quinta-feira, 29 de março de 2018

QUINTA-FEIRA SANTA!


Gustavo Corção*

“Nós, porém, nos gloriamos na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, nossa salvação, nossa vida e nossa ressurreição...” (Gal. VI, 14). Estas palavras do Apóstolo Paulo, que estão no Intróito da Missa de hoje, dão-nos o diapasão, o lá fundamental para afinação de todos os muitos movimentos de nossa alma. É sabido que a teologia paulina é tecida de confrontações, de noções conjugadas em tensão dialética, de proposições que viram pelo avesso os critérios do mundo. Temos assim as dialéticas fraqueza-força, carne-espírito, homem exterior-homem interior, velho-novo, dor-alegria; mas nenhuma das grandes fórmulas paulinas afronta, ofende tão violentamente o sentir do mundo e da carne como este de hoje, que gira em torno daquilo em que nos gloriamos. Diga-me em que te glorias, e eu te direi quem és. O homem que vive segundo “as coisas velhas”, sem se aperceber que em Cristo tudo é novo, e o mundo se transfigurou na “nova criação”, gloria-se no prestígio, nos êxitos temporais, no progresso, no desenvolvimento econômico, nas coisas que, na sua ordem, merecem atenção e zelo, mas não merecem os títulos de glória que lhes damos, e muito menos o zelo prioritário que lhes conferem hoje tantos homens da Igreja. Nós outros, porém, nos gloriamos na cruz de Nosso Senhor.
Pela glória colocada em si mesmo o homem se perdeu; pela glória devolvida a quem de direito salva-se o que estava perdido; e para essa devolução, para essa revulsão, diria até para essa revolução, nenhum instrumento é mais eficaz do que a cruz de Nosso Senhor. Por isso, nós nos gloriamos nela, ao arrepio de todos os valores que o mundo tenta nos impor.
O cristianismo é essencialmente uma transfiguração, uma travessia, uma páscoa que se efetua e se consuma dentro de nossos corações; quem não percebeu isto, ou quem abandonou essa divina subversão que os loucos chamam de loucura, e os alienados chamam de alienação, não pegou a ponta da meada, ou perdeu-a no emaranhado de novidades superficiais que o mundo trouxe para encobrir a Novidade essencial e única. Isaías profetizou: "Não penseis mais nas coisas velhas, nem cuideis das passadas! Eis que vou realizar algo de novo. Já está brotando: Não o notais? Sim, eu traçarei pelo deserto um caminho e através do ermo lançarei o sulco de um rio" (XLIII, 18). O Cristo cumpriu na cruz as promessas anunciadas, e o Apóstolo as anuncia como realidades presentes no mundo: "Quando alguém está em Cristo é uma nova criatura, e pode-se dizer: o que era velho desapareceu, vede, tudo é novo!" (2 Cor. V, 14).
Mas na Quinta-Feira Santa o grito paulino ganha na Igreja uma significação mais completa: a glorificação na cruz não tem somente a significação peregrinal de aceitação da fraqueza, do sofrimento, da agonia, como aberturas do céu; tem sentido mais brilhante e mais transfigurado. Nesta cruz de hoje, no seu lenho, no seu símbolo, nas suas esquadrias, vemos a mesa da Ceia do Senhor onde, antes do sofrimento na cruz, está anunciada e representada a imolação. Não há quadro mais belo na história do mundo. Não há mais viva penetração de eternidade no mundo. O céu violou a terra, e plantou num instante, entre os seu elementos, e entre os passos incertos do homem, esse acampamento de festa divina. "Um rei celebrou as bodas de seu filho..." E a festa do céu se realiza na terra.
Hoje é relativamente fácil gloriarmo-nos na cruz, porque nela vemos a mesa da Eucaristia inaugural, da primeira missa do mundo.
Amanhã, diante do espantalho pregado num poste, fora dos muros da cidade, será mais difícil acompanhar a estranha alegria do Apóstolo. E depois, depois de amanhã, e depois de depois de amanhã, quando entrarmos na rotina dos dias iguais, e quando a Ceia Sagrada se nos apresenta como Missa, que um de nós, com mãos ungidas repete pela milionésima vez, tentando este ou aquele romper a monotonia de vinte séculos com alguma novidade mais ou menos pueril, então sim, então podemos dizer que não é fácil acompanhar a estranha alegria do Apóstolo. "Nos autem gloriari opportet in Cruce Domini nostri Jesu Christi..."
Mas ainda aqui é o caso de dizer: não temos outro itinerário, outro roteiro, outro indicador de caminhos fora dessa cruz plantada num monte e exposta à derrisão. Os homens de nosso tempo sentem cócegas nos ouvidos e querem procurar programas de uma novidade que eclipse a novidade de Deus. Em vão, em vão procurarão. É o caso de lhes perguntar como Pedro perguntou entre fiel e aflito: "Aonde iremos? Quem nos dirá palavras de eternidade?
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                                                                              O GLOBO  11/4/68



QUINTA-FEIRA SANTA


Gustavo Corção*

A vida cristã vista com os critérios do mundo parece um disparate; e quanto mais perto seguirmos as pegadas de nosso Salvador mais bem fundada parece a exclamação do Apóstolo: — “Escândalo para os judeus, loucura para os gentios.”
Eis que nesta semana e especialmente os dias da ceia e da Cruz parece concentrar-se um trágico divino que ultrapasse todos os trágicos humanos. Na 5ª Feira Santa, efetivamente, Jesus desvenda o mistério central de sua obra redentora. Ela será realizada por um Sacrifício — sacrifício único mas de três modos espantosamente diversos representados — em que Cristo Sacerdote, Verbo Incarnado, oferece ao Pai seu próprio corpo e seu próprio sangue, isto é, oferece ao Pai o Cristo–Vítima para a salvação dos homens.
Os três modos de apresentação do mesmo e único sacrifício são: a Ceia, em que o Cristo, ainda em sua santa humanidade, ele mesmo com as próprias mãos, consagra o pão e o vinho que, por um portentoso milagre, maior do que o de toda a Criação, se transubstanciam e sob as espécies dos sinais sensíveis, nos trazem a presença real de Cristo vítima por nós, desde a ceia oferecido em Sacrifício sob os véus do sacramento.
Detenhamo-nos a meditar um pouco — e que Deus nos ilumine — em certos aspectos da Ceia que merecem especial atenção. Em artigo anterior chamamos a atenção para o caráter de obra-feita, de obra longamente preparada, desta cerimônia que emenda solenemente o Antigo no Novo Testamento. É em Lucas XXII, 7 a 13, que assistimos aos últimos arremates deste cerimonial comandado pelo próprio Jesus. Não sei quantas vezes o termo ide e preparai, preparar, preparativos, mostram bem que o espantoso desenlace no opróbrio da Cruz em todos os seus pormenores foi comandado pelo artífice de nossa salvação. E é em Lucas XXII, 14 e 15, que chegamos à cena que dificilmente um coração católico pode evocar sem profunda compunção e sem um ardente desejo de voar ao encontro daquele ardente desejo que Jesus agora anuncia: — «Desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa». Começa nesse ardente desejo a Paixão de nosso Salvador. Na Cruz, como tantos autores espirituais o assinalam, Jesus repete, no extremo desconforto de uma dor inimaginável, a mesma sede de almas, concentrado naquele grito que a Sagrada Liturgia expressa na palavra; — Sitio.
Uma nota se impõe à nossa atenção à medida que a cena da Divina tragédia se desenrola naquele cenário cuidadosamente escolhido para a solenidade. Naquele tempo Jesus já era bem conhecido e já contava centenas de seguidores mais ou menos assíduos. No Domingo anterior fora aclamado pelo povo de Jerusalém: “Hosana! Bendito aquele que vem em nome do Senhor! Rei de Israel!”(Jo XII, 13 a 21). As expressões «muitos estenderam seus mantos» sugerem uma apreciável multidão. Ora, naquele instante máximo Jesus fez questão de estar só com os doze como que para mais condensar, e até ouso dizer, para melhor segredar o mistério sagrado da vida profana. Deste arcano e desta segregação resultaria uma maior firmeza nuclear no centro da Igreja. E se essas reflexões são realmente irrefutáveis, concluímos aflitos que as infelizes reformas litúrgicas, especialmente no que concernem à Santa Missa, exibem um espírito que dificilmente se coaduna com o que nos enche a alma diante da ceia.
Fugindo à idéia de Sacrifício, pouco aceitável na ONU, e procurando maior apoio na Ceia, os autores do novo missal, no infeliz Ponto 7 do Institutio Generalis apresentam a missa como essencialmente constituída «pela assembléia dos fiéis».
Por onde se vê que o extravio provocado pelo horror à Cruz, espantalho dos humanistas, em vão buscará apoio na Ceia. Exageradamente errado o famoso ponto 7 de Monsenhor Bugnini, não sendo apenas um erro material isolado, mesmo depois das serziduras e remendos, continua a bem revelar o novo espírito que alegrou Taizé e que na capa de Documentations Catholiques provocou a tenebrosa hilaridade comentada pela revista Itinéraires (n˚ 178 – Dez. 73).
Neste ponto apareceu-me o fantasma de um leitor a me reclamar o que lhe soa como uma impiedade imperdoável: aproveitar a Quinta-feira Santa para referências e comentários polêmicos.
Ora, caríssimos leitores, se o que até aqui disse provocou espanto, o que agora acrescentarei ainda mais estranho parecerá: a Quinta-feira Santa é, de todos os dias do ano, o dia mais indicado e mais propício para um artigo polêmico não somente em defesa da Santa Missa mas na denúncia dos traidores. Atrás insisti na idéia de uma esmerada preparação feita pelo próprio Senhor Jesus para a consumação de toda a dramaturgia de nossa salvação. Ora, entre as cenas preparadas pelo divino dramaturgo nós trememos diante desta obra-prima: «...Tendo assim falado, Jesus se perturbou no seu espírito e declarou em voz clara: — Em verdade em verdade vos digo um de vós me trairá. Ouvindo essas palavras, os discípulos se entreolharam sem saber de quem falava Jesus. Então, aquele discípulo que Jesus amava achava-se encostado em seu ombro; Simão-Pedro fez-lhe então um sinal e lhe disse: — Pergunte-lhe de quem fala. E João dirigindo-se a Jesus: — Senhor, quem é? Jesus respondeu: — É aquele a quem darei o pedaço de pão que vou molhar no vinho. Tomando pois o pedaço de pão molhado deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Tendo Judas recebido o pão, Satã entrou em sua alma. E Jesus lhe disse: — O que tens a fazer faze-o logo. (...) Em seguida Judas saiu. Anoitecera».
Este quadro em que Jesus formula uma denúncia que deve ter sido prevista na sua esmerada preparação e em que entra em cena o próprio Satã vem confirmar os seguidores de Cristo nesta ousada idéia de que não há dia mais oportuno para defesa polêmica das coisas santas e denúncia dos traidores.
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  O GLOBO, quinta-feira, 15/4/76


quarta-feira, 28 de março de 2018

NO LIMIAR DA SEMANA SANTA


Gustavo Corção*

Ainda uma vez estamos nós, caro leitor, enquanto por aqui andamos, no limiar da Semana das semanas, a Semana Santa, onde a alma antes de se rejubilar com os hinos da Ressurreição, contempla e sofre a Paixão do seu Senhor.
Toda nossa vida cristã, na medida em que é cristã, deveria transcorrer diante do mesmo sistema de referências com eixos em cruz, mas Deus reconhece nossa fraqueza e confiou à sua Igreja uma soma de recursos pedagógicos para reavivar em nós o nosso nome, o nosso compromisso, o nosso fraco amor. O ano litúrgico é um recurso didático, uma espécie de sabatina, mas difere numa coisa dos métodos humanos de recordação e representação. Quando celebramos um aniversário, uma data de nascimento, de feito cívico ou de festa familiar, é só afetiva a nossa rememoração. Os personagens mortos, os dias idos e vividos não reaparecem na festa senão sob as espécies de sinal e de lembrança. Outra coisa, porém, é a recordação de um mistério divino, como esta que constitui agora a Liturgia da Semana Santa: se o Cristo não torna a descer e a se encarnar e não torna a padecer, não é menos verdadeira uma espécie de descida espiritual desta grande semana. Em outras palavras, não somos só nós, Igreja Militante, que celebramos a Semana Santa, é toda a Igreja, são todos os Santos, e acima de tudo o próprio Deus que realiza na Liturgia uma repetição efetiva, real, da Encarnação e da Paixão. 
E diante dos textos inesgotáveis, por mínima que seja a atenção, tornamos a notar o duplo aspecto divino-humano, em máxima densidade nos dias da Paixão de Nosso Senhor. Tudo o que aconteceu naquele tempo, que ficou registrado nos Evangelhos, tem a marca de um contraste tremendo que Deus ao mesmo tempo exalta e aplaina. Em nenhum outro ponto do Evangelho é tão evidente a transcendência da obra de Cristo, e a sua divindade; mas também em nenhum outro ponto é tão evidente o caminho percorrido pela Misericórdia até as profundezas de nossa miséria. Na leitura de todo o Evangelho antes destes textos de concentração máxima, aqui e ali, se nota o peso da carne, diria até o leve peso da carne na vida de Jesus. Aqui ele tem fome, acolá diz-se cansado. Aqui freme de cólera diante dos vendilhões do templo ou diante da hipocrisia dos fariseus, e acolá chora diante do amigo morto. Mas nas vésperas da Paixão, já diante da Ceia, a atmosfera de paixões se adensa. No Evangelho de Marcos, a Ceia da Quinta-feira Santa começa logo, quase diria ao levantar-se o pano, com uma conversa dramática: “E quando estavam à mesa e comiam, disse Jesus: - Em verdade vos digo que um de vós, que come comigo, me há de entregar”. E então os discípulos ficaram perturbados e começaram a dizer: “Sou eu?” e começaram a se gabar: “Ainda que todos se escandalizem a Teu respeito, eu não me escandalizarei”. E assim se vê que a festa tranqüila, a refeição de amizade, se carrega de tragédia. E nós sentimos ao mesmo tempo a infinita distância, e a infinita proximidade do Verbo Encarnado em todos os passos da Semana Santa. E se em cada episódio ganha realce a tristeza de nossa miséria, acentua-se também, pelo interesse de Jesus por nós, a nota de nossa dignidade. E assim, quando estivermos inclinados a desanimar de nossa humanidade temos o Cristo Crucificado a nos ensinar do alto da Cruz, “ex-cathedra”, o fundamento de nossa religião, de nossa metafísica, de nossa moral, de nossa política.
Às vezes nos escandalizamos quando vemos dentro da Igreja agitações, perturbações, divisões, parecidas com aquela que existiu e que ganhou singular destaque na Quinta-feira Santa em torno da Ceia. E até pensamos que seja virtude calar, quando alguns dão público espetáculo de seus desatinos, como se pudesse haver alguma vantagem em tornar visível aos olhos do mundo somente este aspecto triste, com o risco de alguns pensarem que os demais aspectos da Igreja são do mesmo quilate. A Liturgia da Semana Santa mostra, por assim dizer, a enorme franqueza com que a Igreja publica, cantando, os estremecimentos, os desentendimentos, as traições. Não se escandalizem, pois, os que descobrem, como se descobrissem a pólvora, que o drama continua, e que é diante do mesmo Cristo Crucificado que nós continuamos a clamar pelos séculos e séculos, movidos por nossa insegurança, por nosso sentimento de culpa, por nosso fraco amor: “Sou eu?”, “Sou eu? Eu não me escandalizarei ...” É claro que nós gostaríamos de ter maior entendimento, sobretudo com os mais próximos; é claro que nós lamentamos, que nós choramos, que nós sonhamos com uma paz e uma unidade aqui mesmo neste vale de lágrimas; é claro, claríssimo, que nem por ser permanente o drama da Paixão, devemos descuidar-nos de lutar por uma concórdia maior dentro da Igreja. Mas a grande lição da Semana Santa é a da confiança total posta no mérito do Cristo e na obra de redenção, da qual se tira um conforto sobrenatural, que não se parece com as fórmulas usuais de conforto que o mundo pode dar. Nossa religião é de Cruz: gloriemo-nos na Cruz de Nosso Senhor.
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 *O GLOBO Sábado, 18/3/78

segunda-feira, 26 de março de 2018

A SEMANA SANTA


Gustavo Corção*
  
A comemoração litúrgica da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que na dor consumou nosso resgate, é uma lição repetida, é uma sabatina dos dois lados essenciais de nossa vida: o lado Cruz em que Nosso Senhor assumiu todas as nossas dores, convidando-nos a assim nos associarmos à sua obra, e descarregou com seu sangue a tensão de inimizade entre o homem e Deus; o lado Ressurreição com que ultrapassa tudo quanto poderíamos desejar. Para descrever o contraste da obra redentora São Paulo nos diz que “onde abundou o pecado superabundou a graça”, de onde poderíamos tirar várias conclusões de júbilo transbordante: onde abundaram tristeza e lágrima, superabundou a alegria. Ainda vemos essa alegria da Glória no lumem fidei, na lamparina da Fé que nos mostra tudo em sinais enigmas; mas um dia, se não opusermos a nossa vontade à vontade de Deus, veremos tudo o que estava escondido, e tudo resplandecerá no lumem Gloriæ.

O “mundo inimigo” que é o mundo, mas é um mundo, um Reino com seu Príncipe, e com seus clérigos nos trânsfugas que querem fundar a “nova Igreja”, que é uma anti-Igreja, a pretexto de exibir um humanismo interessado pela sorte temporal do homem, despreza a Páscoa do Senhor nos seus dois temos essências, na agonia da Cruz, e na Ressurreição.

A aliança que Deus nos propôs, por cujos termos toda nossa vida tem de se inserir entre a aceitação da Cruz e a certeza da Ressurreição, faz desta vida uma passagem, uma páscoa de valor infinito pelos seus termos extremos, sob a condição de renunciarmos aos pequenos céus frágeis e fugazes de nossa própria invenção. E é nesta renúncia do hoje horizontal, para uma entrega completa ao “hodie” vertical de vida eterna em Deus, é nesta exigência que tropeça o enorme movimento de apostasia de nossos tempos. Todos nós, ai de nós, apegamo-nos aqui e ali a um simulacro de paraíso neste mundo, mas não fazemos disto um sistema muito menos uma vanglória. Gememos, choramos, pedimos perdão 70 vezes 70.

Quando, porém, uma massa volumosa se congrega para secularizar-se, para se apegar ao mundo com grito de triunfo e com risadas de escárnio para a Casa do Pai, então não é só um recrudescimento de pecado o que vemos, não é mesmo uma heresia, “a heresia do século XX” como diz Madiran, não é só uma protestantização da Igreja isto que temos diante de uma consciência boquiaberta.

Com a característica de somar todas as heresias, esse movimento dito “progressista” é na verdade uma massificada e volumosa apostasia cujos fautores e cujos carneiros só não se afastam mais decisivamente, num último assomo de lealdade, porque hoje essa apostasia disfarçada rende muito mais do que os trinta dinheiros com que Judas comprou a corda.

Roguemos nós pelos irmãos na fé. Observemos bem que no Evangelho de São João, Nosso Senhor não desaconselha nem esconde esse amor de predileção. Depois do anúncio da traição que Jesus pronunciou com espírito aflito, Jesus se volta para despedir-se de seus discípulos, amigos e filhos: “Filhinhos meus, ainda um pouco de tempo estarei convosco; depois buscar-me-eis, e como disse aos judeus também vos digo agora: aonde eu vou não podeis vir, mas agora vos digo: trago-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei; que vós vos ameis mutuamente. E NISTO conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes caridade uns pelos outros”.

Os teólogos mais tarde ensinarão que há uma hierarquia na caridade. Neste momento de densidade infinita Jesus não hesita em dizer que seu novo mandamento consiste num amor de coesão dentro da Igreja, e já explica que esse maior amor dos fiéis, uns pelos outros, longe de ser detrimento para os outros, será sinal. “In hoc cognoscent omnes qui discipuli mei estis, si dilectionem habueritis ad invicem”. Pensando o valor deste sinal, para os outros, Tertuliano dizia: “vede como eles se amam”.

Mas no enxame de apóstatas que cerca a Igreja, os mais efusivos se apresentam como os mais bondosos e mais compreensivos do que Nosso Senhor, porque não se restringem nesse novo mandamento, e ostensivamente escolhem no mundo alheio à Igreja seus paradigmas e seus modelos de filantropia: Gandhi, Luther King, e os revolucionários Guevara e Camilo Torres. Na verdade, e como tão bem disse Marcel de Corte, esse amor abstrato pela humanidade em geral, pela classe operária, ou pelo Terceiro Mundo não passa de uma cruel falsificação do amor.

A semana da Paixão de Nosso Senhor, além de outras lições nos aviva a vigilância e a consciência de estarmos cercados de inimigos. Todas as formas da maldade do mundo têm um papel na Divina Tragédia, e não é de todos que Jesus diz: “Perdoai-os Pai, porque eles não sabem o que fazem”. Não é, portanto, para nos amolecer, e para nos tornar mais filantrópicos do que cristãos, que a Igreja realça a Semana Santa. É antes para lembrar o novo mandamento que nos tempera e nos orienta o amor.

*Revista PERMANÊNCIA, Ano VI, n° 54-55, Abril-Maio de 1973.


domingo, 18 de março de 2018

A GRANDE LIÇÃO DO CALVÁRIO


Reginald Garrigou-Lagrange O.P (1877-1964)

Fortis est ut mors dilectio: o que mais impressiona no amor de Jesus, quer por seu Pai, quer por nossas almas, é a união maravilhosa e muito íntima da mais profunda ternura e da força a mais heróica no sofrimento e na morte: Fortiter et suaviter.
Estas duas qualidades do amor estão, muitas vezes, separadas em nós e no entanto só podem viver intimamente unidas. A ternura sem a força torna-se langorosa e piegas, a força sem nenhuma suavidade, transforma-se em rudeza e amargura1.
Ninguém pode exprimir o que foi a ternura de amor filial de Jesus por seu Pai; se ele amava ternamente a Virgem Maria, quanto mais ainda seu Pai, a quem rendia perpétua ação de graças e adoração! Esta ternura sobrenatural se derramava e se derrama continuamente sobre as almas, não apenas as de um certo país ou tempo ou sobre um grupo restrito de alguns amigos, mas sobre todas as almas de todas as gerações para lhes dar a vida eterna.
Este amor de Cristo tão terno é também mais forte que a morte, mais forte que o pecado e que o espírito do mal. Foi ele que levou Nosso Senhor a se oferecer como vítima para pagar em nosso lugar, para nos salvar, dando a Deus uma reparação infinita que lhe agrada mais do que todo o desgosto causado pelos pecados: Cor Jesu, fornax ardens caritatis -- eis todas as ternuras e todas as energias do amor admiravelmente fundidas. O Coração de Jesus é assim o mais puro espelho da Misericórdia e da Justiça, as duas grandes virtudes do amor incriado de Deus.
Os membros do corpo místico de Cristo devem cada vez mais participar de sua vida para se tornarem semelhantes a Ele. A santa humanidade do Salvador nos comunica progressivamente as graças que mereceu por nós na Cruz, influxo da cabeça do corpo místico sobre seus membros. Por este influxo Nosso Senhor quer nos assimilar, cada vez mais, pelo batismo, absolvição, comunhão freqüente, cruzes ou purificações necessárias a nosso avanço, até a extrema-unção e a nossa entrada no céu. Na vida de muitos santos vê-se essa assimilação progressiva no modo pelo qual neles são reproduzidos os mistérios da infância de Jesus, sua vida oculta, depois sua vida apostólica e por fim sua vida dolorosa2.
Ora, uma das grandes marcas do espírito de Jesus em uma alma, é a reprodução nesta alma dos dois efeitos que derivam em Nosso Senhor da plenitude da graça.
Primeiro, a paz, a tranqüilidade da ordenação cada vez melhor de todos os sentimentos, de todos os quereres subordinados ao amor de Deus e das almas em Deus, amor que cresce continuamente pela influência atual de Cristo.
Em seguida, a aceitação da cruz, para seguir o Mestre, como ele disse; aceitação com paciência, do contrário a pena aumenta sem fruto; reconhecimento, pois está aí uma graça escondida, vê-se melhor quando o fardo é levado sobrenaturalmente; com amor, pois a cruz é Jesus crucificado, que vem a nós para reproduzir em nós seus próprios traços. Este amor dá o abandono e a paz. Aí se encontra a verdadeira soberania, a contemplação divina3.
O austero Luiz de Chardon diz com profundidade a este respeito, comentando São Paulo:

"Depois de termos admirado a violenta e insaciável inclinação do espírito de Jesus para a Cruz compreenderemos melhor como Ele a distribui pelas almas que lhe pertencem pelos vínculos da graça... Entendemos igualmente porque quanto maior é a elevação da alma em união com o espírito de Jesus tanto maior será sua obrigação quanto ao sofrimento... Também seria uma desordem da graça e das máximas do santo amor, se membros alimentados por confeitos estivessem ligados a uma cabeça transpassada de espinhos...
"Os membros são santificados pela mesma graça, que está em Jesus como em sua fonte universal. Ora, esta graça de Cabeça é comunicada a Jesus para a finalidade de sua missão, para que ele pague pelos pecados dos membros à justiça rigorosa de Deus. Por conseguinte, ele contrai a obrigação amorosa de sofrer provocando em seu espírito uma inclinação violenta que o transporta continuamente para a Cruz. É indispensável que esta graça incline do mesmo modo, com o mesmo rigor as almas predestinadas, a fim de que o corpo místico não pareça um todo monstruoso na ordem da graça, onde o espírito de Jesus seria contrário a si mesmo, sendo um nos membros e outro na Cabeça...
"Assim, porque a graça decorre da alma de Jesus como de sua fonte original onde ela produz um impulso dirigido para o fim pelo qual Jesus se fez homem, é uma necessidade que a graça cause esta mesma disposição naqueles que recebem a dignidade de nela participarem"4.

Este é um efeito da graça cristã como tal. A graça, por sua essência, é uma participação da natureza divina, mas, pelo fato de que nos é transmitida pelo Cristo, tem uma modalidade especial que nos configura a Ele como demonstra Santo Tomás quando pergunta se a graça sacramental, em particular a graça batismal, como tal, acrescenta alguma coisa à graça das virtudes e dos dons como a que possuía Adão antes do pecado (III, q. 62, a. 2).
Luiz de Chardon acrescenta e une assim a doutrina de um Tauler ou de um São João da Cruz à de Santo Tomás: "E porque esta espécie de graça não pode ficar ociosa em uma alma... é ávida para crescer e como só pode ter um crescimento considerável com a ajuda das cruzes... na nudez da graça, da qual suspendeu os efeitos sensíveis, Deus não abandona a alma à sua própria fraqueza. Nisto há o propósito de fazer a alma se conhecer e se desprender de si mesma... aderindo somente a Deus... A união será mais estreita e mais íntima quanto maior a separação de tudo mais.

"Daí que o mesmo amor é ao mesmo tempo princípio de vida e princípio de morte...; unindo e separando... afastando e causando adesões... A santidade de Deus comunicada a suas criaturas produz uma privação geral de tudo o que é incompatível com sua pureza imaculada5.
"Gloriosa morte... Rica de uma fecundidade divina... Morte entretanto mais cruel do que aquela que é o dever comum da natureza... pois só deixa tristes desolações nas almas! No entanto as almas bem instruídas sobre as propriedades do Amor sagrado e do fim que a santidade de Deus pretende com todas estas provações, não quereriam trocar nem por um instante seu rigoroso martírio pelas delícias embriagadoras do Paraíso, nem a cruel espera de sua morte pela feliz vida da glória"6.

É fácil ver a aplicação deste princípio na vida de Maria7. Como diz o historiador que repara o esquecimento em que caiu a obra de Chardon: "Talvez, a atividade separante, simplificante, despojadora da graça nunca tenha sido analizada com maior penetração"8.
Relendo atentamente o belo capítulo da Imitação de Cristo (1. II, cap. XI): "Do pequeno número dos que amam a Cruz de Jesus", vê-se que a marca do espírito de Cristo é a paz e o abandono no sofrimento, no acabrunhamento da Paixão, que se reproduz em diversos graus nas almas para as purificar e para fazê-las trabalhar na salvação do próximo em Nosso Senhor, com Ele e por Ele, com os meios dos quais Ele mesmo se serviu. Jesus está assim, num certo sentido, em agonia até o fim do mundo, no seu corpo místico até que este corpo místico seja plenamente purificado e glorificado, até que se realize perfeitamente a palavra do Mestre: "Venci o mundo", pela vitória definitiva sobre o pecado, sobre o demônio e sobre a morte.
Deste ponto de vista sobrenatural da fé, quando se contempla, digamos, com o olhar de Deus o que nos diz a santa liturgia, vê-se o quanto ela ultrapassa infinitamente os mais sublimes elans da poesia humana.

"Salve Crux sancta, salve mundi gloria,
Vera spes nostra, vera ferens gaudia,
Signum salutis, salus in periculis,
Vitale lignum vitam ferens omnium.

"Crux fidelis, inter omnes arbor una nobilis: nula silva talem profert fronde, flore, germine: dulce lignum, dulces clavos, dulce pondus sustinuit.
O magnum pietatis opus! Mors mortua tunc est, in ligno quanto mortua Vita fuit.
Nos autem gloriari oportet in Cruce Domini nostri Jesu Christi. Crux benedicta, nitet Dominus qua carne pependit, atque cuore suo vulnera nostra lavit".


Quando vossa alma dobrar-se sob o peso, apoiai-vos sobre vosso crucifixo.
Concluamos com São Luiz Maria Grignion de Montfort (L' Amour de la Divine Sagesse, 2a. P., cap. V):
"A Sabedoria Eterna fez da Cruz seu tesouro e em sua Encarnação esposou-a com amor inefável; durante toda sua vida, que não foi mais do que uma cruz contínua, carregou-a, pediu-a com indizível alegria... Pregada finalmente e como que colada à cruz, com alegria morreu abraçada à sua querida Cruz como num leito de honra e triunfo... E não pensem que depois de sua morte, para melhor triunfar, a Sabedoria Encarnada tenha se arrancado, tenha rejeitado a Cruz... Não querendo que honra de adoração, mesmo relativa, seja prestada a criaturas, por mais altas que sejam, como sua santíssima Mãe, reservou esta honra para sua querida Cruz e somente a ela é devida. A Sabedoria Encarnada, no grande dia do Juízo Final, acabará como o culto das relíquias dos santos, mesmo as dos mais respeitáveis; mas quanto às relíquias da Cruz, enviará os primeiros serafins e querubins pelo mundo para ajuntar os pedaços da verdadeira cruz que, por sua amorosa onipotência, serão tão bem reunidos que não farão mais que uma só e a mesma Cruz em que morreu, transportada assim pelos anjos... Precedida pela Cruz, colocada sobre uma nuvem de brilho inigualável, a Sabedoria eterna julgará o mundo com a Cruz e pela Cruz. Qual será então a alegria dos amigos da Cruz... Esperando esse dia... a divina Sabedoria quer que a Cruz seja o sinal, o caráter, a arma de todos os seus eleitos... Tendo encerrado tantos tesouros, tantas graças de vida na Cruz só dá a conhecer esses tesouros aos mais escolhidos... Como é preciso ser humilde, pequeno, mortificado, interior e menosprezado pelo mundo para conhecer o mistério da cruz! A quem carrega e suporta essa cruz, a Sabedoria Eterna dará um peso eterno de glória no céu".
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(De "L' Amour de Dieu et la Croix de Jesus", Ed. du Cerf. 1o. vol., cap. VI, pág. 255. Tradução de Anna Luiza Fleichman)

1.Ver sobre isto L. Chardon, La Croix de Jesus, 3o. entretenimento, cap. VIII, onde o autor mostra como Deus quer a ternura de suas criaturas para uni-las a sua força, e como Ele transforma esta ternura em força divina. "Ele quer que o amor intensivo caminhe na alma perfeita de par com o amor apreciativo e que a ternura dos sentimentos esteja de acordo com a preferência do julgamento".
2.Ver encíclica de Pio XI, junho de 1928, Miserentissimus Redemptor, sobre a reparação devida a Deus por todos os homens.
3.La Croix de Jesus, 1a. edição, pg. 119-121. Nova edição (Lethielleux) T. I, pg. 14, 29, 43, 136; T. II, pg. 376, 450.
4.Cf. São Luix Grignion de Montfort, L' Amour de la Divine Sagesse II P., cap. VI: "Meios de se obter a sabedoria divina: 1.) desejo ardente; 2.) prece contínua; 3.) mortificação universal; 4.) terna e verdadeira devoção à Santíssima Virgem."
5.La Croix de Jesus, ibid., pg. 125-128.
6.Ibid., pg. 146-147.
7.L. Chardon, ibid., no primeiro de seus três "entretenimentos", mostra o que foi o "amor separante", princípio de Cruz, na alma de Maria e dos apóstolos: são dez capítulos de grande profundidade sobre o martírio interior da Santa Virgem. No terceiro de seus "entretenimentos" ele descreve admiravelmente, à luz do mesmo princípio, os grandes ápices da vida interior de Abraão, de Elias, de Jacob, de Benjamin, da Esposa dos Cânticos, de Marta e de Madalena. Páginas admiráveis onde a teologia mística doutrinal aparece como o coroamento normal da teologia toda, tal como a conceberam Santo Agostinho, Santo Tomás e todos os grandes mestres. O capítulo sobre Elías (3o. entretenimento, cap. 25) é digno de nota: "Moisés dizia: "Apagai-me do livro da vida"; São Paulo pedia para ser anátema por causa de seus irmãos! Mas estes desejos não tinham outro efeito senão testemunhar o grande amor destas almas por seus irmãos... Não é este o caso de Elias. Há cerca de três mil anos que Elias está privado da visão de Deus, e estará privado até o fim do mundo, para satisfazer desejos que participam da imensidade divina... Elias está reservado... para lutar contra o Anticristo".
8.Bremond, Histoire Litt. du Sentiment Religieux en France, t. VIII, pg. 43. Não sei se Chardon leu São João da Cruz, em todo caso ele está imbuído de Tauler de quem expõe a doutrina.


sábado, 17 de março de 2018

PEDAGOGIA DA VIRTUDE


Frente à Pedagogia da mediocridade e do ecletismo, frente à proposta de um self-made man sem outro compromisso senão com a ausência de compromisso, frente à moral autônoma, frente aos pensamentos moveis e à anormalidade homologada como normal, frente a todas as formas de imanentismo, reducionismo e massificação, frente à destruição da vida contemplativa com as maquinas de ensinar e os programas de controle remoto, frente – em suma – à Pedagogia Moderna, é necessário, urgente, impostergável, reconquistar a Pedagogia dos Arquétipos.
Tudo já foi provado; resta provar a Verdade.
Um ensino fundamentado no senhorio sobre si mesmo – que não é outra coisa que a verdadeira liberdade -, na renúncia e na obediência, na concepção da vida como um ato de serviço; um ensino baseado nos mais elevados valores especulativos e nas mais licitas preocupações concretas.
Pedagogia do homem essencial, portador de um destino transcendente; Pedagogia da virtude e do Patriotismo; da Ordem Natural e do realismo; Pedagogia da Cruz e não da foice e do martelo...
A resposta adequada deve partir de uma atitude metafísica. Não basta resolver problemas conjunturais por importantes que pareçam. Mas, ademais -  e isto é decisivo -, esse movimento da alma para o Exemplar que suscitam os Arquétipos, não só incide no próprio aperfeiçoamento pessoal e social mas tem seu desenlace obrigatório, sua coroação, diríamos, no conhecimento e imitação do Arquétipo por antonomásia, a Causa Exemplar, Modelo e Modelador, guia e matriz de tudo o que existe: Deus.
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Antonio CAPONNETTO. Pedagogía y educación: la crisis de la contemplación en la Escuela Moderna. Colección Ensayos Doctrinarios. Buenos Aires: Cruz y Fierro Editores, 1981, pp. 256-257.


A GRANDE PENÚRIA ESPIRITUAL QUE NOS OPRIME


A grande penúria espiritual que nos oprime é, com efeito, a carência de sacerdotes. Dar sacerdotes ao Brasil é dar injeções de vida às pobres almas brasileiras que por aí pululam ao desamparo e à mercê das investidas da heresia e da depravação. É levar o lume santo e salvador do Evangelho a esses rincões tão vazios de Deus! É abrir às almas as perspectivas sublimes da vida e da luz eternas por que todas aspiram e que tantas desconhecem! É trabalhar por um Brasil melhor, porque mais orientado para a Fé que salva e para o verdadeiro Bem que redime! É, portanto, fazer obra de autêntico patriotismo, porque é integrar os nossos irmãos no patrimônio civilizador que recebemos no berço da nacionalidade e que mãos protervas e lábios satânicos contendem por arrebatar dos braços da Santa Igreja! É dar à Pátria filhos obedientes, blindados de energias indômitas para a luta em prol da causa de Deus que tantas vezes - e agora mais do que nunca - se confunde com a causa mesma da Pátria. É dar à nossa infância o antidoto imunizante dos venenos que corroem as adolescências desarvoradas. É dar à vida o verdadeiro sentido que a dignifica, erguendo, sobre os fundamentos autenticamente humanos, o edifício cristão que os coroa e sublima, pela consciência exata e total do dever individual, doméstico e social. É preparando almas para Deus, preparar, pelo fato mesmo, filhos úteis, prestimosos e devotados para a grande Pátria que estremecemos. 
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Pe. Jorge SOARES C. M. In Revista Semana Católica, Bahia, 18-05-1942.


sexta-feira, 2 de março de 2018

TELEVISÃO E DISSOLUÇÃO FAMILIAR


“A pretensa objetividade da televisão não existe, não pode existir. Como nos explicou Vladimir Lamsdorf-Galagane em um de nossos Congressos, toda informação é discurso, é opinião. Por objetiva que pareça, implica uma forma de pensar. No que diz respeito à família, tanto como objeto quanto como sujeito passivo, a televisão exerce uma clara influência ideológica, que determina tanto o que os membros da família pensam como o que a sociedade pensa e opina sobre a família. Em nosso país durante as últimas décadas, a Televisão foi um permanente agente a serviço da atual conspiração contra a família, exercendo um papel chave para a introdução e aceitação social do divórcio, do aborto, das relações pré-matrimoniais, e em geral, de todas as formas de erosão da família tradicional e cristã.
Ademais, a televisão opera sobre determinados esquemas mentais, capacidades cognitivas, estruturas perceptivas e sensibilidades preexistentes no indivíduo. Mas ao mesmo tempo que se ativam são modificadas pelo meio. A televisão produz um fenômeno de hiperestimulação sensorial, que leva a uma necessidade de estimulação sensitiva continua, que por sua vez provoca falta de concentração e uma visão fragmentada da realidade que foi denominada 'cultura mosaico'.
Enquanto a cultura tradicional era limitada nos conhecimentos, mas organizada, coerente, estruturada, a cultura mosaico se caracteriza pela desordem, a dispersão e o caos. A televisão favorece um tipo de conhecimento incoerente e descentralizado. Em um informativo, por exemplo, se passa da tragédia na Ruanda aos resultados da liga de futebol, e segundo depois um anuncio frívolo apresenta a felicidade fugaz através da aquisição de um perfume... A imagem televisiva potencializa, por outro lado, o pensamento visual, intuitivo e global contra a leitura, que estimula o pensamento lógico, lineal, sequencial. Por essa razão, ver televisão não requer concentração, senão apenas abertura. Se privilegia assim a percepção sobre a abstração, o sensitivo sobre o conceitual e, em definitivo, a implicação emotiva. Assim ocorre que as respostas que a televisão desencadeia são mais do tipo de “gosto-não gosto” do que “estou ou não estou de acordo”. O intuitivo e o emocional tende a prevalecer sobre o intelectual e racional, o que dá lugar a um estilo impulsivo de pensamento em lugar de um estilo reflexivo. Outrossim, a televisão potencializa o sentido de imediatismo e de dinamismo e, definitivamente, o sentido da impaciência ao oferecer uma satisfação imediata derivada do próprio significante, diferentemente da leitura, cuja gratificação é retardada por provir do significado e não dos signos do significante. Satisfação instantânea e hiperestimulação sensorial que a retroalimenta. E quando a experiência não é gratificante cabe sempre recorrer ao controle para mudar de canal.  As frustrações se produzem quando na vida não se pode mudar de canal tão facilmente, nem se pode acelerar o ritmo dos acontecimentos, vivendo com a impaciência do zapping* nos olhos e no coração.
Assim, a televisão é um catalizador do gosto do homem atual da mudança pela mudança e se opõe, evidentemente, ao forjamento do caráter e das virtudes, à capacidade de entrega, de sacrifício e autonegação que requer tantas vezes a vida familiar e a educação dos filhos".
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Javier URCELAY ALONSO. Tevisión y Disolución Familiar, Revista Verbo, n. 339-340, Madri, pp. 995-997.

*Mudança rápida e consecutiva de um canal para outro, com o controle remoto, geralmente para evitar os intervalos comerciais.


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