético, etc., mas julgam somente a inteligência formal – o diploma é que faz o homem. Segue-se que a sociedade moderna se inclina, sob a força desse peso, para o mandarinato. A idolatria do pergaminho é sinal indubitável da perda da invenção. Já que não existe a fonte de renovação que é o exemplo, perde-se a faculdade da retomada. Não suscitam mais êmulos os santos, os gênios e os heróis, e os “grandes homens” não passam de criações aventadas pela publicidade. Apesar desse turbilhão, a sociedade moderna tende à estagnação.
A conclusão a que chegamos, após análise tão alongada, será breve e clara: uma civilização não pode durar sem elites verdadeiras. É preciso que a sociedade as recupere, caso não queira submergir na barbárie".
*****
Marcel de CORTE. L'homme contre lui-même. Éd. de Paris, 2005; pp. 107-137. (Tradução: Editora Permanência)

A DESORDEM DO NOSSO TEMPO

"A desordem de nosso tempo consiste em tender para o amálgama, para o informe, para a massa, para a sociedade sem classe, para um mundo sem limites, para uma vida sem regras, para uma humanidade sem discriminações. Ao contrário disto, a sociedade que desejamos construir é uma sociedade ricamente diferenciada, e nitidamente hierarquizada. Só é possível pintar um belo quadro porque o vermelho é diferente do azul; só é possível tocar uma bela música porque há certa consonância nos acordes de quinta e certa dissonância nos acordes de sétima. E só é possível uma bela e boa sociedade de homens se as diferenças de natureza forem levadas até suas últimas consequências: quando se admitir, por exemplo, no unânime consenso que a mulher e o homem são diferentes".
******
Gustavo CORÇÃO. As Fronteiras da Técnica, Rio de Janeiro: Agir, 1955.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

REZAR NO BOSQUE

“Sem embargo, quase todos os dias, visitasse ou não as famílias do lugarejo, fazia pela tarde uma pequena excursão pela campina. Se aproveitava também dela para orar, elevando o coração a Deus e rezando o breviário. Procurava sempre dizer alguma palavra aos que trabalhavam nos campos, e com o rosário na mão, embrenhava-se nas tortuosas veredas que cruzava por entre as espessuras de tílias. Sua alma mística estava faminta de solidão e paz. No meio daquela encantadora natureza, seu peito, acostumado aos puros eflúvios das brisas, dilatava-se como lhe aprazia. Ah! Fazia bem em desfrutar; aproximava-se o tempo em que não teria nem uma hora de repouso, e viveria como entre paredes, sem o frescor do ar nem o calor do sol. Sua maior satisfação era rezar no bosque. Sozinho ali com seu Deus, contemplava suas grandezas e servia-se de tudo, até mesmo do canto das aves, para elevar-se até Ele”.
*****
Francis TROCHU. El Cura de Ars, 9ª ed., Madri: Palabra, 1996.

A MISERICÓRDIA CRISTÃ

“A misericórdia espiritual, qualquer que seja o modo por que se exercita e quaisquer que sejam as necessidades a que, amorosa, se dirige (dores, sofrimentos, erros, etc.) deve tender a dar ao próximo toda a ajuda possível, a fim de que construa nele, com a graça de Deus, o homem cristão de pensamento e de vontade. E a tal homem começamos a fabricá-lo, cada um dentro de si, tão-só quando agradecemos a Deus todas as situações, mesmo de extrema dificuldade, em que nos venhamos a encontrar; quando aceitamos de Deus incluso o látego e imploramos dele e dos outros misericórdia para que nos seja dado todo o auxílio espiritual e material para poder superar a prova. Uma misericórdia que se propõe tornar a vida ‘fácil’ a todos e, pior ainda, eliminar todos os males e os sofrimentos dos homens, dentro destes limites, não é cristã; é ainda o nosso orgulho, aquele que considera o homem capaz de vencer por si só e definitivamente o mal e a sua indigência, isto é, capaz de anular por si as consequências do pecado. Ao contrário, a primeira misericórdia para conosco e para com os outros é a de ter sempre presente a nossa indigência e a de lhe aceitar as consequências: não a de desafiar com desprezo a dor e a morte, mas a de amá-las o que é amar a Cruz. Correr imediatamente em auxilio de quem tem necessidade do nosso socorro espiritual, mas dizer-lhe também imediatamente: ‘aceita e faz a vontade de Deus; unido a ti, carrego com as tuas penas’. Esta é a misericórdia cristã”.
*****

Michele FEDERICO SCIACCA. A Hora de Cristo, Aster/Flamboyant: Lisboa, São Paulo, p. 193.

A EDUCAÇÃO PERPÉTUA

“Eis a educação perpétua: ter suficiente certeza de que algo é verdadeiro a ponto de chegar à ousadia de contá-lo a uma criança. É deste dever altamente audacioso que os modernos estão fugindo de todas as formas possíveis e sua única desculpa é, naturalmente, que suas filosofias modernas são tão imaturas e hipotéticas que eles não se julgam capazes de convencer nem a eles mesmos, quanto menos a um recém-nascido”
*****
G. K. CHESTERTON. O que há de errado com o mundo. Campinas: Ecclesiae, 2013, pp. 158-159.

domingo, 31 de dezembro de 2017

O QUE NOS IMPRESSIONA A ALMA

 "Pleni sunt caeli et terra gloria tua! - 'Os céus e a terra estão cheios da tua glória!' Em verdade, para o homem que crê, para o homem que contempla o céu e seus espetáculos, a terra e seus espetáculos com os olhos da fé, nada mais admirável do que esse céu e do que essa terra! Sem dúvida há por toda parte como sombras - às vezes negras e incompreensíveis -, o mal e o erro. Mas o que fundo nos impressiona a alma são as riquezas, a grandeza, a beleza, a glória de Deus.  A majestade e o incomensurável dos corpos celestes e dos espaços interestelares nos mostram, entre vertigens, a imensidade de Deus. As paisagens caprichosas e várias, discretas ou luxuriantes, o sorriso ingênuo e incomparável das crianças, a graça das mulheres, dão-nos um pálido reflexo da beleza de Deus”.
*****
Gladstone CHAVES DE MELO (1917-2001). A Mensagem de São Vicente de Paulo, Revista A Ordem, n. 01-02, Janeiro-Fevereiro de 1950, p. 77.

VOLTA PARA DEUS

Francisco Karam

Eu fui até Vós
Quando ergui os meus olhos.
E todas as cousas desapareceram de redor de mim.

Desapareci eu, em Vós.
Os meus sentidos
Ficaram despregados de mim,
Para Vos sentir.

E em Vós foi que eu senti
E que eu vivi.

Vivi a Vossa Eternidade.
Vivi o êxtase calado de vosso poder.

Divino como Vós, eu me senti senhor,
E grande, e criador,
E terrível.

Momento de todas as horas.
Atravessei as Idades, desde o Princípio.
E fiquei onde estava
Porque não caminhava para o Fim.
Porque não caminhava.
Porque tinha voltado para Vós
E Vós sois a Eternidade.

*****
 Publicado na Revista A Ordem, n. 3-4, 1929, p. 173.


A VIDA FAMILIAR CONHECE DOLOROSAS PROVAÇÕES

“A vida familiar conhece dolorosas provações...
Como hão de os esposos suportar esses sofrimentos se Deus não os sustém derramando-lhes nos corações os bálsamos da vida espiritual? Aqui, ainda, a graça do sacramento será a fonte inesgotável que os secundará na sustentação de seu fardo.
Aliás, as verdadeiras alegrias da vida familiar estão estreitamente unidas ao generoso cumprimento dos deveres a ela impostos.
Eis porque não se pode conceber o amor humano sem que Deus esteja presente para aluminá-lo, guiá-lo e purificá-lo.
A graça é elemento necessário à vocação do casamento”.
*****
Abade Jean VIOLLET. Moral familiar, Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, p. 12.